Permita-me discordar

Sororidade não é sinônimo de aquiescência. É o pacto entre as mulheres que se reconhecem como irmãs, é um dos principais alicerces do feminismo. Sem a ideia de “irmandade” entre as mulheres, dificilmente o movimento conseguiria ganhar proporções significativas para impor as suas pautas. É uma tática na luta contra o patriarcado. Percebo que há dificuldade com esse conceito e já li algumas feministas definindo sororidade como ideal utópico.

Creio que muitas vezes o problema é associar o significado de sororidade ao de fraternidade, mas não como conceito filosófico ligado às ideias de Liberdade e Igualdade e sim a ideia de sociedade secreta de homens onde todos seguem um rito e um estatuto. Quem não segue as regras não é membro do grupo. Não somos assim. Feminismo não é uma “fraternidade de mulheres”. Não somos todas iguais. Temos diversas correntes de pensamento dentro do feminismo e defendemos essa diversidade. Para exemplificar cito de forma resumida as principais:

  1. Feminismo Radical: acredita que a raiz da opressão feminina são os papéis sociais inerentes aos gêneros. Reivindicam uma espécie de volta de um determinismo quase que biológico: mulheres são aquelas que têm vagina, que têm filhos, que têm ovário;
  2. Feminismo Socialista: vê no capitalismo a fonte da desigualdade entre gêneros;
  3. Feminismo Liberal: prega que as mulheres podem vencer a desigualdade das leis e dos costumes gradativamente, combatendo situações injustas pela via institucional e conquistando cada vez mais representatividade política e econômica por meio das ações individuais.
  4. Feminismo Interseccional (do qual mais me aproximo): procura conciliar as demandas de gênero com as de outras minorias, considerando classe, raça, orientação sexual, deficiência física… São exemplos de feminismo interseccional o transfeminismo, o feminismo lésbico e o feminismo negro.

Se somos tão plurais como exigir que concordemos sempre? Repito: sororidade não é sinônimo de aquiescência. Não significa concordar com tudo, ou com todas. Ana Liési Thurler, integrante do grupo de pesquisa Vozes Femininas, da Universidade de Brasília (UNB) define sororidade como “acolhimento, empoderamento, solidariedade entre mulheres”.

A origem da palavra sororidade está no latim sóror, significa “irmãs” e irmãs nem sempre concordam. Temos metas comuns que são a igualdade de direitos entre os gêneros, o combate a violência contra as mulheres, empoderamento político com ocupação de espaços de decisão, respeito a diversidade, garantia de direitos sexuais e reprodutivos, dentre outros, porém muitas vezes divergimos no método para alcançar o mesmo objetivo.

Divergir não significa deixar de respeitar, deixar de ser irmã. Divergência inclusive suscita reflexão e o reexame de nossas opiniões. Divergência não é o oposto de sororidade.

É muito comum em debates feministas quando não há acordo político uma das argumentadoras evocar a “falta de sororidade”. Tá errado amiguinha. Há falta de sororidade quando se fere o princípio de entender a outra como sua irmã, ou seja quando se falta com o respeito. Debate no campo das ideias (tese e antítese) são inclusive essenciais para formação de síntese. São saudáveis quando há maturidade política para construção de novos pensamentos.

O que percebo é um apelo recorrente para a tal “falta de sororidade” quando o ego é ferido por alguma discordância com outra militante, e isso faz com que o conceito fique sempre entendido de forma distorcida e parecendo inatingível.

A verdade é que temos muita dificuldade de aceitar crítica. Quando alguém mostra que entende que teu raciocínio não é o mais correto, o mais comum é vermos isso como uma ofensa e não como uma oportunidade de melhoria, de crescimento, um novo desafio de aprendizado. Aprendi que só criticamos de forma direta, aqueles e aquelas que acreditamos que podem melhorar, caso contrário não gastamos tempo e investimento intelectual numa conversa que não surtirá efeito. Portanto a crítica direta é um voto de confiança no potencial da outra companheira. De forma alguma é falta de sororidade.

Precisamos aprender a ouvir mais e sermos humildes em aceitar que alguém pode estar te dando uma dica e não te ofendendo. Escrevi sobre a necessidade de escuta no texto Feminismo e Reprodução Social.

Companheiras, entendamos que nem toda divergência é falta de sororidade, assim como nem toda concordância significa companheirismo, ao contrário, as vezes significa que a outra não está nem aí para o que você pensa ou faz, simples descaso.

Vamos nos desafiar ao exercício da dialética e assim praticar a sororidade ou vamos manter nosso conhecimento em pedestal e manter o conceito como utópico?

Por fim a definição de sororidade que acho interessante é a que conceitua como sendo uma aliança feminista entre mulheres que tem a consciência crítica sobre a misoginia e o esforço, tanto pessoal quanto coletivo, de destruir a mentalidade e a cultura machista. Sua prática permite às mulheres serem coerentes e potencializa a cultura feminista.

