DA UNIDADE VAI NASCER A NOVIDADE

O Ato do Dia Internacional da Mulher em Curitiba deste ano foi histórico. Isso só foi possível pela união de mais de 45 movimentos e coletivos feministas e de mulheres que se reuniram mais de 15 vezes para traçar as estratégias, dividir responsabilidade e compartilhar o protagonismo.
Nos anos anteriores também organizávamos este ato com diversos movimentos, porém as diferentes leituras de conjuntura fazia com que houvesse acirramentos e pouca mobilização. O caminhão de som se trnsformava em um palanque para disputas de análises e versões da política econômica que em nada agregava mulheres à luta feminista. A preocupação maior era ter a melhor narrativa da conjuntura e interagir com as mulheres do percurso da marcha ficava em segundo plano. As minorias (Mulheres Negras, Indígenas, do Campo) precisavam elevar o tom para ter seu espaço garantido para trazer suas pautas da vida real. É claro que esse era o comportamento dos grupos mais radicais, tem muitas companheiras que de fato organizam o movimento em prol das mulheres e não de seus interesses eleitorais. Ainda bem que as guerreiras valorosas do movimento são a maioria, porém a disputa no caminhão sempre ganha maior repercussão e destaque nas avaliações.
Como isso mudou? A unidade dos movimentos feministas aqui no Paraná, que culminou no oito de março 2017, foi inevitável com o desenrolar da conjuntura. As questões político-partidárias sempre trouxeram entraves na unificação dos diversos movimentos, mas o avanço da direita e o retrocesso nas pautas das mulheres com o conservadorismo da bancada evangélica e com o golpe, fez com que o discurso fosse afinado entre todas nós para barrar a perda de nossos direitos.
Conforme escrevi em “Conjuntura, Fora Cunha e Grelo Duro” desde a declaração do Eduardo Cunha (PMDB) em 2015, na época presidente da Câmara dos Deputados, onde ele disse: “aborto só vai a votação se passar pelo meu cadáver”, nós mulheres fomos para as ruas exigindo que ele saísse do cargo. Ele engavetou a pauta da descriminalização do aborto e na sequência, quase como uma afronta aos movimentos feministas, ele reapresentou o PL5069/13 que dificulta procedimentos de atenção à saúde importantes para vítimas de violência sexual. Nessa época também ganhou grande proporção os ataques misóginos contra a Presidenta Dilma. Desde adesivos chamando/comparando a presidenta a uma vaca, até alusões ao estupro.
Os movimentos mistos pouco deram atenção as palavras de ordem das mulheres pedindo FORA CUNHA. Não se ligaram que a misoginia revelava o fascismo do cunha e diziam que isso “era assunto dos coletivos de mulheres”, “As mulheres estão tirando o foco da luta contra o golpe”. Ouvimos tanta bobagem, quando na verdade se os homens valorizassem nossa militância a história poderia ter sido outra.
Neste momento nos unimos para mostrar para a bancada evangélica que não aceitamos e não aceitaremos retroceder em direitos, nos unimos para mostrar para os esquerdomachos de nossas organizações que as bandeiras de lutas das mulheres não são assuntos menores e não aceitamos ser invisibilizadas.
Quando o Cunha foi preso os esquerdomachos disseram categoricamente para as mulheres não comemorarem, “é tudo cortina de fumaça para prender o Lula”, “Não podemos comemorar nenhuma ação da Lava Jato”. Já denunciávamos o Cunha antes do Moro. Isso é silenciamento de uma luta. Mas pedir para as mulheres utilizarem o ato do oito de março para fazer defesa do Lula, isso foi feito sem nenhum pudor. Pedir para deixarmos nossos acordos com diversos movimentos de lado, para acirrar ainda mais a disputa pelo microfone do ato, para acabar com a sororidade, isso pode, comemorar a prisão do misógino do Cunha, isso não pode. Não engoli e me manifestei contrária, a consequência é que até hoje sou olhada de maneira torta por muito militante que hierarquiza a luta, inclusive mulheres.
Simone de Beauvoir alertou: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” O que eu não sabia é que isso também cabia para os espaços mistos da esquerda.
Veio o golpe, assumiu o ilegítimo. Desde a composição de seu ministério ele mostrou qual seria seu compromisso com as pautas das mulheres. A decisão de acabar com o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos e transferir a dotação orçamentária para a presidência da república, revela sua falta de interesse em minorias de direitos. Mais uma vez tomamos as ruas em solidariedade a Presidenta Dilma, pois o golpe foi permeado de machismo, e também pedindo o FORA TEMER.
As mulheres se uniram. Inclusive a união entre mulheres através da sororidade, supera o acordo das lideranças de movimentos em frentes de lutas. O oito de março deste ano foi incrível. Houve divisão de responsabilidades na construção da atividade e na organização no dia do ato cada uma cumpriu sua tarefa. É claro que como qualquer ato tivemos dificuldades, mas o resultado foi ótimo. Tivemos várias gerações de mulheres, várias orientações, mulheres cis e trans, várias etnias e raças. Essa mistura trouxe tanto aprendizado, tanta troca de experiência… Saí com a sensação de que é possível unidade na esquerda se ao invés das lideranças egocêntricas se unirem para disputar protagonismo e hegemonia, isso fosse construído através da SORORIDADE, ou seja, protagonizado pelas mulheres e com verdadeira democracia. Será que vão deixar? Será que irão perguntar para nós, mulheres, como fizemos dar certo esse ato quando forem fazer os seus, ou será que considerarão que esse é o nosso único espaço? Será que nos chamarão para reuniões? Será que irão valorizar nossa militância? Ou será que continuarão nos invisibilizando e nos olhando de canto quando pedirmos fala?
Para aqueles e aquelas que lerão esse texto e ficarão incomodados, e me olharão ainda mais torto do que já olham, deixo para a reflexão as palavras de Audre Lorde: “Eu não posso escolher entre as frentes em que eu devo batalhar essas forças da discriminação, onde quer que elas apareçam pra me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não durará muito para que depois eles apareçam pra destruir você.”
Viva a luta das mulheres

