Queridas pessoas brancas

Muitas entidades, partidos e movimentos de esquerda levantam a bandeira do antirracismo. Muitas dizem que tem o combate ao machismo, ao racismo e à lgbtfobia como princípio. Mas como isso se manifesta na prática? Essas organizações antirracistas muitas vezes não se preocupam nem de forma aparente com essa pauta como, por exemplo, garantindo a presença de negros e negras em mesas de debate. Chamam negros e negras para tratar de assuntos da negritude somente, sem considerar que sabemos também falar da conjuntura, de economia, de relações internacionais, de finanças, de saúde, de educação, de segurança pública, de democracia, e de tantos outros temas para além de nossas pautas específicas.

Eu costumo dizer que a branquitude coloca nossa militância numa caixa. Só abrem a caixa quando precisam de nós para falar de tema que nós temos por óbvio o “lugar de fala”. Para além disso a caixa fica fechada.

E quando sofremos racismo? A expectativa é que os negros e negras nos oraganizemos, e eles, os brancos e brancas, nem precisem se manifestar. Dizem que não se sentem confortáveis em falar sobre o tema por serem brancos e brancas. Como se não fossem os brancos e as brancas os praticantes do racismo. Na visão dessas pessoas a luta contra o racismo é pauta nossa. Quero aqui avisar que o racismo é problema da sociedade. Nós combatemos e denunciamos por sofrermos na pele, porém vocês, queridas pessoas brancas, tem o dever de não praticar e de não pactuar com práticas racistas.

Para não praticar racismo, os não negros precisam conhecer quais práticas e discursos são racistas. A grande questão é que somente aprenderão isso nos ouvindo, indo em nossos atos, lendo nossos textos, e não compactuando com o racismo quando perceberem a situação em curso. Estão dispostos a nos ouvir? Ou a justiça que deve resolver?

A forma de não pactuar não é cobrando atitude do negro, que muitas vezes se sente acuado em determinadas situações, a forma de não compactuar é você pessoa branca constranger o agressor dizendo “cara isso é racismo e eu não concordo. Pare já com isso.”

E sobre a famosa frase “não me sinto confortável por ser branco (a)” muitas vezes soa em meus ouvidos como desculpa para não se comprometer com a pauta. Como vocês acham que nós nos sentimos em espaços de maioria branca como movimento sindical, movimento feminista, partido político? Somos minorias nesses espaços e gritamos para ser ouvidos. Não nos escondemos atrás da falácia do desconforto. O mundo é desconfortável para nós desde que nascemos pretas, e isso não é desculpa para fugirmos da luta, pelo contrário, nos impulsiona.

A omissão nas pautas de negros e negras é também uma forma de racismo e de invisibilizar as nossas lutas. Não nos responsabilizem exclusivamente pelo combate ao racismo. Não nos aprisionem especificamente numa pauta. Não se ausentem do combate ao racismo. Reconheçam os privilégios que tem por serem brancos e brancas e usem para nos defender quando for o caso.

Será que examinando sua consciência você, pessoa de pele clara, tem de fato por princípio o antirracismo? Atos de negros e negras é prioridade como atos de conjuntura? Você sofre com um jovem branco que apanha da polícia em manifestação da mesma maneira como sofre pelo genocídio da juventude negra?

Fica a reflexão e o constrangimento

 

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DA UNIDADE VAI NASCER A NOVIDADE