Sororidade exige humildade e respeito. Nós não conseguiremos combater o patriarcado se estivermos ocupadas brigando uma com as outras

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O “pecado” da minha cor

Nasci em Porto Alegre, mas fui criada no Rio de Janeiro. Cheguei com dois anos de idade e vivi lá até os 22.  A cidade é linda e tem diversas atividades culturais, eventos anuais e pontos turísticos que encantam quem conhece. As atividades culturais são do que mais sinto falta: shows na praia, ou em teatro de lona (barato), bares que não cobram entrada, quiosques com pagode ao vivo, dentre outros. Sinto falta de sentar na calçada e bater papo com os amigos. Alguns pontos turísticos porém tem custo de acesso tão elevado que só são conhecidos por boa parte dos moradores da cidade pela televisão. Mas quero tratar do que é ser negra no Rio nos eventos turísticos anuais, em especial no Carnaval. Muitas vezes deixei de sair de casa com medo de ser confundida… consegue imaginar com o que?

A propaganda que é feita para o público externo sobre o que é o carnaval desconsidera completamente a história. O Carnaval é uma festa popular realizada durante 05 dias desde 1892, antecedendo o início do período da quaresma católica. É constituído por blocos de carnaval, bailes de fantasia, festas de rua e caracterizado pela irreverência.

As escolas de samba surgiram somente em 1928 com a “Deixa Falar” fundada por Nilton Basto, Ismael Silva, Silvio Fernandes, entre outros. O termo “escola de samba” foi usado, pois na rua Estácio, onde aconteciam os ensaios, havia uma Escola Normal. A escola de samba Deixa Falar funcionava ao lado desta Escola Normal.

A Deixa Falar fez muito sucesso entre os moradores da região. Ela acabou por estimular a criação, nos anos seguintes, de outras agremiações de samba. Surgiram assim, posteriormente, as seguintes escolas de samba: Cada Ano Sai Melhor, Estação Primeira (Mangueira), Vai como Pode (Portela), Vizinha Faladeira e Para o Ano sai Melhor.

Nestas primeiras décadas, as escolas de samba eram organizadas de forma simples, com poucos integrantes e pequenos carros alegóricos. Já havia competição para definir qual escola apresentava o melhor desfile, porém a competição entre elas não era o mais importante, mas sim a alegria e a diversão.

Por décadas os desfiles das escolas de samba tiveram menor importância dentro do carnaval por se tratar de algo relacionado à negritude. O elegante eram as festas que aconteciam em clubes caros da elite. A partir da década de 1950, a aproximação de intelectuais de esquerda ao samba e conseqüente incorporação da classe média aos desfiles, deram destaque às escolas de samba que foram valorizadas como centro do carnaval carioca e evento nacional. Desde 2004 o Carnaval do Rio de Janeiro é considerado o maior carnaval do mundo.

A apropriação do Carnaval pelas elites e a transformação do desfile das escolas de samba em negócio lucrativo causou algumas mudanças nas escolas. Passaram a existir os enredos encomendados por grandes corporações, alas inteiras sem nenhum membro da comunidade de origem da escola, profissionalização de integrantes (comissão de frente, por exemplo), fantasias de alto luxo para ser usada por destaques da elite nacional, redução da fantasia das mulheres com alto grau de exposição do corpo, convite para que mulheres midiáticas ocupassem lugares na escola que antes eram escolhidos dentre as mulheres da comunidade (como a rainha da bateria), transmissão ao vivo na TV aberta, dentre outras mudanças visando aumento do lucro dos investidores.

Desde 1991 a Globo criou uma personagem que não tem origem cultural e sim de marketing, para divulgar a transmissão do evento: a “Mulata Globeleza”. Essa mulata samba nua, coberta por purpurina, ao som da vinheta de carnaval da emissora.

Problema 1: A palavra mulata, de origem espanhola, vem de “mula” ou “mulo”: aquilo que é híbrido, originário do cruzamento entre espécies. Mulas são animais estéreis nascidos do cruzamento dos jumentos com éguas ou dos cavalos com jumentas. Em outra acepção, são resultado da cópula do animal considerado nobre (equus caballus) com o animal tido de segunda classe (equus africanus asinus). Sendo assim, trata-se de uma palavra pejorativa que indica mestiçagem, impureza. Mistura imprópria que não deveria existir. Empregado desde o período colonial, o termo era usado para designar negros de pele mais clara, frutos do estupro de escravas pelos senhores de engenho.  A adjetivação “mulata” é uma memória triste dos 354 anos (1534 a 1888) de escravidão negra no Brasil. Por um tempo chegou-se acreditar que as mulatas e os mulatos fosse estéreis como as mulas.

Problema 2: A repetição anual da vinheta da “Mulata Globeleza” naturalizou na população brasileira a ideia de que é tradição de carnaval as mulheres andarem nuas durante esse período. Enquanto os brasileiros acham que “não há nada demais nisso” para os estrangeiros é um convite a exploração sexual, em especial das mulheres negras.