Dia do Orgulho Hetero ou Legitimaçãoda Homofobia?

Ter orgulho de sua orientação sexual é libertador e todas e todos devem ter esse direito político e reconhecimento social. Porém este “orgulho” não pode ser utilizado como subterfúgio para subjugar quem tem a orientação sexual diferente da sua. A campanha do Dia do Orgulho Heterossexual, desde sua criação e principalmente nas redes sociais, tem forte teor machista e homofóbico.

O projeto de lei que cria o Dia do Orgulho Heterossexual, com a proposta de ser comemorado no 3º domingo de dezembro é de autoria do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O projeto foi apresentado em 2011 e na justificativa da proposição, Eduardo Cunha afirmou que “a presente proposta visa a resguardar direitos e garantias aos heterossexuais de se manifestarem, e terem a prerrogativa de se orgulharem do mesmo e não serem discriminados por isso”. Em outro trecho da justificativa, o peemedebista afirma que “no momento em que se discute preconceito contra homossexuais, acabam criando outro tipo de discriminação contra os heterossexuais e, além disso, o estímulo da” ideologia gay “supera todo e qualquer combate ao preconceito”.

A justificativa da proposição mostra um pano de fundo altamente preocupante. Pode-se entender que a intenção é permitir que o heterossexual possa manifestar a defesa de sua opção sexual inclusive em detrimento de outras opções “sem ser discriminado por isso”. Caso a fala seja homofóbica ela pode ser reinterpretada como orgulho hetero. Veja bem o perigo. É uma forma avessa de legitimar a homofobia.

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Esta imagem coloca a mulher como mercadoria e inferioriza seu papel dentro de uma relação afetiva. O gosto por mulher é comparado ao gosto por cerveja e por churrasco, ou seja, objeto de consumo para satisfação pessoal do homem. A Seguinte afirma que ser hétero é ser divertido, legal e popular. De forma implícita defende a rejeição social Aos homossexuais. E a tônica da campanha tem sido essa. Não defende a opção pela heterossexualidade e sim tem se mostrado defensora do machismo e da legitimação da homofobia.

Esse debate traz a reflexão da disputa política das redes sociais. Os movimentos populares também precisam ocupar este espaço, não somente divulgando notícias de seus sites, que são de grande importância na formulação de opinião com conteúdo, mas dialogando com um novo público que utiliza a rede para informação rápida e compartilhamento. Neste sentido a política conservadora está bem adiantada.

