O “pecado” da minha cor

Nasci em Porto Alegre, mas fui criada no Rio de Janeiro. Cheguei com dois anos de idade e vivi lá até os 22.  A cidade é linda e tem diversas atividades culturais, eventos anuais e pontos turísticos que encantam quem conhece. As atividades culturais são do que mais sinto falta: shows na praia, ou em teatro de lona (barato), bares que não cobram entrada, quiosques com pagode ao vivo, dentre outros. Sinto falta de sentar na calçada e bater papo com os amigos. Alguns pontos turísticos porém tem custo de acesso tão elevado que só são conhecidos por boa parte dos moradores da cidade pela televisão. Mas quero tratar do que é ser negra no Rio nos eventos turísticos anuais, em especial no Carnaval. Muitas vezes deixei de sair de casa com medo de ser confundida… consegue imaginar com o que?

A propaganda que é feita para o público externo sobre o que é o carnaval desconsidera completamente a história. O Carnaval é uma festa popular realizada durante 05 dias desde 1892, antecedendo o início do período da quaresma católica. É constituído por blocos de carnaval, bailes de fantasia, festas de rua e caracterizado pela irreverência.

As escolas de samba surgiram somente em 1928 com a “Deixa Falar” fundada por Nilton Basto, Ismael Silva, Silvio Fernandes, entre outros. O termo “escola de samba” foi usado, pois na rua Estácio, onde aconteciam os ensaios, havia uma Escola Normal. A escola de samba Deixa Falar funcionava ao lado desta Escola Normal.

A Deixa Falar fez muito sucesso entre os moradores da região. Ela acabou por estimular a criação, nos anos seguintes, de outras agremiações de samba. Surgiram assim, posteriormente, as seguintes escolas de samba: Cada Ano Sai Melhor, Estação Primeira (Mangueira), Vai como Pode (Portela), Vizinha Faladeira e Para o Ano sai Melhor.

Nestas primeiras décadas, as escolas de samba eram organizadas de forma simples, com poucos integrantes e pequenos carros alegóricos. Já havia competição para definir qual escola apresentava o melhor desfile, porém a competição entre elas não era o mais importante, mas sim a alegria e a diversão.

Por décadas os desfiles das escolas de samba tiveram menor importância dentro do carnaval por se tratar de algo relacionado à negritude. O elegante eram as festas que aconteciam em clubes caros da elite. A partir da década de 1950, a aproximação de intelectuais de esquerda ao samba e conseqüente incorporação da classe média aos desfiles, deram destaque às escolas de samba que foram valorizadas como centro do carnaval carioca e evento nacional. Desde 2004 o Carnaval do Rio de Janeiro é considerado o maior carnaval do mundo.

A apropriação do Carnaval pelas elites e a transformação do desfile das escolas de samba em negócio lucrativo causou algumas mudanças nas escolas. Passaram a existir os enredos encomendados por grandes corporações, alas inteiras sem nenhum membro da comunidade de origem da escola, profissionalização de integrantes (comissão de frente, por exemplo), fantasias de alto luxo para ser usada por destaques da elite nacional, redução da fantasia das mulheres com alto grau de exposição do corpo, convite para que mulheres midiáticas ocupassem lugares na escola que antes eram escolhidos dentre as mulheres da comunidade (como a rainha da bateria), transmissão ao vivo na TV aberta, dentre outras mudanças visando aumento do lucro dos investidores.

Desde 1991 a Globo criou uma personagem que não tem origem cultural e sim de marketing, para divulgar a transmissão do evento: a “Mulata Globeleza”. Essa mulata samba nua, coberta por purpurina, ao som da vinheta de carnaval da emissora.

Problema 1: A palavra mulata, de origem espanhola, vem de “mula” ou “mulo”: aquilo que é híbrido, originário do cruzamento entre espécies. Mulas são animais estéreis nascidos do cruzamento dos jumentos com éguas ou dos cavalos com jumentas. Em outra acepção, são resultado da cópula do animal considerado nobre (equus caballus) com o animal tido de segunda classe (equus africanus asinus). Sendo assim, trata-se de uma palavra pejorativa que indica mestiçagem, impureza. Mistura imprópria que não deveria existir. Empregado desde o período colonial, o termo era usado para designar negros de pele mais clara, frutos do estupro de escravas pelos senhores de engenho.  A adjetivação “mulata” é uma memória triste dos 354 anos (1534 a 1888) de escravidão negra no Brasil. Por um tempo chegou-se acreditar que as mulatas e os mulatos fosse estéreis como as mulas.

Problema 2: A repetição anual da vinheta da “Mulata Globeleza” naturalizou na população brasileira a ideia de que é tradição de carnaval as mulheres andarem nuas durante esse período. Enquanto os brasileiros acham que “não há nada demais nisso” para os estrangeiros é um convite a exploração sexual, em especial das mulheres negras.

Para mim, mulher negra jovem (sai do Rio aos 22) era comum na praia, em bares, em festas de carnaval ouvir a pergunta: “quanto é o programa?”. Enquanto as mulheres brancas eram elogiadas pela forma física que iriam expor no desfile para nós, mulheres negras, cabia a pecha de sermos todas desfrutáveis durante o carnaval. Se estivesse acompanhada por um homem branco, crescia a certeza dos turistas de que eu era prostituta.

Problema 3: Somente agora ao 34 anos, relembrando essa situação que para mim no Rio era corriqueira, percebi que isso não deveria ser considerado normal. Para não ter que explicar que nem todas as mulheres negras cobram por sexo no carnaval, eu me privava de ir a determinados locais que queria. Enquanto estivermos em um sociedade patriarcal estaremos em constante violência psicológica. 

Enquanto o feminismo liberal traz a pauta de desconstrução do padrão estético de beleza, nós mulheres negras lutamos contra a hiper-sexualização dos nossos corpos. Tem diferença? Sim. E muita.

O padrão de beleza imposto às mulheres é um padrão eurocêntrico, onde o bonito é ter beleza branca angelical. Cabelos loiros, quadril e busto pequenos porem tesos, corpo magro, olhos claros, bochechas rosadas, nariz e lábios finos. A mulher negra nunca foi considerada angelical, pois não cabe na descrição. As características fenotípicas da mulher negra são o contrário do que se considera angelical. O quadril largo, os seios fartos e os lábios carnudos nos fizeram ganhar o título de termos “a cor do pecado”. Inclusive por tempos esse termo justificou o estupro de mulheres negras, pois seu corpo “quente” gerava nos homens instintos primitivos incontroláveis.