Para mim, mulher negra jovem (sai do Rio aos 22) era comum na praia, em bares, em festas de carnaval ouvir a pergunta: “quanto é o programa?”. Enquanto as mulheres brancas eram elogiadas pela forma física que iriam expor no desfile para nós, mulheres negras, cabia a pecha de sermos todas desfrutáveis durante o carnaval. Se estivesse acompanhada por um homem branco, crescia a certeza dos turistas de que eu era prostituta.

Problema 3: Somente agora ao 34 anos, relembrando essa situação que para mim no Rio era corriqueira, percebi que isso não deveria ser considerado normal. Para não ter que explicar que nem todas as mulheres negras cobram por sexo no carnaval, eu me privava de ir a determinados locais que queria. Enquanto estivermos em um sociedade patriarcal estaremos em constante violência psicológica. 

Enquanto o feminismo liberal traz a pauta de desconstrução do padrão estético de beleza, nós mulheres negras lutamos contra a hiper-sexualização dos nossos corpos. Tem diferença? Sim. E muita.

O padrão de beleza imposto às mulheres é um padrão eurocêntrico, onde o bonito é ter beleza branca angelical. Cabelos loiros, quadril e busto pequenos porem tesos, corpo magro, olhos claros, bochechas rosadas, nariz e lábios finos. A mulher negra nunca foi considerada angelical, pois não cabe na descrição. As características fenotípicas da mulher negra são o contrário do que se considera angelical. O quadril largo, os seios fartos e os lábios carnudos nos fizeram ganhar o título de termos “a cor do pecado”. Inclusive por tempos esse termo justificou o estupro de mulheres negras, pois seu corpo “quente” gerava nos homens instintos primitivos incontroláveis.

O debate da hiper-sexualização da mulher negra ainda é cercado de polêmicas. Há quem diga que a presença (e vitória) de mulheres negras em concursos de beleza, traz à tona a representatividade da negra como bela, indo na contramão da hiper-sexualização. Nem sempre. Grande parte das vitoriosas desses concursos tem quadris na medida branca, busto na medida branca, sobrando para característica negras a cor da pele, o lábios carnudos que são considerados sensual e o cabelo que no concurso “até” esta Crespo, mas nas atividades pós-vitória, em presenças VIP, em programas de TV, já está muito bem escovado. Eu sempre pondero que essa “representatividade” em concurso estético, muitas vezes aclamada pelos movimentos, possa acabar gerando um padrão negro de beleza e por consequência mais uma pauta para desconstruirmos, além da hiper-sexualização.

Trago a percepção de que a “Mulata Globeleza” não deveria existir. É um desserviço na luta das mulheres negras. Porém tenho de reconhecer que foi um grande avanço a mudança deste anos nas vestimentas da Globeleza, além de mostrar que o carnaval é multicultural com manifestações regionais como o Frevo, Maracatu e Axé.

Essa vitória é sim resultado das manifestações feministas que repudiam a exposição dos nossos corpos como mercadoria turística e que fazem campanha permanente contra a cultura do estupro na sociedade machista que vivemos.

Também é uma vitória que valoriza a cultura negra, mostrando que samba carrega a história de um povo. Samba não é somente carnaval. Nossas músicas carregam as vozes de nossa ancestralidade. De nenhuma forma nossa cultura deveria ser vinculada à exploração sexual como vem acontecendo.

Concluo com as palavras de Stephanie Ribeiro e Djamila Ribeiro:

Não aceitamos ter nossa identidade e humanidade negadas por quem ainda acredita que nosso único lugar é aquele ligado ao entretenimento via exploração do nosso corpo. Não mais aceitaremos nosso corpo refém da preferência e da vontade de terceiros, para deleite de um público masculino e de uma audiência que se despoja do puritanismo hipócrita apenas no Carnaval. Não mais aceitaremos nosso corpo narrado segundo o ponto de vista do eurocentrismo estético, ético, cultural, pedagógico, histórico e religioso. Não mais aceitaremos os grilhões da mídia sobre nosso corpo!”

Nossos passos vem de longe e seguiremos em marcha até que todas sejamos livres

Sobre a chacina misógina de Campinas

Demorei muito tempo refletindo e processando tudo o que tenho ouvido sobre a chacina misógina ocorrida em Campinas. Não quero me deter aos fatos do ocorrido, nem as cartas ou audios, pois a grande mídia tem feito essa exposição em detalhes, mas vou contextualizar para introduzir a discussão.

Na madrugada da virada de 2016 para 2017 o técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, pulou o muro onde acontecia uma festa de ano-novo, e assassinou sua ex-esposa Isamara Filier, 41 anos, seu filho João Victor, 8 anos, e mais dez pessoas. Ao todo, Araújo disparou contra 15 familiares e amigos de Isamara. Dos 12 mortos, nove eram mulheres. Além das três vítimas que estão hospitalizadas sem risco de vida, mais três conseguiram escapar ilesas. Dois adolescentes que se esconderam em um banheiro relataram que o filho do atirador disse: “Você matou a mamãe”. Logo depois, ouviram os disparos que mataram Victor. Depois da chacina, Araújo se matou com um tiro na cabeça. Foi um crime premeditado, planejado, que utilizou de vários artefatos. Outro fato que chama atenção é que diversas pessoas conheciam a intenção dele de assassinar a ex-esposa, porém ele seguiu seu plano sem nenhum impedimento.