Além do caráter heteronormativo, da defesa da família tradicional, do forte viés racista, da contrariedade do empoderamento feminino e da legitimação da homofobia a atuação da direita no compartilhamento de informação nas redes sociais se destaca pela covardia do anonimato. Seguimos no sentido oposto. Nossas postagens são e devem sempre ser muito bem identificadas através de nossas entidades e movimentos ou até mesmo individualmente. Isso permite inclusive que quem quiser buscar mais informações de determinado tema saiba onde buscar.

Vale lembrar que os heterossexuais não são alvo de preconceitos, e sim suas posições discriminatórias. Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro e Marco Feliciano sofrem rejeição popular não por serem Heterossexuais mas sim por serem misóginos, homofóbicos, fundamentalistas e terem posicionamentos racistas. Ao contrário, são os/as LGBTTs que militam em defesa da criminalização da homofobia. Enquanto uns querem reafirmar seus privilégios outros lutam para não serem mortos.

Este tipo de legislação comprova a necessidade de uma reforma política. Enquanto mantivermos um congresso conservador que é eleito através do investimento do capital em suas campanhas milionárias, que representam uma minoria burguesa, as leis de direitos humanos serão sempre escanteadas pela defesa do capital.

A meta, o horizonte utópico, é a superação do sistema capitalista, que se alicerça no patriarcado e no racismo. Este sistema além de explorar a classe trabalhadora como um todo, defende a inferiorização de grupos sociais para poder explorar estes ainda um pouco mais do que outros. Somente com outro projeto de sociedade, num novo mundo possível, em uma sociedade socialista, conseguiremos que o dia de orgulho seja do orgulho dos direitos humanos, e que a orientação sexual de cada um defina suas relações afetivas e não seu acesso a direitos

A cultura do estupro e a necessidade de democratização da mídia

O Anuário Nacional de Segurança Pública lançado em novembro de 2014 constatou que, só em 2013, 143 mil mulheres denunciaram terem sofrido violência sexual. Isso resulta na realidade de que a cada 04 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Não podemos deixar de levar em conta que esses dados não compõem toda a realidade, já que uma grande quantidade das vítimas desse tipo de violência não chega a denunciar.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, na pesquisa de Tolerância à violência contra mulher, revelou que 61,5% dos entrevistados concordam com as afirmações de que a culpa do estupro é da mulher “por não saber se vestir”, “não saber se comportar adequadamente”, dentre outras. Dos entrevistados, 58,5% concordam com a afirmação de que se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupro no Brasil.

Na minissérie “Ligações Perigosas”, em 07 de janeiro de 2016, exibida pela Rede Globo, foi veiculada uma cena onde a personagem da jovem Cecília, mesmo recusando-se explicitamente a manter uma relação sexual com Augusto, foi forçada ao sexo. Ainda assim, a direção da minissérie optou por mostrar a personagem sentindo prazer durante a violência, o que fez com que muitos sites e blogs afirmassem que a personagem na verdade “cede” à insistência do estuprador.

A cultura do estupro é reproduzida desde os assédios na rua até a violência sexual física, culminando na responsabilização da vítima e não do estuprador. Outra face desta cultura é o silêncio sobre o assunto, o que permite que se criem mitos como os de que os estupradores são desconhecidos e/ou possuem algum tipo de doença, quando na realidade a maioria dos estupros acontecem dentro do ciclo social da vítima e o violentador é alguém próximo, tal qual pai, irmão, tio, amigo, namorado e, inclusive, marido.

Justamente como forma de manutenção da violência, cenas como a descrita acima, agem. Ao romantizar este fenômeno, assistimos se naturalizar o comportamento dos homens em não respeitar a vontade das mulheres, colaborando com a perpetuação da concepção patriarcal em que a recusa da mulher na realidade significaria um “sim”, considerando que os seus corpos estão à disposição.