O Ato do Dia Internacional da Mulher em Curitiba deste ano foi histórico. Isso só foi possível pela união de mais de 45 movimentos e coletivos feministas e de mulheres que se reuniram mais de 15 vezes para traçar as estratégias, dividir responsabilidade e compartilhar o protagonismo.
Nos anos anteriores também organizávamos este ato com diversos movimentos, porém as diferentes leituras de conjuntura fazia com que houvesse acirramentos e pouca mobilização. O caminhão de som se trnsformava em um palanque para disputas de análises e versões da política econômica que em nada agregava mulheres à luta feminista. A preocupação maior era ter a melhor narrativa da conjuntura e interagir com as mulheres do percurso da marcha ficava em segundo plano. As minorias (Mulheres Negras, Indígenas, do Campo) precisavam elevar o tom para ter seu espaço garantido para trazer suas pautas da vida real. É claro que esse era o comportamento dos grupos mais radicais, tem muitas companheiras que de fato organizam o movimento em prol das mulheres e não de seus interesses eleitorais. Ainda bem que as guerreiras valorosas do movimento são a maioria, porém a disputa no caminhão sempre ganha maior repercussão e destaque nas avaliações.
Como isso mudou? A unidade dos movimentos feministas aqui no Paraná, que culminou no oito de março 2017, foi inevitável com o desenrolar da conjuntura. As questões político-partidárias sempre trouxeram entraves na unificação dos diversos movimentos, mas o avanço da direita e o retrocesso nas pautas das mulheres com o conservadorismo da bancada evangélica e com o golpe, fez com que o discurso fosse afinado entre todas nós para barrar a perda de nossos direitos.
Conforme escrevi em “Conjuntura, Fora Cunha e Grelo Duro” desde a declaração do Eduardo Cunha (PMDB) em 2015, na época presidente da Câmara dos Deputados, onde ele disse: “aborto só vai a votação se passar pelo meu cadáver”, nós mulheres fomos para as ruas exigindo que ele saísse do cargo. Ele engavetou a pauta da descriminalização do aborto e na sequência, quase como uma afronta aos movimentos feministas, ele reapresentou o PL5069/13 que dificulta procedimentos de atenção à saúde importantes para vítimas de violência sexual. Nessa época também ganhou grande proporção os ataques misóginos contra a Presidenta Dilma. Desde adesivos chamando/comparando a presidenta a uma vaca, até alusões ao estupro.
Os movimentos mistos pouco deram atenção as palavras de ordem das mulheres pedindo FORA CUNHA. Não se ligaram que a misoginia revelava o fascismo do cunha e diziam que isso “era assunto dos coletivos de mulheres”, “As mulheres estão tirando o foco da luta contra o golpe”. Ouvimos tanta bobagem, quando na verdade se os homens valorizassem nossa militância a história poderia ter sido outra.
Neste momento nos unimos para mostrar para a bancada evangélica que não aceitamos e não aceitaremos retroceder em direitos, nos unimos para mostrar para os esquerdomachos de nossas organizações que as bandeiras de lutas das mulheres não são assuntos menores e não aceitamos ser invisibilizadas.
Quando o Cunha foi preso os esquerdomachos disseram categoricamente para as mulheres não comemorarem, “é tudo cortina de fumaça para prender o Lula”, “Não podemos comemorar nenhuma ação da Lava Jato”. Já denunciávamos o Cunha antes do Moro. Isso é silenciamento de uma luta. Mas pedir para as mulheres utilizarem o ato do oito de março para fazer defesa do Lula, isso foi feito sem nenhum pudor. Pedir para deixarmos nossos acordos com diversos movimentos de lado, para acirrar ainda mais a disputa pelo microfone do ato, para acabar com a sororidade, isso pode, comemorar a prisão do misógino do Cunha, isso não pode. Não engoli e me manifestei contrária, a consequência é que até hoje sou olhada de maneira torta por muito militante que hierarquiza a luta, inclusive mulheres.
Simone de Beauvoir alertou: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” O que eu não sabia é que isso também cabia para os espaços mistos da esquerda.
Veio o golpe, assumiu o ilegítimo. Desde a composição de seu ministério ele mostrou qual seria seu compromisso com as pautas das mulheres. A decisão de acabar com o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos e transferir a dotação orçamentária para a presidência da república, revela sua falta de interesse em minorias de direitos. Mais uma vez tomamos as ruas em solidariedade a Presidenta Dilma, pois o golpe foi permeado de machismo, e também pedindo o FORA TEMER.
As mulheres se uniram. Inclusive a união entre mulheres através da sororidade, supera o acordo das lideranças de movimentos em frentes de lutas. O oito de março deste ano foi incrível. Houve divisão de responsabilidades na construção da atividade e na organização no dia do ato cada uma cumpriu sua tarefa. É claro que como qualquer ato tivemos dificuldades, mas o resultado foi ótimo. Tivemos várias gerações de mulheres, várias orientações, mulheres cis e trans, várias etnias e raças. Essa mistura trouxe tanto aprendizado, tanta troca de experiência… Saí com a sensação de que é possível unidade na esquerda se ao invés das lideranças egocêntricas se unirem para disputar protagonismo e hegemonia, isso fosse construído através da SORORIDADE, ou seja, protagonizado pelas mulheres e com verdadeira democracia. Será que vão deixar? Será que irão perguntar para nós, mulheres, como fizemos dar certo esse ato quando forem fazer os seus, ou será que considerarão que esse é o nosso único espaço? Será que nos chamarão para reuniões? Será que irão valorizar nossa militância? Ou será que continuarão nos invisibilizando e nos olhando de canto quando pedirmos fala?
Para aqueles e aquelas que lerão esse texto e ficarão incomodados, e me olharão ainda mais torto do que já olham, deixo para a reflexão as palavras de Audre Lorde: “Eu não posso escolher entre as frentes em que eu devo batalhar essas forças da discriminação, onde quer que elas apareçam pra me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não durará muito para que depois eles apareçam pra destruir você.”
Viva a luta das mulheres

A quem pertence a minha cultura?