O debate da hiper-sexualização da mulher negra ainda é cercado de polêmicas. Há quem diga que a presença (e vitória) de mulheres negras em concursos de beleza, traz à tona a representatividade da negra como bela, indo na contramão da hiper-sexualização. Nem sempre. Grande parte das vitoriosas desses concursos tem quadris na medida branca, busto na medida branca, sobrando para característica negras a cor da pele, o lábios carnudos que são considerados sensual e o cabelo que no concurso “até” esta Crespo, mas nas atividades pós-vitória, em presenças VIP, em programas de TV, já está muito bem escovado. Eu sempre pondero que essa “representatividade” em concurso estético, muitas vezes aclamada pelos movimentos, possa acabar gerando um padrão negro de beleza e por consequência mais uma pauta para desconstruirmos, além da hiper-sexualização.

Trago a percepção de que a “Mulata Globeleza” não deveria existir. É um desserviço na luta das mulheres negras. Porém tenho de reconhecer que foi um grande avanço a mudança deste anos nas vestimentas da Globeleza, além de mostrar que o carnaval é multicultural com manifestações regionais como o Frevo, Maracatu e Axé.

Essa vitória é sim resultado das manifestações feministas que repudiam a exposição dos nossos corpos como mercadoria turística e que fazem campanha permanente contra a cultura do estupro na sociedade machista que vivemos.

Também é uma vitória que valoriza a cultura negra, mostrando que samba carrega a história de um povo. Samba não é somente carnaval. Nossas músicas carregam as vozes de nossa ancestralidade. De nenhuma forma nossa cultura deveria ser vinculada à exploração sexual como vem acontecendo.

Concluo com as palavras de Stephanie Ribeiro e Djamila Ribeiro:

Não aceitamos ter nossa identidade e humanidade negadas por quem ainda acredita que nosso único lugar é aquele ligado ao entretenimento via exploração do nosso corpo. Não mais aceitaremos nosso corpo refém da preferência e da vontade de terceiros, para deleite de um público masculino e de uma audiência que se despoja do puritanismo hipócrita apenas no Carnaval. Não mais aceitaremos nosso corpo narrado segundo o ponto de vista do eurocentrismo estético, ético, cultural, pedagógico, histórico e religioso. Não mais aceitaremos os grilhões da mídia sobre nosso corpo!”

Nossos passos vem de longe e seguiremos em marcha até que todas sejamos livres

Sobre a chacina misógina de Campinas

Demorei muito tempo refletindo e processando tudo o que tenho ouvido sobre a chacina misógina ocorrida em Campinas. Não quero me deter aos fatos do ocorrido, nem as cartas ou audios, pois a grande mídia tem feito essa exposição em detalhes, mas vou contextualizar para introduzir a discussão.

Na madrugada da virada de 2016 para 2017 o técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, pulou o muro onde acontecia uma festa de ano-novo, e assassinou sua ex-esposa Isamara Filier, 41 anos, seu filho João Victor, 8 anos, e mais dez pessoas. Ao todo, Araújo disparou contra 15 familiares e amigos de Isamara. Dos 12 mortos, nove eram mulheres. Além das três vítimas que estão hospitalizadas sem risco de vida, mais três conseguiram escapar ilesas. Dois adolescentes que se esconderam em um banheiro relataram que o filho do atirador disse: “Você matou a mamãe”. Logo depois, ouviram os disparos que mataram Victor. Depois da chacina, Araújo se matou com um tiro na cabeça. Foi um crime premeditado, planejado, que utilizou de vários artefatos. Outro fato que chama atenção é que diversas pessoas conheciam a intenção dele de assassinar a ex-esposa, porém ele seguiu seu plano sem nenhum impedimento.

Isamara já tinha buscado todos os mecanismos legais contra ele, denunciando abuso sexual do filho, pedindo e conseguindo medidas judiciais de proteção em relação aos dois. Em cartas e audios deixados pelo atirador, ele justifica os doze assassinatos ao dizer que buscava vingança por ter perdido a guarda do filho Victor depois de ser denunciado por abuso sexual contra a criança. Para se referir à ex-esposa. Isamara Filier, à mãe dela e a outras mulheres da família dela, ele só usa uma palavra, o tempo todo: “vadia”.

Conversando com pessoas que não estão envolvidas em movimentos sociais, os relatos que ouvi são muito tristes. Ouvi mulheres dizendo que não adianta recorrer a Lei Maria da Penha em caso de violência ou ameaça, que a medida protetiva é somente um instrumento burocrático, que se o homem quiser ele mata de qualquer forma. Ouvi também que por vezes é melhor manter um relacionamento abusivo do que separar e correr o risco de ser assassinada.

Esse crime gerou em diversas mulheres um sentimento de encolhimento de liberdade, de desproteção, de necessidade de submissão ao homem por sobrevivência.

Em outro texto escrevi que nós mulheres vivemos com medo dos homens. Medo do estupro, do feminicídio, da agressão física e psicológica, do relacionamento abusivo, da inferiorização intelectual, das diversas formas de violência que somos submetidas pelos homens que acham que por sermos mulheres devemos realizar suas vontades por obrigação religiosa, moral e/ou cultural.

Abro aqui um parêntese: Lendo as notícias sobre a chacina muito me chamou a atenção o uso do termo “ex-mulher”. Parece que quando uma mulher se divorcia ela deixa de ser mulher. O Homem é ex-marido, ou seja, para ele muda o estado civil, porém para a mulher parece que há uma perda de identidade social. Ela é ex-mulher e não ex-esposa. Fecho parêntese.

Sim, nós mulheres temos medo do machismo que pode nos matar, mas se recuarmos pelo medo, iremos retroceder em conquistas. Não podemos aceitar relacionamentos abusivos por medo de agressão. Não podemos aceitar que violentem de qualquer forma (física, sexual ou psicológica) a nós e aos nossos filhos e filhas e tratar como problema de doméstico. Não podemos ficar presas em relacionamentos infelizes e com tortura psicológica para não chocar a família. Não precisamos mais manter casamentos doentes e agressivos por conta da dependência financeira ou por que a Igreja determina.

