DA UNIDADE VAI NASCER A NOVIDADE

O Ato do Dia Internacional da Mulher em Curitiba deste ano foi histórico. Isso só foi possível pela união de mais de 45 movimentos e coletivos feministas e de mulheres que se reuniram mais de 15 vezes para traçar as estratégias, dividir responsabilidade e compartilhar o protagonismo.
Nos anos anteriores também organizávamos este ato com diversos movimentos, porém as diferentes leituras de conjuntura fazia com que houvesse acirramentos e pouca mobilização. O caminhão de som se trnsformava em um palanque para disputas de análises e versões da política econômica que em nada agregava mulheres à luta feminista. A preocupação maior era ter a melhor narrativa da conjuntura e interagir com as mulheres do percurso da marcha ficava em segundo plano. As minorias (Mulheres Negras, Indígenas, do Campo) precisavam elevar o tom para ter seu espaço garantido para trazer suas pautas da vida real. É claro que esse era o comportamento dos grupos mais radicais, tem muitas companheiras que de fato organizam o movimento em prol das mulheres e não de seus interesses eleitorais. Ainda bem que as guerreiras valorosas do movimento são a maioria, porém a disputa no caminhão sempre ganha maior repercussão e destaque nas avaliações.
Como isso mudou? A unidade dos movimentos feministas aqui no Paraná, que culminou no oito de março 2017, foi inevitável com o desenrolar da conjuntura. As questões político-partidárias sempre trouxeram entraves na unificação dos diversos movimentos, mas o avanço da direita e o retrocesso nas pautas das mulheres com o conservadorismo da bancada evangélica e com o golpe, fez com que o discurso fosse afinado entre todas nós para barrar a perda de nossos direitos.
Conforme escrevi em “Conjuntura, Fora Cunha e Grelo Duro” desde a declaração do Eduardo Cunha (PMDB) em 2015, na época presidente da Câmara dos Deputados, onde ele disse: “aborto só vai a votação se passar pelo meu cadáver”, nós mulheres fomos para as ruas exigindo que ele saísse do cargo. Ele engavetou a pauta da descriminalização do aborto e na sequência, quase como uma afronta aos movimentos feministas, ele reapresentou o PL5069/13 que dificulta procedimentos de atenção à saúde importantes para vítimas de violência sexual. Nessa época também ganhou grande proporção os ataques misóginos contra a Presidenta Dilma. Desde adesivos chamando/comparando a presidenta a uma vaca, até alusões ao estupro.
Os movimentos mistos pouco deram atenção as palavras de ordem das mulheres pedindo FORA CUNHA. Não se ligaram que a misoginia revelava o fascismo do cunha e diziam que isso “era assunto dos coletivos de mulheres”, “As mulheres estão tirando o foco da luta contra o golpe”. Ouvimos tanta bobagem, quando na verdade se os homens valorizassem nossa militância a história poderia ter sido outra.
Neste momento nos unimos para mostrar para a bancada evangélica que não aceitamos e não aceitaremos retroceder em direitos, nos unimos para mostrar para os esquerdomachos de nossas organizações que as bandeiras de lutas das mulheres não são assuntos menores e não aceitamos ser invisibilizadas.
Quando o Cunha foi preso os esquerdomachos disseram categoricamente para as mulheres não comemorarem, “é tudo cortina de fumaça para prender o Lula”, “Não podemos comemorar nenhuma ação da Lava Jato”. Já denunciávamos o Cunha antes do Moro. Isso é silenciamento de uma luta. Mas pedir para as mulheres utilizarem o ato do oito de março para fazer defesa do Lula, isso foi feito sem nenhum pudor. Pedir para deixarmos nossos acordos com diversos movimentos de lado, para acirrar ainda mais a disputa pelo microfone do ato, para acabar com a sororidade, isso pode, comemorar a prisão do misógino do Cunha, isso não pode. Não engoli e me manifestei contrária, a consequência é que até hoje sou olhada de maneira torta por muito militante que hierarquiza a luta, inclusive mulheres.
Simone de Beauvoir alertou: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” O que eu não sabia é que isso também cabia para os espaços mistos da esquerda.
Veio o golpe, assumiu o ilegítimo. Desde a composição de seu ministério ele mostrou qual seria seu compromisso com as pautas das mulheres. A decisão de acabar com o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos e transferir a dotação orçamentária para a presidência da república, revela sua falta de interesse em minorias de direitos. Mais uma vez tomamos as ruas em solidariedade a Presidenta Dilma, pois o golpe foi permeado de machismo, e também pedindo o FORA TEMER.
As mulheres se uniram. Inclusive a união entre mulheres através da sororidade, supera o acordo das lideranças de movimentos em frentes de lutas. O oito de março deste ano foi incrível. Houve divisão de responsabilidades na construção da atividade e na organização no dia do ato cada uma cumpriu sua tarefa. É claro que como qualquer ato tivemos dificuldades, mas o resultado foi ótimo. Tivemos várias gerações de mulheres, várias orientações, mulheres cis e trans, várias etnias e raças. Essa mistura trouxe tanto aprendizado, tanta troca de experiência… Saí com a sensação de que é possível unidade na esquerda se ao invés das lideranças egocêntricas se unirem para disputar protagonismo e hegemonia, isso fosse construído através da SORORIDADE, ou seja, protagonizado pelas mulheres e com verdadeira democracia. Será que vão deixar? Será que irão perguntar para nós, mulheres, como fizemos dar certo esse ato quando forem fazer os seus, ou será que considerarão que esse é o nosso único espaço? Será que nos chamarão para reuniões? Será que irão valorizar nossa militância? Ou será que continuarão nos invisibilizando e nos olhando de canto quando pedirmos fala?
Para aqueles e aquelas que lerão esse texto e ficarão incomodados, e me olharão ainda mais torto do que já olham, deixo para a reflexão as palavras de Audre Lorde: “Eu não posso escolher entre as frentes em que eu devo batalhar essas forças da discriminação, onde quer que elas apareçam pra me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não durará muito para que depois eles apareçam pra destruir você.”
Viva a luta das mulheres