Há uma imensa dificuldade de fazer com que uma pessoa branca entenda que está sendo racista. Até assumem que são machistas, alguns em desconstrução, até assumem que não gostam de LGBTI, mas racista nunca, até porque isso é crime. Se algum negro ou negra denuncia racismo na fala ou atitude de uma pessoa branca, o mais comum é ouvir que você a persegue, que você é radical, que você é barraqueira, que adora uma treta, que você nem é tão negra assim, que isso é racismo reverso.
Vou tentar ser o mais didática possível para elucidar alguns conceitos e desfazer equívocos. Por isso já aviso que o texto será longo.
ALERTA 1: Pessoas brancas não se sintam ofendidas quando um negro ou uma negra aponta seu racismo. O ofendido foi o negro ou negra e não você. Sinta-se com vergonha, peça desculpas e não cometa mais esse erro. A sociedade que estamos inseridos nos cria racistas, então reconheça o erro sem tentar elaborar uma justificativa requintada para isso. Reconhecer o erro, desculpar-se e não mais repetir é o mínimo que alguém que se beneficiou com o processo histórico da escravização dos negros deve fazer. E aceite, se você é branco, mesmo não sendo responsável pela escravização, você foi beneficiado com por ela.
ALERTA 2: Quando uma pessoa branca sofre algum tipo de agressão verbal relacionada à sua cor, ela não pode dizer que sofreu “racismo reverso”. O racismo é fruto de um mito criado sobre a inferioridade de pessoas com o fenótipo negro, atribuindo diversas características negativas (gente amaldiçoada, sem alma, ser humano inferior, suja, violenta, cabelo duro e ruim, cor do pecado e etc), sustentadas pelas elites sociais em todas as épocas da história da humanidade. A pessoa branca nesse caso sofre preconceito, discriminação ou injúria racial, que está relacionada a ofensas contra a honra da vítima, independente de seu fenótipo. Racismo é um crime histórico criado pelo ódio à etnia negra e que matou e continua a matar milhares de pessoas negras em todo o mundo.
Tendo explicado que “racismo reverso” é um termo equivocado, gostaria de tratar de outro tema que também gera bastante confusão: Apropriação Cultural
ALERTA 3: O intercâmbio cultural ocorre quando há troca de vivência e informação cultural entre pessoas de povos diferentes. Porém só acontece troca quando não há relação de subordinação de um sobre o outro. Não há relação de troca cultural quando um povo é escravizado por outro que se julga superior. Troca e apropriação são palavras com diferenças tão obvias que nem precisaria explicar, mas pelo visto se faz necessário.
Por tanto a apropriação cultural acontece quando elementos de uma cultura dominada são adotados pelo dominador e esvaziado de seu significado, que pode ser desde uso de acessórios e roupas, a exploração de símbolos religiosos, até sequestro de tradições e de manifestações artísticas.
De forma sintética:

  • Um povo domina outro e determina que o dominado é culturalmente inferior
  • A sociedade dominadora aceita a ideia e passa a discriminar as pessoas e a cultura dominada
  • A cultura minoritária é obrigada a abandonar seus elementos para se adaptar aos elementos dados pela cultura majoritária
  • Quando o mercado consumidor precisa de renovação, o dominador busca elementos “exóticos” do dominado, ressignifica e capitaliza com a justificativa que não há mais diferença entre os povos pela miscigenação.

O detalhe é que quando a cultura dominada usa o elemento de sua cultura, ele ainda é visto com olhar de inferioridade, misticismo selvagem, como algo negativo, racismo mesmo. Quando o dominador usa, é visto como exótico e muitas vezes eles chegam ao disparate de acreditar que estão sendo solidários por popularizar um artigo cultural que é visto por alguns dominadores como algo que deva gerar medo. Chegam a pensar que estão rompendo com o preconceito, quando na verdade estão esvaziando de significado em nome da moda.
Como podem pensar que tomar um elemento cultural de outro povo porque achou “legal” pode simbolizar respeito?
Geralmente quando uma mulher negra usa turbante em ambiente público ela é rapidamente identificada como “macumbeira”, que no senso comum é visto como algo ruim, uma religião demoníaca, que conversa com mortos e incorpora entidades para fazer o mal ou prever o futuro. Ignorância imensurável, intolerância inadmissível. Racismo e estupidez. Infelizmente é comum serem hostilizadas na rua por cristãos fundamentalistas.
Quando uma pessoa branca utiliza o mesmo turbante, é visto como um acessório para o cabelo e a discussão geralmente é sobre a cor do turbante, a estampa, o tipo de pano, como fazer a amarração ou se colocou o turbante por preguiça de arrumar o cabelo (aff).
O que os brancos muitas vezes desconsideram, é que o turbante é um ornamento de símbolo religioso em várias culturas, inclusive na afro. Ele evidenciava a ligação dos negros escravizados com seus costumes originais e representava a resistência e ancestralidade. Não é um mero enfeite.
Outro exemplo de apropriação cultural é o uso de dread. O termo dreadlocks – que significa algo como tranças/cachos abomináveis – foi cunhado por colonizadores ingleses que enfrentaram um exército de jamaicanos “panafricanistas” que prometeram não cortar mais seus cabelos até que toda a negritude em Diáspora pudesse retornar ao continente-mãe. Em outras palavras, “penteados” podem possuir todo um histórico político que se descaracteriza quando uma pessoa (branca) o implanta na sua cabeça porque quer ser “alternativo”
É claro que quando culturas diferentes se misturam é inevitável que uma afete a outra. Podemos ver isso na culinária e música brasileira que são fortemente influenciadas pela cultura afro. Porém no Brasil somente um lado foi beneficiado e não foi o dos negros e negras.
Para nós negras e negros da diáspora, o uso dos elementos culturais da nossa ancestralidade é ato de resistência. Alguns tem significado religioso, fazem parte de cerimônias e ritos. Devem ser respeitados. Não são adereços da moda.
OBSERVAÇÃO: Os brancos de religiões de matizes africanas sabem do significado e usam os elementos com a devida deferência.
ALERTA 4: Por que ao invés de se apropriar dos elementos de nossa cultura, os brancos não encampam a luta contra o fim do genocídio da juventude negra? Porque não defendem a equiparação salarial entre negros e brancos; entre homens e mulheres? Porque não pautam o fim do racismo institucional? Porque não contribuem divulgando dados sobre a violência obstétrica que as mulheres negras sofrem? Porque não param de nos julgar como menos qualificadas pela nossa cor? Porque não discursam contra a hiperssexualização do corpo da mulher negra? Sobre a polícia que prende e mata negros porque “confundiram” com bandidos?
“Tá na moda ser negro. Desde que você não seja negro.” (Willow Smith)
ALERTA 5: Ainda assim, depois de ler esse texto, terá aquela que virá perguntar, “eu branca, que luto contra o racismo, posso usar turbante, posso usar trança nagô, posso fazer dread? Eu sei o significado e respeito, posso” Ah pessoa branca… não será de mim que você ganhará essa autorização