Isamara já tinha buscado todos os mecanismos legais contra ele, denunciando abuso sexual do filho, pedindo e conseguindo medidas judiciais de proteção em relação aos dois. Em cartas e audios deixados pelo atirador, ele justifica os doze assassinatos ao dizer que buscava vingança por ter perdido a guarda do filho Victor depois de ser denunciado por abuso sexual contra a criança. Para se referir à ex-esposa. Isamara Filier, à mãe dela e a outras mulheres da família dela, ele só usa uma palavra, o tempo todo: “vadia”.

Conversando com pessoas que não estão envolvidas em movimentos sociais, os relatos que ouvi são muito tristes. Ouvi mulheres dizendo que não adianta recorrer a Lei Maria da Penha em caso de violência ou ameaça, que a medida protetiva é somente um instrumento burocrático, que se o homem quiser ele mata de qualquer forma. Ouvi também que por vezes é melhor manter um relacionamento abusivo do que separar e correr o risco de ser assassinada.

Esse crime gerou em diversas mulheres um sentimento de encolhimento de liberdade, de desproteção, de necessidade de submissão ao homem por sobrevivência.

Em outro texto escrevi que nós mulheres vivemos com medo dos homens. Medo do estupro, do feminicídio, da agressão física e psicológica, do relacionamento abusivo, da inferiorização intelectual, das diversas formas de violência que somos submetidas pelos homens que acham que por sermos mulheres devemos realizar suas vontades por obrigação religiosa, moral e/ou cultural.

Abro aqui um parêntese: Lendo as notícias sobre a chacina muito me chamou a atenção o uso do termo “ex-mulher”. Parece que quando uma mulher se divorcia ela deixa de ser mulher. O Homem é ex-marido, ou seja, para ele muda o estado civil, porém para a mulher parece que há uma perda de identidade social. Ela é ex-mulher e não ex-esposa. Fecho parêntese.

Sim, nós mulheres temos medo do machismo que pode nos matar, mas se recuarmos pelo medo, iremos retroceder em conquistas. Não podemos aceitar relacionamentos abusivos por medo de agressão. Não podemos aceitar que violentem de qualquer forma (física, sexual ou psicológica) a nós e aos nossos filhos e filhas e tratar como problema de doméstico. Não podemos ficar presas em relacionamentos infelizes e com tortura psicológica para não chocar a família. Não precisamos mais manter casamentos doentes e agressivos por conta da dependência financeira ou por que a Igreja determina.

Temos avanços legais como A Lei Maria da Penha que contribuiu para diminuir em cerca de 10% a taxa de homicídio contra mulheres dentro de casa. Essa  Lei não trata só da questão penal, apenas 12% de seus artigos tratam da questão penal. Os outros todos são de prevenção à violência doméstica. Não é somente para tratar de quem já fez, mas sim para prevenir.

Os dados do Mapa da Violência de 2015 indicam impacto positivo da Lei Maria da Penha. Enquanto o índice de crescimento do número de homicídios de mulheres no Brasil foi de 7,6% ao ano entre 1980 e 2006, quando a Lei Maria da Penha entrou em vigor, entre 2006 e 2013 o crescimento foi de 2.6% ao ano. Esse percentual tem que diminuir ainda mais e para isso precisamos fortalecer essa política.

Não podemos desacreditar nas conquistas que são fruto da organização das mulheres em busca de direitos. Se ainda não somos livres temos que lutar por mais medidas que promovam a igualdade, que empodere mulheres, que aumente a representatividade em espaços políticos, que nos protejam e que puna agressores. Devemos fortalecer a nossa militancia e não nos encolhermos.

Somos contra a misoginia e não vamos ceder ao ódio. Não vamos voltar para o tempo em que o papel da mulher era ser a ajudante do marido. Não vamos fechar os olhos quando abusarem de nossas crianças. Retroceder não vai impedir eles de nos matar, ao contrário a violência contra a mulher voltará a ser o assunto doméstico que cada família resolve de acordo com a sua tradição, sem repercussão, sem denuncia, sem punição.

É muito difícil evitar crimes de ódio. Neste caso ele foi premeditado, e não possibilitou chance de reação. Foi um ato covarde e o suicídio deixa um amargo de impunidade visto que o atirador concluiu seu plano. O que é preciso rever são medidas protetivas mais eficientes que consigam minimizar feminicídios anunciados.Precisamos melhorar a Lei e não desacreditá-la.