Temos avanços legais como A Lei Maria da Penha que contribuiu para diminuir em cerca de 10% a taxa de homicídio contra mulheres dentro de casa. Essa  Lei não trata só da questão penal, apenas 12% de seus artigos tratam da questão penal. Os outros todos são de prevenção à violência doméstica. Não é somente para tratar de quem já fez, mas sim para prevenir.

Os dados do Mapa da Violência de 2015 indicam impacto positivo da Lei Maria da Penha. Enquanto o índice de crescimento do número de homicídios de mulheres no Brasil foi de 7,6% ao ano entre 1980 e 2006, quando a Lei Maria da Penha entrou em vigor, entre 2006 e 2013 o crescimento foi de 2.6% ao ano. Esse percentual tem que diminuir ainda mais e para isso precisamos fortalecer essa política.

Não podemos desacreditar nas conquistas que são fruto da organização das mulheres em busca de direitos. Se ainda não somos livres temos que lutar por mais medidas que promovam a igualdade, que empodere mulheres, que aumente a representatividade em espaços políticos, que nos protejam e que puna agressores. Devemos fortalecer a nossa militancia e não nos encolhermos.

Somos contra a misoginia e não vamos ceder ao ódio. Não vamos voltar para o tempo em que o papel da mulher era ser a ajudante do marido. Não vamos fechar os olhos quando abusarem de nossas crianças. Retroceder não vai impedir eles de nos matar, ao contrário a violência contra a mulher voltará a ser o assunto doméstico que cada família resolve de acordo com a sua tradição, sem repercussão, sem denuncia, sem punição.

É muito difícil evitar crimes de ódio. Neste caso ele foi premeditado, e não possibilitou chance de reação. Foi um ato covarde e o suicídio deixa um amargo de impunidade visto que o atirador concluiu seu plano. O que é preciso rever são medidas protetivas mais eficientes que consigam minimizar feminicídios anunciados.Precisamos melhorar a Lei e não desacreditá-la.

O que de fato me deixou perplexa neste caso é que o autor da chacina reproduz um discursso que se houve muito na “direita coxinha verde-amarela”. Ele traz um ódio as mulheres e a sua emancipação, apresenta contrariedade a Lei Maria da Penha, desacordo com o sistema político e ao fato de mulheres ocuparem postos de decisão como a Dilma na presidencia. Isso demonstra o avanço assustador do pensamento conservador tão doentil que leva o agressor a acreditar que está agindo corretamente ao matar a ex-esposa e o filho sobre quem ele perdeu a autoride e quem mais estivesse perto.

Não podemos ceder ano medo.  A coragem, a força, a vitória cotidiana está em efrentá-lo. Não podemos deixar o conservadorismo avançar.Devemos nos manter na luta defendendo políticas públicas de proteção as mulheres. Devemos seguir buscando representatividade nos espaços políticos elegendo mulheres feministas que defendam nossas pautas e  que proponham leis que promovam a igualdade, que defendam nossos direitos sexuais e reprodutivos, a dignidade humana, a possibilidade de seguirmos vivas…

Por isso mulheres nosso dever é Seguir Em Marcha Até que Todas Sejamos Livres

O machismo só te incomoda na hora em que você é acusado de sê-lo?

Esse texto tem intenção de dialogar com os homens, em especial os homens com ideologia de esquerda. Quero provocá-los. Leiam até o final e respondam nos comentários. Será que vocês já refletiram sobre o porquê das companheiras de militância de vocês, da mesma organização, usarem o termo “esquerdomacho”?
O Movimento feminista em muitos momentos é visto como uma questão menor dentro da esquerda. O que de fato importa são as análises da macroestrutura, o cenário econômico-financeiro, a avaliação de disputas de poder, a construção/manutenção de quadros com potencial para disputar mandatos eletivos… Discutir “assuntos das mulheres”, em tempos de crise, pode esperar.
Acontece que muitas de nós não conseguimos esperar esse tempo. Morremos. Assassinadas por homens. Algumas de nós somos tão silenciadas pelos “companheiros” que saímos da militância. Abandonamos o barco ou ficamos no cantinho cumprindo a cota.
Quando não queremos músicas que afirmam a superioridade masculina em confraternização de movimentos, partidos, sindicatos e centrais somos chatas. Quando reivindicamos direito de fala em atos, somos limitadas a uma intervenção somente e se reclamamos das falas majoritariamente masculinas somos chatas. Quando pedimos espaço para uma intervenção feminista (cênica) em qualquer atividade política, seja de rua ou de espaços fechados, não dá tempo. Se reclamamos, ouvimos, com freqüência, que esse não é foco e novamente somos chatas. Quando reclamamos de memes ou vídeos nas redes sociais, WhatsApp, Telegram, é muito comum algum companheiro dizer que “um pouco de humor não faz mal”, “é só uma brincadeira, uma piada” e se discordamos, daí somos muito chatas.
Mas quando dizemos que os homens nos matam, violentam e/ou silenciam, tem um bocado de companheiros de esquerda que logo se defendem dizendo que nem todos são assim. Querido, se você não atua para mudar a atitude dos coleguinhas, você está sendo cúmplice do machismo. A culpa é tua também.
O machismo só te incomoda na hora em que você é acusado de sê-lo? É isso mesmo? Não te incomoda ouvir nas avaliações das ações políticas as companheiras reclamando do silenciamento das mulheres? Não te incomoda ouvir o teu companheiro fazer piada sobre os nossos corpos? Não te incomoda ouvir teu companheiro nos assediando? Não te incomoda saber que teu coleguinha de esquerda abusa dos nossos corpos quando bebe um pouco mais e usa essa desculpa para passar a mão e se encostar? Não te incomoda o machismo ao redor? Não te incomoda que o Estado defina nossos direitos e deveres reprodutivos e que a mulher seja criminalizada caso não cumpra um lei escrita por homens para controlar nossos corpos?
Quantas mulheres precisam morrer vítimas de feminicídio? Quantas mulheres precisam morrer em abortos clandestinos? Quantas mulheres precisam ser estupradas? Quantas mulheres do seu convívio precisam sofrer com violência doméstica para que vocês homens passem a achar importante se solidarizar e participar dos nossos atos em defesa da vida das mulheres? Participar com presença física mesmo. Não é só compartilhar o evento nas redes e contatos. Não participar somente no papel de companheiro da fulana feminista, mas como defensor da pauta de fato.
Nós, mulheres, temos medo de vocês, homens. Medo de andar na rua e ouvir algum assédio. Medo de ser agredida quando dissermos não. Medo de sermos estupradas e sermos culpabilizadas pela roupa que vestimos ou pelo lugar que frequentamos. Medo de ser minimizada aos trabalhos domésticos sobre forte coação e dependência financeira. Medo de viver sendo inferiorizada intelectualmente porque não entendemos de política tão bem como vocês (ironia). Medo de sermos chamadas pela organização política mista que participamos somente para organizar as festas, ficar na recepção fazendo crachá de encontros, congressos e seminários, ou controlar quem sobe em caminhão de som. Medo de que a lei, feita por homens, defina nossos direitos sexuais e reprodutivos.
Esse medo que temos está confortável para vocês? Se não está, o que você está fazendo para mudar essa situação? Eu acho que está confortável, sim. Tão confortável que vocês não se levantam para lutar conosco, levantam somente para se defender quando os acusamos de serem ESQUERDOMACHOS.