Assim, a minissérie, bem como todo conteúdo veiculado nas grandes mídias, a exemplo da objetificação feminina difundida em propagandas televisivas, reforça ainda mais a cultura do estupro e indica uma contradição em si, pois que caso se confirmasse que as mulheres consentem no estupro, isto descaracterizaria o ato forçado. Ao contrário de questionar os telespectadores sobre porque se evita ouvir o “não” da mulher, sedimenta na cabeça dos brasileiros e das brasileiras que a conquista por parte do homem – ainda que forçada – não é violenta, demonstrando assim uma completa ausência de responsabilidade, diante dos dados alarmantes das pesquisas sobre violência contra as mulheres e a cultura do estupro, indo ao encontro da necessidade das mulheres em resistirem vivas.

A culpabilização das vítimas e a desresponsabilização por parte dos poderes (in)competentes não nos causa surpresa. A comunicação no Brasil é dominada por algumas empresas privadas, que funcionam como extensão de um número menor de 10 famílias brasileiras. Os protagonistas dessas corporações são chefes políticos, homens, burgueses, brancos que comandam a mídia nacional. Essa mídia hegemônica é evidentemente porta voz de um projeto de sociedade que insiste na manutenção da ordem capitalista, racista e patriarcal, irremediavelmente contrário ao nosso projeto feminista e popular.

Tal projeto de poucos se expressa na criminalização dos movimentos sociais e das lutas populares; na superestimação dos atos de rua da direita brasileira e invisibilidade dos atos da classe trabalhadora; no terrorismo econômico e desvalorização da maior empresa estatal; na ética seletiva, denunciando só os casos de corrupção que lhes interessam; coniventes com o extermínio da juventude negra; a mercantilização do corpo das mulheres; a invisibilidade ou forma estereotipada com que representa as mulheres negras, indígenas, camponesas, jovens, lésbicas e trans.

Portanto, não leva em consideração a pluralidade e diversidade de todas nós. Ao contrário, fortalece a imposição de um padrão de beleza racista e reforça os papeis de gênero, além de naturalizar todo o tipo de violência que sofremos, compactuando com a ideia de culpabilização e responsabilização da vítima, romantizando a conquista do estuprador, sem problematizar as circunstâncias de opressão e de submissão vivenciada pelas mulheres dentro do modelo de um sistema no qual as mulheres não tem voz e nem vez.

Democratizar a comunicação se faz urgente à vida das mulheres. E isto passa por resgatar a responsabilidade do Estado sobre a regulamentação da mídia e criação de mecanismos que inibam a violência contra a mulher também nos meios de comunicação. Por sua vez, resgatar o papel do Estado é refundar a democracia brasileira, através de uma Constituinte Exclusiva e Soberana para a Reforma do Sistema Político que coloque fim a relação de promiscuidade entre os políticos eleitos institucionalmente e os meios de comunicação.

Não nos silenciaremos diante da exaltação da violência contra as mulheres. Seguiremos em Marcha pelas reformas estruturais de que o país necessita e pela consolidação de outro projeto de sociedade, inclusivo, diverso, participativo, feminista e popular!

Lá vou eu, lá vou eu

Vou lutar com as feministas

Repudiar a Globo

Emissora machista e racista, lá vou eu!

Confira a música feita pelas companheiras da Marcha Mundial das Mulheres da Bahia, núcleo Negra Zeferina

 

*Por Clarissa Nunes e Elisa Maria – militantes da Marcha Mundial das Mulheres em Pernambuco.