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Permita-me discordar

Sororidade não é sinônimo de aquiescência. É o pacto entre as mulheres que se reconhecem como irmãs, é um dos principais alicerces do feminismo. Sem a ideia de “irmandade” entre as mulheres, dificilmente o movimento conseguiria ganhar proporções significativas para impor as suas pautas. É uma tática na luta contra o patriarcado. Percebo que há dificuldade com esse conceito e já li algumas feministas definindo sororidade como ideal utópico.

Creio que muitas vezes o problema é associar o significado de sororidade ao de fraternidade, mas não como conceito filosófico ligado às ideias de Liberdade e Igualdade e sim a ideia de sociedade secreta de homens onde todos seguem um rito e um estatuto. Quem não segue as regras não é membro do grupo. Não somos assim. Feminismo não é uma “fraternidade de mulheres”. Não somos todas iguais. Temos diversas correntes de pensamento dentro do feminismo e defendemos essa diversidade. Para exemplificar cito de forma resumida as principais:

  1. Feminismo Radical: acredita que a raiz da opressão feminina são os papéis sociais inerentes aos gêneros. Reivindicam uma espécie de volta de um determinismo quase que biológico: mulheres são aquelas que têm vagina, que têm filhos, que têm ovário;
  2. Feminismo Socialista: vê no capitalismo a fonte da desigualdade entre gêneros;
  3. Feminismo Liberal: prega que as mulheres podem vencer a desigualdade das leis e dos costumes gradativamente, combatendo situações injustas pela via institucional e conquistando cada vez mais representatividade política e econômica por meio das ações individuais.
  4. Feminismo Interseccional (do qual mais me aproximo): procura conciliar as demandas de gênero com as de outras minorias, considerando classe, raça, orientação sexual, deficiência física… São exemplos de feminismo interseccional o transfeminismo, o feminismo lésbico e o feminismo negro.

Se somos tão plurais como exigir que concordemos sempre? Repito: sororidade não é sinônimo de aquiescência. Não significa concordar com tudo, ou com todas. Ana Liési Thurler, integrante do grupo de pesquisa Vozes Femininas, da Universidade de Brasília (UNB) define sororidade como “acolhimento, empoderamento, solidariedade entre mulheres”.

A origem da palavra sororidade está no latim sóror, significa “irmãs” e irmãs nem sempre concordam. Temos metas comuns que são a igualdade de direitos entre os gêneros, o combate a violência contra as mulheres, empoderamento político com ocupação de espaços de decisão, respeito a diversidade, garantia de direitos sexuais e reprodutivos, dentre outros, porém muitas vezes divergimos no método para alcançar o mesmo objetivo.

Divergir não significa deixar de respeitar, deixar de ser irmã. Divergência inclusive suscita reflexão e o reexame de nossas opiniões. Divergência não é o oposto de sororidade.

É muito comum em debates feministas quando não há acordo político uma das argumentadoras evocar a “falta de sororidade”. Tá errado amiguinha. Há falta de sororidade quando se fere o princípio de entender a outra como sua irmã, ou seja quando se falta com o respeito. Debate no campo das ideias (tese e antítese) são inclusive essenciais para formação de síntese. São saudáveis quando há maturidade política para construção de novos pensamentos.

O que percebo é um apelo recorrente para a tal “falta de sororidade” quando o ego é ferido por alguma discordância com outra militante, e isso faz com que o conceito fique sempre entendido de forma distorcida e parecendo inatingível.

A verdade é que temos muita dificuldade de aceitar crítica. Quando alguém mostra que entende que teu raciocínio não é o mais correto, o mais comum é vermos isso como uma ofensa e não como uma oportunidade de melhoria, de crescimento, um novo desafio de aprendizado. Aprendi que só criticamos de forma direta, aqueles e aquelas que acreditamos que podem melhorar, caso contrário não gastamos tempo e investimento intelectual numa conversa que não surtirá efeito. Portanto a crítica direta é um voto de confiança no potencial da outra companheira. De forma alguma é falta de sororidade.

Precisamos aprender a ouvir mais e sermos humildes em aceitar que alguém pode estar te dando uma dica e não te ofendendo. Escrevi sobre a necessidade de escuta no texto Feminismo e Reprodução Social.

Companheiras, entendamos que nem toda divergência é falta de sororidade, assim como nem toda concordância significa companheirismo, ao contrário, as vezes significa que a outra não está nem aí para o que você pensa ou faz, simples descaso.