Acabou novembro, e o racismo?

O mês de novembro traz para pauta de debate de diversas entidades e movimentos o combate ao racismo. Isso porque no dia 20 de novembro é celebrado o dia da Consciência negra, data escolhida por ser o dia atribuído à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.

Porém cabe lembrar que o ano possui 12 meses, que o racismo não tem data marcada para acontecer, que o extermínio da juventude negra não é pré-agendado, tão pouco o feminicídio das negras tem picos em determinados meses do ano. O racismo precisa ser combatido e debatido todos os dias do ano, não somente no mês de novembro, não somente como pauta temática. Isto é insuficiente.

Muitas entidades acreditam que estão sendo altamente solidárias com a pauta dos negros e negras, ao investirem alto em campanhas de combate ao racismo no mês de novembro. Somente no mês de novembro.

Toda iniciativa de enfrentamento às opressões específicas é válida. O problema é quando ela se torna uma pauta de calendário. O movimento feminista em certa medida tem superado essa situação quando além das atividades do dia 08 de março, onde as mulheres fazem atos de rua trazendo a pauta contra o patriarcado, organizam os 16 dias de ativismo em campanha mundial que se inicia em 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, e vai até 10 de dezembro, o Dia Internacional dos Direitos Humanos, passando pelo 6 de dezembro, que é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres.

Porém as pautas dos movimentos de negros e negras são consideradas menores, visto que neste país, ninguém se assume como racista e portanto a pauta não é prioritária. Infelizmente é comum você ouvir pessoas se dizendo machistas (homens e mulheres) e até mesmo homofóbicos, contudo ninguém assume preconceito racial. Até porque é crime.

Outro fator que invisibiliza nossas atividades é, que datas de negros e negras não movimentam o mercado, portanto não é interessante oficializar feriados ou comemorações visto que não gera aumento significativo nas vendas do comércio em geral. E como vivemos em uma sociedade capitalista, referenda-se em silêncio que a carne mais barato do mercado é a carne negra.

Mas o que considero mais difícil de entender, e que traz um nó na garganta, é a ausência dos militantes de esquerda brancos e brancas nas atividades organizadas por negros e negras. Quando os brancos organizam o debate e chamam uma de nós para palestrar, até tem quórum. Porém quando nos organizamos e convidamos para que se somem a nossa luta, dificilmente temos adesão dos “companheiros e companheiras”. Este ano isso foi muito perceptível na comemoração do Dia de Tereza de Benguela e na Marcha das Crespas de Curitiba.

Quando se lembram da representatividade e nos chamam para compor um debate, temos ouvintes não-negros que até estão dispostos a nos ouvir até chegar o palestrante principal, porém quando nos auto-organizamos e convidamos os não negros a ouvirem nossas pautas a partir de nós mesmos, daí tem sempre outra agenda mais importante que eles precisam cumprir. Somos invisibilizados por aqueles que dizem que caminham ao nosso lado. Eu diria que este lado tem angulação.

 Vejamos dados de algumas pesquisas para que entendamos que o combate ao racismo deve ser todos os dias:

  • De acordo com o Mapa da Violência 2015, no ano de 2012 morreram 2,5 vezes mais negros que brancos no Brasil. As principais vítimas dessas mortes são jovens negros (entre 15 a 29 anos) com baixa escolaridade e moradores das periferias dos grandes centros urbanos.
  • O número de pessoas brancas mortas por arma de fogo caiu 23% entre 2003 e 2012 (de 14,5 mortes por 100.000 habitantes para 11,8), a quantidade de vítimas negras aumentou 14,1% no mesmo período: de 24,9 para 28,5. Os dados são do Mapa da Violência 2015.
  • De acordo com o Mapa da Violência 2015, o número de mulheres negras mortas cresceu 54% em 10 anos (de 2003 a 2013), enquanto que o número de mulheres brancas assassinadas caiu 10% no mesmo período.
  • Dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM)/Datasus apontam que mais da metade dos 56.337 mortos por homicídio em 2012 no Brasil eram jovens (27.471, correspondente a 52,63%), sendo que destes 93,30% eram do sexo masculino e 77% negros.
  • Segundo a Pesquisa sobre Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a pedido do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o grau de conhecimento de práticas de bullying chega a 19% contra alunos negros, 18,2% contra pobres, 17,4% contra homossexuais. Em seguida, 10,9% estiveram nessa situação por ser mulher e 10,4% por morarem na periferia ou em favelas.

 A mensagem que quero fixar com esse artigo é que o racismo se combate todos os dias, que a solidariedade na luta deve ocorrer em todos os espaços e que a representatividade importa sim para os negros e negras. Por isso, quando for pensar em mesas para debates, lembrem-se de chamar negros e negras para que possamos contribuir com nossos pontos de vista sobre o tema. Quando nós convidarmos não-negros para atividades de combate ao racismo organizadas por nós, se somem à nossa luta. Abordem esse tema cotidianamente e não somente em novembro, e não somente com palavras e textos, mas também com atitudes de enfrentamento ao racismo e presença nos espaços de discussão. O contrário disso é silenciamento e racismo institucional dentro de movimentos que eram pra ser “sociais”.