Empoderamento não é somente uma questão estética

Um termo muito usado no movimento feminista e no movimento negro é o chamado Empoderamento. Nas redes sociais ele ganha destaque com imagens de negras utilizando turbantes e Black powers como sinal de aceitação da própria estética e ancestralidade e também como forma de desafiar o padrão de beleza estabelecido. Recentemente uma peça publicitária tratou do empoderamento das mulheres embelezando um grupo na ocasião da assinatura do divórcio.
Sobre a propaganda fiquei com a dúvida se a mensagem era “olha o que você perdeu” ou “olha o que junto a você eu deixei de ser”. No caso da primeira afirmação o comercial transmite a ideia de que a mulher “conquista e segura” o homem através da manutenção da beleza, portanto machista. No segundo caso ela empodera a mulher que sai de uma situação que a oprime e liberta o seu verdadeiro eu. As duas interpretações são possíveis, mas o comercial não é o tema aqui.
Empoderar-se é reconhecer-se enquanto sujeito social, político, autor da sua própria história. É entender-se como capaz de lutar por direitos que não são só seus, mas também de um grupo. Segundo Ana Carolina Cerqueira, empoderamento é singular e é plural. Singular no sentido de que é um processo individual e pode ocorrer pelas mais diferentes motivações, até pelo divórcio. Plural porque por meio do empoderamento aprendemos que a luta é coletiva.
Tenho observado que a indústria da beleza tem se apropriado deste termo para favorecer o mercado cosmético. Como se “mulher empoderada” fosse aquela que usa batom vermelho vivo, decote no umbigo e salto agulha nº 10. É uma reformulação nos padrões de beleza. Não é somente a característica física (loira de cabelo liso e magra), mas também o que se usa, como se a auto confiança da mulher fosse demonstrada através de uma sensualidade chique.
Algumas companheiras do movimento feminista fazem a interpretação absolutamente contrária, entendendo que ser empoderada e/ou libertária é fazer o oposto do que o senso comum enxerga como belo em uma mulher. Daí não mais se depilam, não mais se maquiam, só usam rasteirinha ou sapatilha, roupas customizadas e o cabelo o mais natural possível. A intenção é impactar, chocar, causar constrangimento. Isso por vezes afasta algumas mulheres do feminismo por não se enxergarem capazes de pertencer àquele grupo.
EMPODERAMENTO NÃO É SOMENTE UMA QUESTÃO ESTÉTICA. Para as mulheres negras, assumir o crespo é sim um rompimento com um padrão imposto pela sociedade, mas não é a única forma de resgate da ancestralidade e nem uma obrigação para a militância. Conheço diversas negras que alisam seus cabelos e são grandes militantes do feminismo antirracista. Essa questão ainda divide a opinião de várias companheiras.
Acredito que a interpretação extremada de determinados conceitos é resultado de um primeiro contato, da fase inicial da vivência de um novo aprendizado. Num primeiro momento há o entusiasmo de viver intensamente o que se aprende no movimento. Com a experiência vai se distinguindo o que é essencial do que é superficial em cada situação.
Empoderar-se supera a questão estética, é uma questão política. É quando a mulher se apropria da argumentação de que pode e deve ser protagonista de sua própria vida, e mais que isso, defende que todas as outras mulheres também o sejam. É entender-se capaz de buscar a participação nos espaços de decisão com igualdade de direitos em todas as esferas, desde relacionamento afetivo até as disputas de cargos em espaços de poder. É aceitar-se como sujeito político e intervir sem medo de ser considerada menos por ser mulher ou negra, porque sabe que não é. É achar-se linda através do seu próprio olhar e não a depender do julgamento alheio. É sentir-se livre para ser você mesma. Mulheres do mundo, empoderai-vos

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ENEM e o debate de gênero


No   ENEM 2015 – Exame Nacional de Ensino Médio – ao todo, 5.810.948 candidatos fizeram ao menos uma das provas e tiveram que refletir sobre a luta do movimento feminista. Nos dois dias de prova o tema foi abordado. No primeiro dia com a seguinte questão sobre a citação de Simone de Beauvoir:

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino.”
BEAUVOIR, 5 O segundo sexo Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1980.
Na década de 1960, a proposição de Simone de Beauvoir contribuiu para estruturar um movimento social que teve como marca o(a)
A) ação do Poder Judiciário para criminalizar a violência sexual.
B) pressão do Poder Legislativo para impedir a dupla jornada de trabalho.
C) organização de protestos públicos para garantir a igualdade de gênero.
D) oposição de grupos religiosos para impedir os casamentos homoafetivos.
E) estabelecimento de políticas governamentais para promover ações afirmativas.

Na redação, o tema foi  “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.  Os dados trazidos após a divulgação do resultado trazem várias informações importantes para reflexão. Muito foi dito sobre os 104 candidatos que obtiveram nota mil na redação (nota máxima) e sobre as 55 candidatas que relataram situações de violência que viveram ou que presenciaram. Mas o que me chamou a atenção foram os 53 mil candidatos que tiraram nota zero.