Vamos nos desafiar ao exercício da dialética e assim praticar a sororidade ou vamos manter nosso conhecimento em pedestal e manter o conceito como utópico?

Por fim a definição de sororidade que acho interessante é a que conceitua como sendo uma aliança feminista entre mulheres que tem a consciência crítica sobre a misoginia e o esforço, tanto pessoal quanto coletivo, de destruir a mentalidade e a cultura machista. Sua prática permite às mulheres serem coerentes e potencializa a cultura feminista.

Sororidade exige humildade e respeito. Nós não conseguiremos combater o patriarcado se estivermos ocupadas brigando uma com as outras

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O “pecado” da minha cor

Nasci em Porto Alegre, mas fui criada no Rio de Janeiro. Cheguei com dois anos de idade e vivi lá até os 22.  A cidade é linda e tem diversas atividades culturais, eventos anuais e pontos turísticos que encantam quem conhece. As atividades culturais são do que mais sinto falta: shows na praia, ou em teatro de lona (barato), bares que não cobram entrada, quiosques com pagode ao vivo, dentre outros. Sinto falta de sentar na calçada e bater papo com os amigos. Alguns pontos turísticos porém tem custo de acesso tão elevado que só são conhecidos por boa parte dos moradores da cidade pela televisão. Mas quero tratar do que é ser negra no Rio nos eventos turísticos anuais, em especial no Carnaval. Muitas vezes deixei de sair de casa com medo de ser confundida… consegue imaginar com o que?

A propaganda que é feita para o público externo sobre o que é o carnaval desconsidera completamente a história. O Carnaval é uma festa popular realizada durante 05 dias desde 1892, antecedendo o início do período da quaresma católica. É constituído por blocos de carnaval, bailes de fantasia, festas de rua e caracterizado pela irreverência.

As escolas de samba surgiram somente em 1928 com a “Deixa Falar” fundada por Nilton Basto, Ismael Silva, Silvio Fernandes, entre outros. O termo “escola de samba” foi usado, pois na rua Estácio, onde aconteciam os ensaios, havia uma Escola Normal. A escola de samba Deixa Falar funcionava ao lado desta Escola Normal.

A Deixa Falar fez muito sucesso entre os moradores da região. Ela acabou por estimular a criação, nos anos seguintes, de outras agremiações de samba. Surgiram assim, posteriormente, as seguintes escolas de samba: Cada Ano Sai Melhor, Estação Primeira (Mangueira), Vai como Pode (Portela), Vizinha Faladeira e Para o Ano sai Melhor.

Nestas primeiras décadas, as escolas de samba eram organizadas de forma simples, com poucos integrantes e pequenos carros alegóricos. Já havia competição para definir qual escola apresentava o melhor desfile, porém a competição entre elas não era o mais importante, mas sim a alegria e a diversão.

Por décadas os desfiles das escolas de samba tiveram menor importância dentro do carnaval por se tratar de algo relacionado à negritude. O elegante eram as festas que aconteciam em clubes caros da elite. A partir da década de 1950, a aproximação de intelectuais de esquerda ao samba e conseqüente incorporação da classe média aos desfiles, deram destaque às escolas de samba que foram valorizadas como centro do carnaval carioca e evento nacional. Desde 2004 o Carnaval do Rio de Janeiro é considerado o maior carnaval do mundo.

A apropriação do Carnaval pelas elites e a transformação do desfile das escolas de samba em negócio lucrativo causou algumas mudanças nas escolas. Passaram a existir os enredos encomendados por grandes corporações, alas inteiras sem nenhum membro da comunidade de origem da escola, profissionalização de integrantes (comissão de frente, por exemplo), fantasias de alto luxo para ser usada por destaques da elite nacional, redução da fantasia das mulheres com alto grau de exposição do corpo, convite para que mulheres midiáticas ocupassem lugares na escola que antes eram escolhidos dentre as mulheres da comunidade (como a rainha da bateria), transmissão ao vivo na TV aberta, dentre outras mudanças visando aumento do lucro dos investidores.

Desde 1991 a Globo criou uma personagem que não tem origem cultural e sim de marketing, para divulgar a transmissão do evento: a “Mulata Globeleza”. Essa mulata samba nua, coberta por purpurina, ao som da vinheta de carnaval da emissora.

Problema 1: A palavra mulata, de origem espanhola, vem de “mula” ou “mulo”: aquilo que é híbrido, originário do cruzamento entre espécies. Mulas são animais estéreis nascidos do cruzamento dos jumentos com éguas ou dos cavalos com jumentas. Em outra acepção, são resultado da cópula do animal considerado nobre (equus caballus) com o animal tido de segunda classe (equus africanus asinus). Sendo assim, trata-se de uma palavra pejorativa que indica mestiçagem, impureza. Mistura imprópria que não deveria existir. Empregado desde o período colonial, o termo era usado para designar negros de pele mais clara, frutos do estupro de escravas pelos senhores de engenho.  A adjetivação “mulata” é uma memória triste dos 354 anos (1534 a 1888) de escravidão negra no Brasil. Por um tempo chegou-se acreditar que as mulatas e os mulatos fosse estéreis como as mulas.