Vale lembrar: não somos negros e negras somente em novembro

Culpabilização da Vítima

A nossa sociedade cultiva a ideia equivocada de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais quando provocado por mulheres sedutoras. Essa justificativa responsabiliza as mulheres pelas atitudes abusivas que os homens possam praticar. Sendo assim o ato sexual não consentido é apenas uma resposta física do homem a uma provocação consciente por parte das mulheres que não souberam se portar de forma casta e utilizaram seu potencial sedutor. Essa provocação pode ocorrer de diversas formas, desde uma roupa que realce a beleza do corpo, estar sozinha, estar em uma festa, beber bebida alcoólica, andar a noite sozinha, andar de dia sozinha, estar em uma rua deserta, estar no centro da cidade, ser negra, ser branca, ser criança, ser jovem, ser adulta, ser idosa, ser deficiente física ou mental, ser rica, ser pobre, ser alta, ser baixa… Em resumo, sendo mulher, cis ou trans, o risco de provocar o instinto estuprador de um homem é uma possibilidade constante na vida de uma mulher.

Recentemente ouvi de uma delegada que atua em “delegacia da mulher” que ir na biblioteca depois da escola é também uma forma de se arriscar a ser estuprada e morta, e isso é culpa da família que ao invés de manter a criança dentro de casa permitiu que ela fosse a uma biblioteca sozinha. Se este pensamento predomina em quem deveria proteger, investigar e solucionar crimes contras as mulheres, imagina como deve ser o empenho em prender agressores…

O Datafolha realizou uma pesquisa, encomendada pelo FBSP, entrevistando 3.625 pessoas a partir de 16 anos, em 217 municípios. A coleta de dados foi feita entre os dias 1º e 5 de agosto de 2016. Esta pesquisa mostrou que mais de 33% da população brasileira considera a mulher culpada pelo estupro.

Esta pesquisa aponta que 42% dos homens e 32% das mulheres concordam com a afirmação: “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”, enquanto 63% das mulheres e 51% dos homens discordam. O problema é que a ideia de “se dar ao respeito” varia de acordo com a religião, local de origem, nível de escolaridade, classe social, acesso a bens e consumo, cultura, valores morais, dentre outros fatores, de cada indivíduo de nossa sociedade.

Veja aqui a pesquisa completa.

Quando a violência é doméstica, além da culpabilização da vítima pela família ouve-se a receita de que os problemas domésticos se resolvem dentro de casa. De acordo com o SIPS sobre a “Tolerância social à violência contra as mulheres”, 63% dos brasileiros concordaram, total ou parcialmente, que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”. No mesmo sentido, 89% dos entrevistados concordaram que “a roupa suja deve ser lavada em casa”; e 82% que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Conclui-se que a maioria da população brasileira defendem o patriarcado (com alguns contornos contemporâneos).

Estes estudos confirmam a tese que os movimentos feministas defendem que vivemos em uma sociedade onde há de fato uma cultura do estupro. A culpabilização da vítima é algo muito sério e traz marcas profundas numa mulher. Além de sofrer fisicamente uma violação do seu corpo com conseqüências imediatas, ela pode desenvolver problemas psicológicos incluindo depressão, fobias, ansiedade, abuso de drogas ilícitas, tentativas de suicídio e síndrome de estresse pós-traumático.

A culpabilização da vítima pelo seu próprio estupro pode ser classificada como uma verdadeira tortura psicológica contra a mulher, que além de todo sofrimento físico e psicológico pós-estupro, também é penalizada socialmente pelo comportamento doentio do seu estuprador.

Como romper com essa cultura machista? Educando meninos e meninas que ambos tem os mesmo direitos e deveres, que nenhum é mais ou menos importante que o outro, que cada qual pode desempenhar o papel que quiser na sociedade, que nenhum ser existe para satisfação obrigatória dos prazeres do outro, que o machismo é sim uma forma de violência que deve ser combatida. Isso deve ser discutido em casa, nas escolas, nas igrejas, nas redes sociais, ou seja, em todos os lugares.

Não temos que ensinar as meninas a como se comportar para não ser estuprada. Não temos que impedi-las de frequentarem a biblioteca ou o centro da cidade. Temos que ensinar os meninos a respeitar as mulheres. Temos que ensinar os meninos que eles só tem propriedade e controle sob o seu próprio corpo e mais nenhum outro. Temos que ensinar aos meninos que é abominável o ato de levantar a saia das meninas na escola ou deitar no chão para ver calcinhas. Que não é aceitável roubar beijos no colégio quando não há acordo. Temos que ensinar ao meninos que cantadas não são elogios e sim ofensas, e que muitas vezes são assustadoras.

Além da promoção do debate permanente sobre as questões de gênero, temos também que exigir políticas públicas de proteção as mulheres. O estado não pode se eximir da responsabilidade de promover a segurança pública e de solucionar crimes cometidos contra as mulheres e meninas, culpabilizando o comportamento individual ou um suposto descuido da família.

Precisamos de uma revolução cultural. Não teremos igualdade ou democracia de fato enquanto vivermos em uma sociedade patriarcal e racista

O feminicídio contra Lúcia Pérez

O brutal estupro e assassinato de uma jovem de 16 anos motivou os movimentos feministas da Argentina a convocarem uma greve de uma hora de duração na data de hoje, 19 de outubro, e manifestações em cidades como Buenosparo-mujeresniunamenos_claima20161018_0041_17 Aires e Mar del Plata.

Com o nome de Miércoles Negro (Quarta-feira Negra), os grupos Ni Una Menos, Mujeres de la Matria Latinoamericana (MuMaLá) e outras associações convocaram os protestos, dos quais deverão participar milhares de pessoas vestidas de preto, unidas pelo slogan “basta de violência machista”.

As ONGS convocaram as mulheres a suspender suas atividades entre as 13h e 14h desta quarta-feira (horário local). “Em seu escritório, hospital, corte, redação, loja, fábrica ou onde quer que trabalhe, pare por uma hora para exigir ‘basta de violência machista, nós nos queremos vivas'”, diz a convocatória.