O que de fato me deixou perplexa neste caso é que o autor da chacina reproduz um discursso que se houve muito na “direita coxinha verde-amarela”. Ele traz um ódio as mulheres e a sua emancipação, apresenta contrariedade a Lei Maria da Penha, desacordo com o sistema político e ao fato de mulheres ocuparem postos de decisão como a Dilma na presidencia. Isso demonstra o avanço assustador do pensamento conservador tão doentil que leva o agressor a acreditar que está agindo corretamente ao matar a ex-esposa e o filho sobre quem ele perdeu a autoride e quem mais estivesse perto.

Não podemos ceder ano medo.  A coragem, a força, a vitória cotidiana está em efrentá-lo. Não podemos deixar o conservadorismo avançar.Devemos nos manter na luta defendendo políticas públicas de proteção as mulheres. Devemos seguir buscando representatividade nos espaços políticos elegendo mulheres feministas que defendam nossas pautas e  que proponham leis que promovam a igualdade, que defendam nossos direitos sexuais e reprodutivos, a dignidade humana, a possibilidade de seguirmos vivas…

Por isso mulheres nosso dever é Seguir Em Marcha Até que Todas Sejamos Livres

O machismo só te incomoda na hora em que você é acusado de sê-lo?

Esse texto tem intenção de dialogar com os homens, em especial os homens com ideologia de esquerda. Quero provocá-los. Leiam até o final e respondam nos comentários. Será que vocês já refletiram sobre o porquê das companheiras de militância de vocês, da mesma organização, usarem o termo “esquerdomacho”?
O Movimento feminista em muitos momentos é visto como uma questão menor dentro da esquerda. O que de fato importa são as análises da macroestrutura, o cenário econômico-financeiro, a avaliação de disputas de poder, a construção/manutenção de quadros com potencial para disputar mandatos eletivos… Discutir “assuntos das mulheres”, em tempos de crise, pode esperar.
Acontece que muitas de nós não conseguimos esperar esse tempo. Morremos. Assassinadas por homens. Algumas de nós somos tão silenciadas pelos “companheiros” que saímos da militância. Abandonamos o barco ou ficamos no cantinho cumprindo a cota.
Quando não queremos músicas que afirmam a superioridade masculina em confraternização de movimentos, partidos, sindicatos e centrais somos chatas. Quando reivindicamos direito de fala em atos, somos limitadas a uma intervenção somente e se reclamamos das falas majoritariamente masculinas somos chatas. Quando pedimos espaço para uma intervenção feminista (cênica) em qualquer atividade política, seja de rua ou de espaços fechados, não dá tempo. Se reclamamos, ouvimos, com freqüência, que esse não é foco e novamente somos chatas. Quando reclamamos de memes ou vídeos nas redes sociais, WhatsApp, Telegram, é muito comum algum companheiro dizer que “um pouco de humor não faz mal”, “é só uma brincadeira, uma piada” e se discordamos, daí somos muito chatas.
Mas quando dizemos que os homens nos matam, violentam e/ou silenciam, tem um bocado de companheiros de esquerda que logo se defendem dizendo que nem todos são assim. Querido, se você não atua para mudar a atitude dos coleguinhas, você está sendo cúmplice do machismo. A culpa é tua também.
O machismo só te incomoda na hora em que você é acusado de sê-lo? É isso mesmo? Não te incomoda ouvir nas avaliações das ações políticas as companheiras reclamando do silenciamento das mulheres? Não te incomoda ouvir o teu companheiro fazer piada sobre os nossos corpos? Não te incomoda ouvir teu companheiro nos assediando? Não te incomoda saber que teu coleguinha de esquerda abusa dos nossos corpos quando bebe um pouco mais e usa essa desculpa para passar a mão e se encostar? Não te incomoda o machismo ao redor? Não te incomoda que o Estado defina nossos direitos e deveres reprodutivos e que a mulher seja criminalizada caso não cumpra um lei escrita por homens para controlar nossos corpos?
Quantas mulheres precisam morrer vítimas de feminicídio? Quantas mulheres precisam morrer em abortos clandestinos? Quantas mulheres precisam ser estupradas? Quantas mulheres do seu convívio precisam sofrer com violência doméstica para que vocês homens passem a achar importante se solidarizar e participar dos nossos atos em defesa da vida das mulheres? Participar com presença física mesmo. Não é só compartilhar o evento nas redes e contatos. Não participar somente no papel de companheiro da fulana feminista, mas como defensor da pauta de fato.
Nós, mulheres, temos medo de vocês, homens. Medo de andar na rua e ouvir algum assédio. Medo de ser agredida quando dissermos não. Medo de sermos estupradas e sermos culpabilizadas pela roupa que vestimos ou pelo lugar que frequentamos. Medo de ser minimizada aos trabalhos domésticos sobre forte coação e dependência financeira. Medo de viver sendo inferiorizada intelectualmente porque não entendemos de política tão bem como vocês (ironia). Medo de sermos chamadas pela organização política mista que participamos somente para organizar as festas, ficar na recepção fazendo crachá de encontros, congressos e seminários, ou controlar quem sobe em caminhão de som. Medo de que a lei, feita por homens, defina nossos direitos sexuais e reprodutivos.
Esse medo que temos está confortável para vocês? Se não está, o que você está fazendo para mudar essa situação? Eu acho que está confortável, sim. Tão confortável que vocês não se levantam para lutar conosco, levantam somente para se defender quando os acusamos de serem ESQUERDOMACHOS.