Problema 2: A repetição anual da vinheta da “Mulata Globeleza” naturalizou na população brasileira a ideia de que é tradição de carnaval as mulheres andarem nuas durante esse período. Enquanto os brasileiros acham que “não há nada demais nisso” para os estrangeiros é um convite a exploração sexual, em especial das mulheres negras.

Para mim, mulher negra jovem (sai do Rio aos 22) era comum na praia, em bares, em festas de carnaval ouvir a pergunta: “quanto é o programa?”. Enquanto as mulheres brancas eram elogiadas pela forma física que iriam expor no desfile para nós, mulheres negras, cabia a pecha de sermos todas desfrutáveis durante o carnaval. Se estivesse acompanhada por um homem branco, crescia a certeza dos turistas de que eu era prostituta.

Problema 3: Somente agora ao 34 anos, relembrando essa situação que para mim no Rio era corriqueira, percebi que isso não deveria ser considerado normal. Para não ter que explicar que nem todas as mulheres negras cobram por sexo no carnaval, eu me privava de ir a determinados locais que queria. Enquanto estivermos em um sociedade patriarcal estaremos em constante violência psicológica. 

Enquanto o feminismo liberal traz a pauta de desconstrução do padrão estético de beleza, nós mulheres negras lutamos contra a hiper-sexualização dos nossos corpos. Tem diferença? Sim. E muita.

O padrão de beleza imposto às mulheres é um padrão eurocêntrico, onde o bonito é ter beleza branca angelical. Cabelos loiros, quadril e busto pequenos porem tesos, corpo magro, olhos claros, bochechas rosadas, nariz e lábios finos. A mulher negra nunca foi considerada angelical, pois não cabe na descrição. As características fenotípicas da mulher negra são o contrário do que se considera angelical. O quadril largo, os seios fartos e os lábios carnudos nos fizeram ganhar o título de termos “a cor do pecado”. Inclusive por tempos esse termo justificou o estupro de mulheres negras, pois seu corpo “quente” gerava nos homens instintos primitivos incontroláveis.

O debate da hiper-sexualização da mulher negra ainda é cercado de polêmicas. Há quem diga que a presença (e vitória) de mulheres negras em concursos de beleza, traz à tona a representatividade da negra como bela, indo na contramão da hiper-sexualização. Nem sempre. Grande parte das vitoriosas desses concursos tem quadris na medida branca, busto na medida branca, sobrando para característica negras a cor da pele, o lábios carnudos que são considerados sensual e o cabelo que no concurso “até” esta Crespo, mas nas atividades pós-vitória, em presenças VIP, em programas de TV, já está muito bem escovado. Eu sempre pondero que essa “representatividade” em concurso estético, muitas vezes aclamada pelos movimentos, possa acabar gerando um padrão negro de beleza e por consequência mais uma pauta para desconstruirmos, além da hiper-sexualização.

Trago a percepção de que a “Mulata Globeleza” não deveria existir. É um desserviço na luta das mulheres negras. Porém tenho de reconhecer que foi um grande avanço a mudança deste anos nas vestimentas da Globeleza, além de mostrar que o carnaval é multicultural com manifestações regionais como o Frevo, Maracatu e Axé.

Essa vitória é sim resultado das manifestações feministas que repudiam a exposição dos nossos corpos como mercadoria turística e que fazem campanha permanente contra a cultura do estupro na sociedade machista que vivemos.

Também é uma vitória que valoriza a cultura negra, mostrando que samba carrega a história de um povo. Samba não é somente carnaval. Nossas músicas carregam as vozes de nossa ancestralidade. De nenhuma forma nossa cultura deveria ser vinculada à exploração sexual como vem acontecendo.

Concluo com as palavras de Stephanie Ribeiro e Djamila Ribeiro:

Não aceitamos ter nossa identidade e humanidade negadas por quem ainda acredita que nosso único lugar é aquele ligado ao entretenimento via exploração do nosso corpo. Não mais aceitaremos nosso corpo refém da preferência e da vontade de terceiros, para deleite de um público masculino e de uma audiência que se despoja do puritanismo hipócrita apenas no Carnaval. Não mais aceitaremos nosso corpo narrado segundo o ponto de vista do eurocentrismo estético, ético, cultural, pedagógico, histórico e religioso. Não mais aceitaremos os grilhões da mídia sobre nosso corpo!”

Nossos passos vem de longe e seguiremos em marcha até que todas sejamos livres

Sobre a chacina misógina de Campinas

Demorei muito tempo refletindo e processando tudo o que tenho ouvido sobre a chacina misógina ocorrida em Campinas. Não quero me deter aos fatos do ocorrido, nem as cartas ou audios, pois a grande mídia tem feito essa exposição em detalhes, mas vou contextualizar para introduzir a discussão.