Sobre o feminicidio de Lucía:

Lucía Pérez Montero tinha 16 anos, era estudante e vivia em Mar del Plata, na Argentina, com os pais. Quando foi deixada na porta de um hospital, no dia 08 de outubro, os médicos que tentaram reanimá-la julgaram que a causa da morte seria overdose: mesmo com o rosto lavado, Lucía ainda apresentava resquícios de cocaína no nariz.

Aquilo, no entanto, era estranho: o consumo havia sido desesperadamente febril, pois as narinas de Lucía estavam completamente queimadas por dentro. Ninguém conseguiria aspirar tanto pó daquela forma, principalmente uma jovem como ela, que não era usuária de drogas. E a partir dessa suspeita, os médicos descobriram que a verdadeira da morte de Lucía Pérez não era overdose, mas um brutal abuso sexual: os legistas descobriram que Lucia sofreu imposição de consumo de drogas, e que a tortura sexual provocou rompimentos profundos em via vaginal e anal. Os três agressores, que têm entre 23, 41 e 61 anos, são vendedores de drogas.

Um dos suspeitos é Juan Pablo Offidani, de 41 anos. Filho de um famoso notário jurídico da Argentina, Pablo estudou nos melhores colégios, teve acesso aos melhores recursos, mas, mesmo assim teve uma adolescência conturbada, período em que se envolveu com drogas. Viveu no Brasil durante um tempo, hospedado na pousada da madrasta, em Trancoso, e voltou à Argentina, acompanhado de uma mulher e o filho dela, Martín Farias. Martín tem 23 anos, e é o segundo acusado da morte de Lucia.

As agressões sexuais na Argentina aumentaram 78% entre 2008 e 2015, segundo dados do próprio Ministério de Segurança argentino. No Brasil, entre 2009 e 2011, foram registrados 16.993 casos de feminicídio. E nas escolas, nas faculdades, nos almoços de família e nos grupos de whatsapp, nunca morremos tanto. Empaladas, quebradas ao meio (como na música do Biel), destruídas, aleijadas – tudo isso são termos que os homens usam para descrever seu desejo sexual com as mulheres.

O Mapa da Violência 2015 aponta que no Brasil, a taxa de feminicídios (4,8 mortes a cada 100 mil mulheres) é duas vezes maior do que a média internacional. Só em 2013, último ano com dados disponíveis, a violência de gênero vitimou mais de 4,7 mil mulheres no país.

ONGs e movimentos sociais também reclamam das condições de trabalho das mulheres argentinas e da desigualdade econômica entre os gêneros. “Se a média de desemprego na Argentina é de 9,3%, para as mulheres é de 10,5%”, disseram os organizadores ao convocar o evento. “Nos empregos informais a diferença salarial chega a 40% em relação aos homens”.

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No último dia 03 de junho, milhares pessoas marcharam contra violência de gênero na Praça do Congresso, no centro de Buenos Aires. No último domingo 09, milhares de pessoas marcharam em Rosário, na província de Santa Fé, uma das cidades mais violentas do país, contra a violência contra mulheres. Protestos similares aconteceram em outras cidades do país, como Mar del Plata.

Lutar para que não haja mais nenhum caso como o de Lucia é lutar para que toda essa fantasia assassina morra. Não, não é normal que um homem diga que vai “estropiar” uma mulher; não é normal dizer que vai “aleijá-la”.

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres.

Companheira Lucia – Presente!

Feminismo Negro

Conceito

O feminismo negro defende que o sexismo, a opressão de classes, a identidade de gênero e o racismo estão indissociavelmente ligados. [1] A forma como estes se relacionam entre si é chamado Interseccionalidade. O termo Teoria da Interseccionalidade foi cunhado pela jurista Kimberle Crenshaw em 1989. [2] Em seu trabalho, Crenshaw discutiu o feminismo negro, e argumenta que a experiência de ser uma mulher negra não pode ser entendida em termos de ser negro e de ser uma mulher, como formas independente, mas deve incluir as interações, que frequentemente se reforçam mutuamente. [3]

A interseccionalidade sustenta que a opressão dentro da sociedade — o racismo, o sexismo, o classismo, capacitismo, bifobia, homofobia e a transfobia e intolerâncias baseadas em crenças — não agem independentemente uns dos outros mas que essas formas de opressão se inter-relacionam, criando um sistema de opressão que reflete o “cruzamento” de múltiplas formas de discriminação.[4] O Coletivo Combahee River argumentou em 1974 que a libertação das mulheres negras implica a liberdade de todas as pessoas, uma vez que exigiria o fim do racismo, do sexismo e da opressão de classe.[5]

Reconhecendo que as formas de opressão vividas por mulheres brancas eram diferentes das que eram experimentadas pelas negras, as mulheres pobres, ou com deficiência, as feministas procuraram compreender as maneiras em que gênero, raça e classe combinados “determinam o destino do feminino”. [6]

Os proponentes do feminismo negro argumentam que as mulheres negras são posicionadas dentro das estruturas de poder em maneiras fundamentalmente diferentes das mulheres brancas. A distinção do feminismo negro originou o rótulo “feminismo branco”, usado para criticar feministas que não reconhecem questões da interseccionalidade.[7]  Angela Davis, bell hooks, Kimberlé Williams Crenshaw e Patricia Monte Collins surgiram como acadêmicas sobre o feminismo negro, recomendo a leitura.[8]

No Brasil

O Feminismo Negro é um movimento social e um segmento protagonizado por mulheres negras, com o objetivo de promover e trazer visibilidade às suas pautas e reivindicar seus direitos. No Brasil, seu início se deu no final da década de 1970, a partir de uma forte demanda das mulheres negras feministas: o Movimento Negro tinha sua face sexista, as relações de gênero funcionavam como fortes repressoras da autonomia feminina e impediam que as ativistas negras ocupassem posições de igualdade junto aos homens negros; por outro lado, o Movimento Feminista tinha sua face racista, preterindo as discussões de recorte racial e privilegiando as pautas que contemplavam somente as mulheres brancas.

De uma forma geral, o movimento feminista já existente tinha uma identidade exclusivamente voltada ao gênero e não via como indispensável a prática de fazer recortes, como por exemplo etnia e classe social.