Acabou novembro, e o racismo?

O mês de novembro traz para pauta de debate de diversas entidades e movimentos o combate ao racismo. Isso porque no dia 20 de novembro é celebrado o dia da Consciência negra, data escolhida por ser o dia atribuído à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.

Porém cabe lembrar que o ano possui 12 meses, que o racismo não tem data marcada para acontecer, que o extermínio da juventude negra não é pré-agendado, tão pouco o feminicídio das negras tem picos em determinados meses do ano. O racismo precisa ser combatido e debatido todos os dias do ano, não somente no mês de novembro, não somente como pauta temática. Isto é insuficiente.

Muitas entidades acreditam que estão sendo altamente solidárias com a pauta dos negros e negras, ao investirem alto em campanhas de combate ao racismo no mês de novembro. Somente no mês de novembro.

Toda iniciativa de enfrentamento às opressões específicas é válida. O problema é quando ela se torna uma pauta de calendário. O movimento feminista em certa medida tem superado essa situação quando além das atividades do dia 08 de março, onde as mulheres fazem atos de rua trazendo a pauta contra o patriarcado, organizam os 16 dias de ativismo em campanha mundial que se inicia em 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, e vai até 10 de dezembro, o Dia Internacional dos Direitos Humanos, passando pelo 6 de dezembro, que é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres.

Porém as pautas dos movimentos de negros e negras são consideradas menores, visto que neste país, ninguém se assume como racista e portanto a pauta não é prioritária. Infelizmente é comum você ouvir pessoas se dizendo machistas (homens e mulheres) e até mesmo homofóbicos, contudo ninguém assume preconceito racial. Até porque é crime.

Outro fator que invisibiliza nossas atividades é, que datas de negros e negras não movimentam o mercado, portanto não é interessante oficializar feriados ou comemorações visto que não gera aumento significativo nas vendas do comércio em geral. E como vivemos em uma sociedade capitalista, referenda-se em silêncio que a carne mais barato do mercado é a carne negra.

Mas o que considero mais difícil de entender, e que traz um nó na garganta, é a ausência dos militantes de esquerda brancos e brancas nas atividades organizadas por negros e negras. Quando os brancos organizam o debate e chamam uma de nós para palestrar, até tem quórum. Porém quando nos organizamos e convidamos para que se somem a nossa luta, dificilmente temos adesão dos “companheiros e companheiras”. Este ano isso foi muito perceptível na comemoração do Dia de Tereza de Benguela e na Marcha das Crespas de Curitiba.

Quando se lembram da representatividade e nos chamam para compor um debate, temos ouvintes não-negros que até estão dispostos a nos ouvir até chegar o palestrante principal, porém quando nos auto-organizamos e convidamos os não negros a ouvirem nossas pautas a partir de nós mesmos, daí tem sempre outra agenda mais importante que eles precisam cumprir. Somos invisibilizados por aqueles que dizem que caminham ao nosso lado. Eu diria que este lado tem angulação.

 Vejamos dados de algumas pesquisas para que entendamos que o combate ao racismo deve ser todos os dias:

  • De acordo com o Mapa da Violência 2015, no ano de 2012 morreram 2,5 vezes mais negros que brancos no Brasil. As principais vítimas dessas mortes são jovens negros (entre 15 a 29 anos) com baixa escolaridade e moradores das periferias dos grandes centros urbanos.
  • O número de pessoas brancas mortas por arma de fogo caiu 23% entre 2003 e 2012 (de 14,5 mortes por 100.000 habitantes para 11,8), a quantidade de vítimas negras aumentou 14,1% no mesmo período: de 24,9 para 28,5. Os dados são do Mapa da Violência 2015.
  • De acordo com o Mapa da Violência 2015, o número de mulheres negras mortas cresceu 54% em 10 anos (de 2003 a 2013), enquanto que o número de mulheres brancas assassinadas caiu 10% no mesmo período.
  • Dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM)/Datasus apontam que mais da metade dos 56.337 mortos por homicídio em 2012 no Brasil eram jovens (27.471, correspondente a 52,63%), sendo que destes 93,30% eram do sexo masculino e 77% negros.
  • Segundo a Pesquisa sobre Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a pedido do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o grau de conhecimento de práticas de bullying chega a 19% contra alunos negros, 18,2% contra pobres, 17,4% contra homossexuais. Em seguida, 10,9% estiveram nessa situação por ser mulher e 10,4% por morarem na periferia ou em favelas.