Na madrugada da virada de 2016 para 2017 o técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, pulou o muro onde acontecia uma festa de ano-novo, e assassinou sua ex-esposa Isamara Filier, 41 anos, seu filho João Victor, 8 anos, e mais dez pessoas. Ao todo, Araújo disparou contra 15 familiares e amigos de Isamara. Dos 12 mortos, nove eram mulheres. Além das três vítimas que estão hospitalizadas sem risco de vida, mais três conseguiram escapar ilesas. Dois adolescentes que se esconderam em um banheiro relataram que o filho do atirador disse: “Você matou a mamãe”. Logo depois, ouviram os disparos que mataram Victor. Depois da chacina, Araújo se matou com um tiro na cabeça. Foi um crime premeditado, planejado, que utilizou de vários artefatos. Outro fato que chama atenção é que diversas pessoas conheciam a intenção dele de assassinar a ex-esposa, porém ele seguiu seu plano sem nenhum impedimento.

Isamara já tinha buscado todos os mecanismos legais contra ele, denunciando abuso sexual do filho, pedindo e conseguindo medidas judiciais de proteção em relação aos dois. Em cartas e audios deixados pelo atirador, ele justifica os doze assassinatos ao dizer que buscava vingança por ter perdido a guarda do filho Victor depois de ser denunciado por abuso sexual contra a criança. Para se referir à ex-esposa. Isamara Filier, à mãe dela e a outras mulheres da família dela, ele só usa uma palavra, o tempo todo: “vadia”.

Conversando com pessoas que não estão envolvidas em movimentos sociais, os relatos que ouvi são muito tristes. Ouvi mulheres dizendo que não adianta recorrer a Lei Maria da Penha em caso de violência ou ameaça, que a medida protetiva é somente um instrumento burocrático, que se o homem quiser ele mata de qualquer forma. Ouvi também que por vezes é melhor manter um relacionamento abusivo do que separar e correr o risco de ser assassinada.

Esse crime gerou em diversas mulheres um sentimento de encolhimento de liberdade, de desproteção, de necessidade de submissão ao homem por sobrevivência.

Em outro texto escrevi que nós mulheres vivemos com medo dos homens. Medo do estupro, do feminicídio, da agressão física e psicológica, do relacionamento abusivo, da inferiorização intelectual, das diversas formas de violência que somos submetidas pelos homens que acham que por sermos mulheres devemos realizar suas vontades por obrigação religiosa, moral e/ou cultural.

Abro aqui um parêntese: Lendo as notícias sobre a chacina muito me chamou a atenção o uso do termo “ex-mulher”. Parece que quando uma mulher se divorcia ela deixa de ser mulher. O Homem é ex-marido, ou seja, para ele muda o estado civil, porém para a mulher parece que há uma perda de identidade social. Ela é ex-mulher e não ex-esposa. Fecho parêntese.

Sim, nós mulheres temos medo do machismo que pode nos matar, mas se recuarmos pelo medo, iremos retroceder em conquistas. Não podemos aceitar relacionamentos abusivos por medo de agressão. Não podemos aceitar que violentem de qualquer forma (física, sexual ou psicológica) a nós e aos nossos filhos e filhas e tratar como problema de doméstico. Não podemos ficar presas em relacionamentos infelizes e com tortura psicológica para não chocar a família. Não precisamos mais manter casamentos doentes e agressivos por conta da dependência financeira ou por que a Igreja determina.

Temos avanços legais como A Lei Maria da Penha que contribuiu para diminuir em cerca de 10% a taxa de homicídio contra mulheres dentro de casa. Essa  Lei não trata só da questão penal, apenas 12% de seus artigos tratam da questão penal. Os outros todos são de prevenção à violência doméstica. Não é somente para tratar de quem já fez, mas sim para prevenir.

Os dados do Mapa da Violência de 2015 indicam impacto positivo da Lei Maria da Penha. Enquanto o índice de crescimento do número de homicídios de mulheres no Brasil foi de 7,6% ao ano entre 1980 e 2006, quando a Lei Maria da Penha entrou em vigor, entre 2006 e 2013 o crescimento foi de 2.6% ao ano. Esse percentual tem que diminuir ainda mais e para isso precisamos fortalecer essa política.

Não podemos desacreditar nas conquistas que são fruto da organização das mulheres em busca de direitos. Se ainda não somos livres temos que lutar por mais medidas que promovam a igualdade, que empodere mulheres, que aumente a representatividade em espaços políticos, que nos protejam e que puna agressores. Devemos fortalecer a nossa militancia e não nos encolhermos.

Somos contra a misoginia e não vamos ceder ao ódio. Não vamos voltar para o tempo em que o papel da mulher era ser a ajudante do marido. Não vamos fechar os olhos quando abusarem de nossas crianças. Retroceder não vai impedir eles de nos matar, ao contrário a violência contra a mulher voltará a ser o assunto doméstico que cada família resolve de acordo com a sua tradição, sem repercussão, sem denuncia, sem punição.

É muito difícil evitar crimes de ódio. Neste caso ele foi premeditado, e não possibilitou chance de reação. Foi um ato covarde e o suicídio deixa um amargo de impunidade visto que o atirador concluiu seu plano. O que é preciso rever são medidas protetivas mais eficientes que consigam minimizar feminicídios anunciados.Precisamos melhorar a Lei e não desacreditá-la.