Sojourner Truth, que fora escravizada e se tornou oradora, em seu discurso na Convenção de Direito das mulheres em Ohio, no ano de 1851, questionou se ela, enquanto negra, não era mulher, em um discurso que evidenciava o privilégio branco em detrimento ao negro, especificamente, mulheres.

“Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, é preciso carregar elas quando atravessam um lamaçal e elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando tinha o que comer – e também aguentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?”

A mulher negra é subrepresentada, quando é, nos movimentos sociais hegemônicos. Enquanto as mulheres brancas buscavam equiparar direitos civis com os homens brancos, mulheres negras carregavam nas costas o peso da escravatura, ainda relegadas à posição de subordinadas; porém, essa subordinação não se limitava à figura masculina, pois a mulher negra também estava em posição servil perante à mulher branca. A partir dessa percepção, a conscientização a respeito das diferenças femininas foi ganhando cada vez mais corpo. Grandes nomes da militância feminina negra foram fazendo história, a exemplo de Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro. A atenção e a produção de conteúdo foram dedicadas a discussões de raça e classe, buscando romper uma zona de conforto que o ativismo feminista branco cultivava, especialmente aquele que limitava sua ótica aos problemas das mulheres de boa condição financeira e acesso à educação.

No entanto, isso não foi suficiente para que o Feminismo Hegemônico passasse a reconhecer as ativistas negras e resgatasse as memórias das mulheres que lutaram na linha de frente de diversos movimentos sociais. Para as meninas e mulheres que vêm a conhecer os movimentos pelos direitos da mulher, há um vácuo de modelos negros nos quais se espelhar, mas não por falta de pessoas atuantes e sim por causa da invisibilidade. É preciso que haja a iniciativa de buscar figuras inspiracionais, caso contrário os nomes mais celebrados serão extremamente limitados.

A necessidade do feminismo negro

A cisão das mulheres negras com o movimento feminista hegemônico nunca foi fácil. Por deterem o domínio racial e contarem com maior número de lideranças consolidadas, as feministas brancas resistem às questões das mulheres negras. Grande parte das reclamações relatadas são repetições de um único discurso: as negras criam caso, enxergam racismo onde há boas intenções, não são compreensivas, racham o movimento.

Isso acontece porque há a tendência de englobar as mulheres a partir de uma única característica em comum: o gênero. Supondo que todas passam pelos mesmos problemas e desejam as mesmas coisas, o Feminismo que não se atenta para as especificidades de cada grupo feminino acaba atuando sob omissão, muitas vezes deliberada. As necessidades das mulheres negras são muito peculiares e sem que seja feita uma profunda análise do racismo brasileiro, é impossível atender às urgências do grupo.

A luta das feministas negras é uma batalha contínua para nivelar seu lugar ao lugar das mulheres brancas. Isso, por si, levanta a importante reflexão sobre a representação feminina na mídia, seu espaço no mercado de trabalho, o lugar de vítima da violência sexual, o protagonismo da maternidade, entre outros temas, pois se há tanto por que as mulheres brancas precisam lutar, é bastante preocupante o fato de que as mulheres negras nem sequer conquistaram igualdade quando em comparação com outros indivíduos do seu próprio gênero.

O papel da feminista não negra

O papel da mulher branca é usar do seus privilégios para beneficiar as mulheres negras na sua luta antirracista, o que dificilmente acontece. Segundo Djamila Ribeiro, mulher negra, pesquisadora na área de filosofia e colunista do jornal Carta Capital, as feministas brancas tratam a questão racial como birra e disputa, impossibilitando o avanço e reproduzindo as velhas e conhecidas lógicas de opressão. A realidade é que pessoas brancas se sentem violentadas quando é evidenciado o sistema opressor que as beneficia. Afinal, ninguém quer ser tachado de opressor.

A dificuldade de reconhecer o privilégio acarreta no silenciamento de mulheres negras. A descolonização do pensamento só se dá quando o negro tem o espaço para falar e, obviamente, quando ocupa esse espaço. Dentro do feminismo, mulheres negras acabam sendo deixadas às margens, pois o sistema opressor que nos cerceia garante a fala a pessoas brancas. E estas, as feministas não negras, auxiliariam na desconstrução, cedendo seu lugar privilegiado a mulher negra.

O movimento feminista negro tem suas peculiaridades, omiti-las acaba contribuindo para desconstrução de toda a luta de um povo, do negro, da mulher negra na sociedade. Quando falamos em violência doméstica, 60 % dos casos envolvem mulheres negras. Na mídia, a representação da negra de “mulata gostosa”, “do bumbum grande” contribui diretamente a fortalecer o discurso de que as negras são sexualmente mais ativas, mais provocantes, mais “quentes”. Dessa maneira, recusar algum tipo de assédio não é socialmente aceito, gerando, muitas vezes, motivos para insultos e até mesmo violência física.

Quando falamos em condições iguais de trabalho para homens e mulheres, de que mulheres estamos falando? Quando se vê um anúncio de emprego em que se diz “mulheres com boa aparência”, de que mulheres estamos falando? Quando se fala em padrão brasileiro de beleza, de que mulheres estamos falando? Quando discutimos a marginalização da mulher, de que mulheres estamos falando?

Mercado de trabalho

Em 2013, a PEC 66 foi aprovada, transformando em lei a reivindicação de empregadas domésticas, que há décadas lutavam por direitos trabalhistas. Não por acaso, as mulheres negras compõem a maioria de trabalhadoras do lar (61,7%) e mesmo com o avanço trazido pela Proposta de Emenda Constitucional, a realidade ainda permanece distante do desejado. As funcionárias que exigem seus direitos muitas vezes acabam despedidas e, sob ameaças e assédio moral, é difícil efetivar a conquista.

Enquanto mulheres brancas lutam para que seus salários (média de R$ 797,00) sejam equiparados aos salários dos homens brancos (média de R$ 1.278,00), as mulheres negras recebem ainda menos (média de R$ 436,00). Conseguir um emprego formal, uma boa colocação e ingressar no ensino superior também são dificuldades típicas daquelas que possuem a pele negra.