 A mensagem que quero fixar com esse artigo é que o racismo se combate todos os dias, que a solidariedade na luta deve ocorrer em todos os espaços e que a representatividade importa sim para os negros e negras. Por isso, quando for pensar em mesas para debates, lembrem-se de chamar negros e negras para que possamos contribuir com nossos pontos de vista sobre o tema. Quando nós convidarmos não-negros para atividades de combate ao racismo organizadas por nós, se somem à nossa luta. Abordem esse tema cotidianamente e não somente em novembro, e não somente com palavras e textos, mas também com atitudes de enfrentamento ao racismo e presença nos espaços de discussão. O contrário disso é silenciamento e racismo institucional dentro de movimentos que eram pra ser “sociais”.

Vale lembrar: não somos negros e negras somente em novembro

Culpabilização da Vítima

A nossa sociedade cultiva a ideia equivocada de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais quando provocado por mulheres sedutoras. Essa justificativa responsabiliza as mulheres pelas atitudes abusivas que os homens possam praticar. Sendo assim o ato sexual não consentido é apenas uma resposta física do homem a uma provocação consciente por parte das mulheres que não souberam se portar de forma casta e utilizaram seu potencial sedutor. Essa provocação pode ocorrer de diversas formas, desde uma roupa que realce a beleza do corpo, estar sozinha, estar em uma festa, beber bebida alcoólica, andar a noite sozinha, andar de dia sozinha, estar em uma rua deserta, estar no centro da cidade, ser negra, ser branca, ser criança, ser jovem, ser adulta, ser idosa, ser deficiente física ou mental, ser rica, ser pobre, ser alta, ser baixa… Em resumo, sendo mulher, cis ou trans, o risco de provocar o instinto estuprador de um homem é uma possibilidade constante na vida de uma mulher.

Recentemente ouvi de uma delegada que atua em “delegacia da mulher” que ir na biblioteca depois da escola é também uma forma de se arriscar a ser estuprada e morta, e isso é culpa da família que ao invés de manter a criança dentro de casa permitiu que ela fosse a uma biblioteca sozinha. Se este pensamento predomina em quem deveria proteger, investigar e solucionar crimes contras as mulheres, imagina como deve ser o empenho em prender agressores…

O Datafolha realizou uma pesquisa, encomendada pelo FBSP, entrevistando 3.625 pessoas a partir de 16 anos, em 217 municípios. A coleta de dados foi feita entre os dias 1º e 5 de agosto de 2016. Esta pesquisa mostrou que mais de 33% da população brasileira considera a mulher culpada pelo estupro.

Esta pesquisa aponta que 42% dos homens e 32% das mulheres concordam com a afirmação: “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”, enquanto 63% das mulheres e 51% dos homens discordam. O problema é que a ideia de “se dar ao respeito” varia de acordo com a religião, local de origem, nível de escolaridade, classe social, acesso a bens e consumo, cultura, valores morais, dentre outros fatores, de cada indivíduo de nossa sociedade.

Veja aqui a pesquisa completa.

Quando a violência é doméstica, além da culpabilização da vítima pela família ouve-se a receita de que os problemas domésticos se resolvem dentro de casa. De acordo com o SIPS sobre a “Tolerância social à violência contra as mulheres”, 63% dos brasileiros concordaram, total ou parcialmente, que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”. No mesmo sentido, 89% dos entrevistados concordaram que “a roupa suja deve ser lavada em casa”; e 82% que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Conclui-se que a maioria da população brasileira defendem o patriarcado (com alguns contornos contemporâneos).

Estes estudos confirmam a tese que os movimentos feministas defendem que vivemos em uma sociedade onde há de fato uma cultura do estupro. A culpabilização da vítima é algo muito sério e traz marcas profundas numa mulher. Além de sofrer fisicamente uma violação do seu corpo com conseqüências imediatas, ela pode desenvolver problemas psicológicos incluindo depressão, fobias, ansiedade, abuso de drogas ilícitas, tentativas de suicídio e síndrome de estresse pós-traumático.

A culpabilização da vítima pelo seu próprio estupro pode ser classificada como uma verdadeira tortura psicológica contra a mulher, que além de todo sofrimento físico e psicológico pós-estupro, também é penalizada socialmente pelo comportamento doentio do seu estuprador.

Como romper com essa cultura machista? Educando meninos e meninas que ambos tem os mesmo direitos e deveres, que nenhum é mais ou menos importante que o outro, que cada qual pode desempenhar o papel que quiser na sociedade, que nenhum ser existe para satisfação obrigatória dos prazeres do outro, que o machismo é sim uma forma de violência que deve ser combatida. Isso deve ser discutido em casa, nas escolas, nas igrejas, nas redes sociais, ou seja, em todos os lugares.

Não temos que ensinar as meninas a como se comportar para não ser estuprada. Não temos que impedi-las de frequentarem a biblioteca ou o centro da cidade. Temos que ensinar os meninos a respeitar as mulheres. Temos que ensinar os meninos que eles só tem propriedade e controle sob o seu próprio corpo e mais nenhum outro. Temos que ensinar aos meninos que é abominável o ato de levantar a saia das meninas na escola ou deitar no chão para ver calcinhas. Que não é aceitável roubar beijos no colégio quando não há acordo. Temos que ensinar ao meninos que cantadas não são elogios e sim ofensas, e que muitas vezes são assustadoras.