O que de fato me deixou perplexa neste caso é que o autor da chacina reproduz um discursso que se houve muito na “direita coxinha verde-amarela”. Ele traz um ódio as mulheres e a sua emancipação, apresenta contrariedade a Lei Maria da Penha, desacordo com o sistema político e ao fato de mulheres ocuparem postos de decisão como a Dilma na presidencia. Isso demonstra o avanço assustador do pensamento conservador tão doentil que leva o agressor a acreditar que está agindo corretamente ao matar a ex-esposa e o filho sobre quem ele perdeu a autoride e quem mais estivesse perto.

Não podemos ceder ano medo.  A coragem, a força, a vitória cotidiana está em efrentá-lo. Não podemos deixar o conservadorismo avançar.Devemos nos manter na luta defendendo políticas públicas de proteção as mulheres. Devemos seguir buscando representatividade nos espaços políticos elegendo mulheres feministas que defendam nossas pautas e  que proponham leis que promovam a igualdade, que defendam nossos direitos sexuais e reprodutivos, a dignidade humana, a possibilidade de seguirmos vivas…

Por isso mulheres nosso dever é Seguir Em Marcha Até que Todas Sejamos Livres

O machismo só te incomoda na hora em que você é acusado de sê-lo?

Esse texto tem intenção de dialogar com os homens, em especial os homens com ideologia de esquerda. Quero provocá-los. Leiam até o final e respondam nos comentários. Será que vocês já refletiram sobre o porquê das companheiras de militância de vocês, da mesma organização, usarem o termo “esquerdomacho”?
O Movimento feminista em muitos momentos é visto como uma questão menor dentro da esquerda. O que de fato importa são as análises da macroestrutura, o cenário econômico-financeiro, a avaliação de disputas de poder, a construção/manutenção de quadros com potencial para disputar mandatos eletivos… Discutir “assuntos das mulheres”, em tempos de crise, pode esperar.
Acontece que muitas de nós não conseguimos esperar esse tempo. Morremos. Assassinadas por homens. Algumas de nós somos tão silenciadas pelos “companheiros” que saímos da militância. Abandonamos o barco ou ficamos no cantinho cumprindo a cota.
Quando não queremos músicas que afirmam a superioridade masculina em confraternização de movimentos, partidos, sindicatos e centrais somos chatas. Quando reivindicamos direito de fala em atos, somos limitadas a uma intervenção somente e se reclamamos das falas majoritariamente masculinas somos chatas. Quando pedimos espaço para uma intervenção feminista (cênica) em qualquer atividade política, seja de rua ou de espaços fechados, não dá tempo. Se reclamamos, ouvimos, com freqüência, que esse não é foco e novamente somos chatas. Quando reclamamos de memes ou vídeos nas redes sociais, WhatsApp, Telegram, é muito comum algum companheiro dizer que “um pouco de humor não faz mal”, “é só uma brincadeira, uma piada” e se discordamos, daí somos muito chatas.
Mas quando dizemos que os homens nos matam, violentam e/ou silenciam, tem um bocado de companheiros de esquerda que logo se defendem dizendo que nem todos são assim. Querido, se você não atua para mudar a atitude dos coleguinhas, você está sendo cúmplice do machismo. A culpa é tua também.
O machismo só te incomoda na hora em que você é acusado de sê-lo? É isso mesmo? Não te incomoda ouvir nas avaliações das ações políticas as companheiras reclamando do silenciamento das mulheres? Não te incomoda ouvir o teu companheiro fazer piada sobre os nossos corpos? Não te incomoda ouvir teu companheiro nos assediando? Não te incomoda saber que teu coleguinha de esquerda abusa dos nossos corpos quando bebe um pouco mais e usa essa desculpa para passar a mão e se encostar? Não te incomoda o machismo ao redor? Não te incomoda que o Estado defina nossos direitos e deveres reprodutivos e que a mulher seja criminalizada caso não cumpra um lei escrita por homens para controlar nossos corpos?
Quantas mulheres precisam morrer vítimas de feminicídio? Quantas mulheres precisam morrer em abortos clandestinos? Quantas mulheres precisam ser estupradas? Quantas mulheres do seu convívio precisam sofrer com violência doméstica para que vocês homens passem a achar importante se solidarizar e participar dos nossos atos em defesa da vida das mulheres? Participar com presença física mesmo. Não é só compartilhar o evento nas redes e contatos. Não participar somente no papel de companheiro da fulana feminista, mas como defensor da pauta de fato.
Nós, mulheres, temos medo de vocês, homens. Medo de andar na rua e ouvir algum assédio. Medo de ser agredida quando dissermos não. Medo de sermos estupradas e sermos culpabilizadas pela roupa que vestimos ou pelo lugar que frequentamos. Medo de ser minimizada aos trabalhos domésticos sobre forte coação e dependência financeira. Medo de viver sendo inferiorizada intelectualmente porque não entendemos de política tão bem como vocês (ironia). Medo de sermos chamadas pela organização política mista que participamos somente para organizar as festas, ficar na recepção fazendo crachá de encontros, congressos e seminários, ou controlar quem sobe em caminhão de som. Medo de que a lei, feita por homens, defina nossos direitos sexuais e reprodutivos.
Esse medo que temos está confortável para vocês? Se não está, o que você está fazendo para mudar essa situação? Eu acho que está confortável, sim. Tão confortável que vocês não se levantam para lutar conosco, levantam somente para se defender quando os acusamos de serem ESQUERDOMACHOS.