A lógica do Enem não é avaliar se o participante adquiriu uma série de conceitos que
fizeram dele um erudito. A prova quer avaliar a cidadania do candidato. O debate da luta contra a violência as mulheres não é uma pauta exclusiva da esquerda feminista como alguns insistem em dizer, é um tema de Direitos Humanos. E o Brasil é signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

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A temática proposta é uma afirmação. A redação deveria abordar os motivos da persistência da violência conta a mulher e preferencialmente alternativas para reduzir, tal situação. Fico pensando quantas redações foram anuladas por estar em branco e, o mais grave, por desrespeitar os direitos humanos. É um cenário preocupante.

Acho importante relembrar a dificuldade enfrentada na aprovação nos Planos de Educação sobre a abordagem de gênero nas escolas. A resistência em tratar deste assunto está expressa no resultado do ENEM 2015, 53 mil redações zeradas. Espero que este resultado faça com que alguns grupos políticos entendam a importância do tema. Afinal debater gênero não é somente discutir orientação sexual – é também – mas passa principalmente pela pauta de defesa de direitos humanos

Vamos às ruas por um projeto feminista e popular para o Brasil!

Se 2014 foi difícil, esse final de 2015 está provando que tudo pode piorar. Para além de todo o retrocesso envolvendo direitos trabalhistas, maioridade penal etc, vimos ser aprovado o estatuto da família, e o corte de dois ministérios – a Secretaria de Políticas para as Mulheres, SPM, e a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, SEPIR.

Estamos vivendo um momento de crise econômica. Nessas horas, diferente do que em momentos de prosperidade, a burguesia mostra seu lado mais reacionário, propondo medidas para manter seu lucro, ainda que em crise. Essas medidas são ataques aos direitos da classe trabalhadora, o avanço sobre os territórios (o que também resulta em mais guerras), o aprofundamento do racismo (expresso no acelerar do genocídio dos povos negro e indígena) e do patriarcado (mercantilização do corpo e vida das mulheres e meninas, controle da função reprodutiva das mulheres) entre outras coisas. Para isso, as elites precisam de um governo que seja seu. Um governo neoliberal “puro sangue”. Não lhes interessa mais um governo de “conciliação de classes”.

É a partir daí que precisamos analisar a situação atual: ao mesmo tempo em que a direita força para aprovar os ataques ao povo brasileiro, força para a queda de um governo que já não lhe interessa mais.

O governo, neste momento, colhe os frutos de sua política de conciliação: não fez reformas estruturais, e não investiu na organização popular. Para manter-se no poder, em vez de apostar na construção de uma forte base social, apoiou-se (e, numa política suicida, ainda se apoia) numa governabilidade absurda, que somente o fez recuar cada vez mais, e cada vez mais assumir a agenda política que perdeu nas urnas em 2014.

Muitos pensam que esse é um problema do PT, então ele que se lasque, mas se enganam: o governo federal e o PT são somente a ponta do iceberg. Junto com o governo, vão as políticas sociais e, depois, as outras organizações de esquerda, incluindo aí os movimentos sociais. O governo está sendo atacado pela direita não por seus defeitos, mas por seus acertos, e tudo que é política que promova a igualdade está sob ataque. Não à toa os primeiros ministérios a caírem são os que tratam de gênero e raça. Essas secretarias praticamente não tem gastos (de ministério é só o status mesmo), mas, para o capital, mulheres e negros/as fortalecidos/as, têm.

Acho que o mais recente exemplo de como isso não é um problema só do PT foi a agressão sofrida por João Pedro Stédile, da Direção Nacional do MST: para além de relacioná-lo com o PT, chamavam-no de “terrorista”, “comunista”. As ofensivas conservadoras “contra o PT” não são, portanto, somente um ataque ao PT, mas fazem parte de um processo de criminalização das nossas idéias e de todos/as aqueles/as que lutam por um Brasil justo e soberano.

Isso não significa, em absoluto, defender esse governo e fechar os olhos para o rumo que está tomando. Nosso lado é o da classe trabalhadora, e por isso devemos ser firmemente contra essa política econômica. Mas não podemos compactuar com a quebra da legalidade do mandato da presidenta Dilma. Isso também faz parte do projeto da direita, junto com todos os outros retrocessos que estamos presenciando.