Além da promoção do debate permanente sobre as questões de gênero, temos também que exigir políticas públicas de proteção as mulheres. O estado não pode se eximir da responsabilidade de promover a segurança pública e de solucionar crimes cometidos contra as mulheres e meninas, culpabilizando o comportamento individual ou um suposto descuido da família.

Precisamos de uma revolução cultural. Não teremos igualdade ou democracia de fato enquanto vivermos em uma sociedade patriarcal e racista

O feminicídio contra Lúcia Pérez

O brutal estupro e assassinato de uma jovem de 16 anos motivou os movimentos feministas da Argentina a convocarem uma greve de uma hora de duração na data de hoje, 19 de outubro, e manifestações em cidades como Buenosparo-mujeresniunamenos_claima20161018_0041_17 Aires e Mar del Plata.

Com o nome de Miércoles Negro (Quarta-feira Negra), os grupos Ni Una Menos, Mujeres de la Matria Latinoamericana (MuMaLá) e outras associações convocaram os protestos, dos quais deverão participar milhares de pessoas vestidas de preto, unidas pelo slogan “basta de violência machista”.

As ONGS convocaram as mulheres a suspender suas atividades entre as 13h e 14h desta quarta-feira (horário local). “Em seu escritório, hospital, corte, redação, loja, fábrica ou onde quer que trabalhe, pare por uma hora para exigir ‘basta de violência machista, nós nos queremos vivas'”, diz a convocatória.

Sobre o feminicidio de Lucía:

Lucía Pérez Montero tinha 16 anos, era estudante e vivia em Mar del Plata, na Argentina, com os pais. Quando foi deixada na porta de um hospital, no dia 08 de outubro, os médicos que tentaram reanimá-la julgaram que a causa da morte seria overdose: mesmo com o rosto lavado, Lucía ainda apresentava resquícios de cocaína no nariz.

Aquilo, no entanto, era estranho: o consumo havia sido desesperadamente febril, pois as narinas de Lucía estavam completamente queimadas por dentro. Ninguém conseguiria aspirar tanto pó daquela forma, principalmente uma jovem como ela, que não era usuária de drogas. E a partir dessa suspeita, os médicos descobriram que a verdadeira da morte de Lucía Pérez não era overdose, mas um brutal abuso sexual: os legistas descobriram que Lucia sofreu imposição de consumo de drogas, e que a tortura sexual provocou rompimentos profundos em via vaginal e anal. Os três agressores, que têm entre 23, 41 e 61 anos, são vendedores de drogas.

Um dos suspeitos é Juan Pablo Offidani, de 41 anos. Filho de um famoso notário jurídico da Argentina, Pablo estudou nos melhores colégios, teve acesso aos melhores recursos, mas, mesmo assim teve uma adolescência conturbada, período em que se envolveu com drogas. Viveu no Brasil durante um tempo, hospedado na pousada da madrasta, em Trancoso, e voltou à Argentina, acompanhado de uma mulher e o filho dela, Martín Farias. Martín tem 23 anos, e é o segundo acusado da morte de Lucia.

As agressões sexuais na Argentina aumentaram 78% entre 2008 e 2015, segundo dados do próprio Ministério de Segurança argentino. No Brasil, entre 2009 e 2011, foram registrados 16.993 casos de feminicídio. E nas escolas, nas faculdades, nos almoços de família e nos grupos de whatsapp, nunca morremos tanto. Empaladas, quebradas ao meio (como na música do Biel), destruídas, aleijadas – tudo isso são termos que os homens usam para descrever seu desejo sexual com as mulheres.

O Mapa da Violência 2015 aponta que no Brasil, a taxa de feminicídios (4,8 mortes a cada 100 mil mulheres) é duas vezes maior do que a média internacional. Só em 2013, último ano com dados disponíveis, a violência de gênero vitimou mais de 4,7 mil mulheres no país.

ONGs e movimentos sociais também reclamam das condições de trabalho das mulheres argentinas e da desigualdade econômica entre os gêneros. “Se a média de desemprego na Argentina é de 9,3%, para as mulheres é de 10,5%”, disseram os organizadores ao convocar o evento. “Nos empregos informais a diferença salarial chega a 40% em relação aos homens”.

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No último dia 03 de junho, milhares pessoas marcharam contra violência de gênero na Praça do Congresso, no centro de Buenos Aires. No último domingo 09, milhares de pessoas marcharam em Rosário, na província de Santa Fé, uma das cidades mais violentas do país, contra a violência contra mulheres. Protestos similares aconteceram em outras cidades do país, como Mar del Plata.

Lutar para que não haja mais nenhum caso como o de Lucia é lutar para que toda essa fantasia assassina morra. Não, não é normal que um homem diga que vai “estropiar” uma mulher; não é normal dizer que vai “aleijá-la”.

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres.

Companheira Lucia – Presente!