Nesse sentido, é importante que apontemos saídas unitárias. Temos que ir pra rua, mas não iremos sozinhas: vamos com todos e todas que estejam dispostos a construir um outro projeto de país. Pra além de resistirmos aos ataques, é preciso que apontemos para onde queremos ir. Por isso, construções como a Campanha da Constituinte e a recém-formada Frente Brasil Popular são importantes, pois apontam a construção de uma unidade mais profunda entre os movimentos populares.

O dia 16 de dezembro será mais um momento de irmos para as ruas, em defesa da democracia, contra a privatização da Petrobrás e em defesa de outra política econômica. Nós, mulheres, não pagaremos pela crise que os ricos criaram. Dizemos não ao ajuste fiscal e ao corte de ministérios, e dizemos sim a um projeto de soberania nacional, de autonomia para as mulheres e liberdade para o povo brasileiro! Iremos às ruas por um projeto feminista e popular para o Brasil!

Texto de Maria Júlia (adaptado) – militante da Marcha Mundial das Mulheres de São Paulo.

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Sororidade com a Ministra Katia Abreu

sororidadeQuando soube da ofensa machista sofrida pela Katia Abreu cometida pelo José Serra, e a consequente reação da Ministra confesso que me senti representada. Pena não ter respingado nos machistas do entorno.

Para quem não conhece o caso, no dia 09/12 houve um jantar de confraternização de senadores da base e oposição na casa do líder do PMDB, Eunício Oliveira (CE). Numa roda, o senador Ronaldo Caiado, que é médico, contava de um episódio em que teve de aplicar uma injeção na ministra. José Serra num ato machista fez a seguinte colocação:

— O que tenho ouvido é que você tem fama de ser muito namoradeira — brincou Serra.

— Me respeite que sou uma mulher casada e mesmo quando solteira, ao contrário de você, nunca traí — e arremessou um copo de vinho no senador tucano.

— Você é um homem deselegante,  descortês, arrogante e prepotente. É por isso que você nunca chegará a presidência da república. Nunca lhe dei esse direito nem essa ousadia. Por favor, saia dessa roda, saia daqui imediatamente.

Apesar das divergências políticas com a Kátia Abreu – que por sinal são muitas – quando falamos de violência contra as mulheres, neste caso violência verbal, todas nos unimos contra a misoginia. A Ministra em seu twitter citou que todas sabem o eufemismo para o termo “namoradeira”. Sabemos sim. A resposta foi sim a altura.

A política ainda é um espaço hegemonizado pelos homens e mais que isso, pelos homens brancos, de meia-idade, conservadores e em boa parte fundamentalistas. A deputada Maria do Rosário também se posicionou fortemente quando foi atacada pelo Bolsonaro. Não nos calaremos diante das violências de gênero.

Não posso negar que tenho restrição com alguns termos usado pela Ministra em sua defesa. “Mulher honrada” traz algumas reflexões sobre a autonomia da mulher sobre seu corpo. Qual mulher tem honra e qual não? Eu discordo dessa categorização das mulheres entre corretas/direitas e não corretas. Somos todas mulheres e cada qual tem direito de conduzir sua vida afetivo-sexual como quiser, sem escalas de moralidade. O que tenho acordo com ela é de que nenhum homem tem o direito de fazer piadas ou insinuações sobre a vida amoroso-sexual das mulheres para divertir à outros. Como se tivessem algum direito sobre nossas ações, sobre nossas vidas.

Esse fato ocorrido com a Kátia me fez querer escrever sobre a SORORIDADE. De forma breve sororidade significa a aliança feminista entre mulheres. A palavra é análoga a fraternidade. Ambas as palavras vem do latim, sendo sóror irmãs e frater irmãos. Mas, na nossa linguagem usual, ficamos apenas com a versão masculina do termo, afinal de contas, a sociedade patriarcal nos ensina que relações harmoniosas somente são possíveis de se concretizarem entre homens.

Sororidade é a construção de alianças políticas entre mulheres, para contribuir com a eliminação de todas as formas de opressão e ao apoio mútuo para alcançar o empoderamento de cada mulher. É a contramão do pensamento de que mulheres são inimigas, falsas entre si e competidoras.

O interesse em nos afastar, em desarticular a luta feminista, é do capital, é do patriarcado. Pratiquemos nós a sororidade.

Por isso, apesar das divergências políticas com a Ministra Kátia Abreu, estamos juntas  na luta contra o machismo