Outra face perversa do racismo atrelado ao sexismo é a jornada tripla de trabalho. As trabalhadoras se distanciam de seus lares e filhos para que possam prover sustento, muitas vezes cuidando dos filhos das mulheres com melhor condição financeira, e, por não possuírem os recursos, não podem contratar alguém para prestar assistência às crianças e fazer manutenção em suas próprias casas. As creches não atendem à demanda e as funções das mulheres pobres se acumulam. Chegar em casa após um longo dia de labuta e, ainda assim, precisar cumprir mais tarefas domésticas é uma realidade exaustiva que pode ser relatada por milhares de mulheres negras.

Direitos Sexuais e Reprodutivos

No Brasil, o aborto é legal e gratuito somente se a gravidez for gerada por um estupro, causar risco de morte para a mãe ou no caso do feto ser anencéfalo. Apesar disso, mulheres negras e pobres encontram resistência do sistema de saúde, sendo coagidas por equipes médicas e por religiosos de suas comunidades. Por não contarem com suporte e não terem recursos financeiros que paguem clínicas particulares, muitas dessas mulheres jamais conseguem realizar o aborto.

Se o foco é o aborto por escolha, ainda não legalizado em nosso país, as mulheres negras também integram a parcela de maiores vítimas da ilegalidade. Por causa das complicações geradas por abortos clandestinos, as mulheres negras morrem em números altíssimos e também estão mais vulneráveis ao indiciamento criminal, caso sobrevivam.

A violência obstétrica também é um marco na vida das mães negras e pobres. Negligenciadas nas filas do SUS, elas são colocadas em segundo plano para que mulheres brancas – consideradas mais frágeis e sensíveis – sejam priorizadas, independente da ordem de chegada.

Violência motivada pelo gênero

A cor é fator relevante quando analisamos os casos de agressão e assassinato por parte de companheiros e ex-companheiros. As negras são mais de 60% das vítimas de feminicídio, exatamente porque não contam com assistência adequada e estão mais vulneráveis aos abusos das próprias autoridades.

Já no aspecto da sexualidade, das mulheres brancas é esperado o comportamento moderado e sensualidade com limitações, porém, as mulheres chamadas de “mulatas” são amplamente exotificadas e tratadas como objetos disponíveis para a exploração. O argumento de quem enxerga as mulheres negras como mais disponíveis para investidas sexuais é de que elas são mais provocantes, que seus corpos suportam atos mais intensos, ou até mesmo que não podem negar os assédios.

A cultura do estupro é vigente desde a colonização do Brasil, quando mulheres negras foram estupradas por homens brancos e usadas em políticas oficiais de miscigenação, com o fim de branquear a população. A mentalidade daquela época se mantém forte na contemporaneidade e é por isso que são tão naturalizados aspectos culturais como a escolha anual da Globeleza. A posição de mulata que expõe seu corpo é tão relacionada exclusivamente à mulher negra, que nem sequer se estende o concurso sexista para mulheres de outras raças.

Enquanto as mulheres brancas também são vítimas de violência e estupro, é preciso salientar as formas distintas pelas quais o machismo atua: as brancas são violentadas exclusivamente por seu gênero, as negras também se tornam vítimas do preconceito racial.

Representação na mídia e padrão de Beleza

Cabelos lisos e loiros, narizes finos, bochechas rosadas, olhos azuis e axilas claras são alguns exemplos de como a estética ocidental celebra características brancas como melhores e mais belas. A mulher negra não é considerada bela por suas características naturais. Ela é considerada bonita quanto mais se aproxima do padrão de beleza branco. Por causa dessa padronização, atrizes negras são minoria absoluta e quase nunca são convidadas para estrelarem na televisão.

Embora a redução da mulher ao papel de “musa” seja machista, vale a pena dedicar um pouco de reflexão ao racismo explícito que passa todos os dias sem muitos protestos. A posição não é ideal para nenhuma mulher, mas as causas que levam a exclusão das mulheres negras são inegavelmente racistas.

Representatividade importa.

Solidão da Mulher Negra

O debate interno dentro do Feminismo Negro e entre pessoas negras sobre as múltiplas faces do machismo é bastante inflamado. Grande parte da luta feminina se dá contra o sexismo, a imposição de papéis e a violência. Só que o problema é ainda mais profundo e há um incômodo severo por parte de muitas mulheres negras, que se sentem rejeitadas pelos homens negros. A ideia de que são sexualmente usáveis e descartáveis é tão forte que a confirmação rompe as paredes dos grupos militantes: o Censo 2010 revelou que as mulheres negras são as que menos se casam, sendo a maioria na categoria de “celibato definitivo”, ou seja, que nunca tiveram um cônjuge.

Essa discussão é muito complexa e delicada, já que perpassa o desconforto em face do racismo e a solidão que as mulheres negras enfrentam. Por isso não é incomum ver protestos e críticas incisivas diante de um rapper ou jogador famoso que apresente sua namorada loira.

Uma outra perspectiva das relações entre mulheres e homens negros se dá pelos âmbitos familiares. Uma mulher branca de classe média dificilmente se preocupará com a violência policial que ceifará a vida do irmão, pai ou filho. Essa é uma pauta muito precisa das feministas negras e revela como até mesmo as relações de gênero se desdobram de maneiras pouco delimitadas pelo puro debate sobre o machismo.

Apesar dos assuntos que dizem respeito à heterossexualidade, há também a necessidade de se abordar as vivências das mulheres negras que são lésbicas e bissexuais, que precisam lidar com investidas invasivas, lesbofobia e discriminação.

A conscientização

Os dados citados são apenas alguns exemplos das disparidades entre mulheres brancas e negras, mas são fundamentais para se compreender a necessidade de uma vertente específica dentro do Feminismo. Afunilar demandas é uma prática comum dentro dos movimentos sociais. Não há porque manter uma falsa impressão de homogeneização quando a diversidade é capaz de produzir muito mais união e potencial comunitário. Reconhecendo e respeitando as diferenças e características subjetivas das mulheres que fazem a luta feminista, é possível contemplar as necessidades urgentes de cada categoria. A diversidade sexual, as variáveis nas identidades de gênero, os fatores de classe, raça e etnia, entre outras especificidades, estão se transformando em abordagens prioritárias que exigem conscientização imediata.

Referência

  1. Patricia Hill Collins.«Defining Black Feminist Thought» (em inglês). The feminist eZine. Consultado em 22/12/2015
  2. Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist Politics140: 139–167.
  3.  Intersectionality: The Double Bind of Race and Gender»
  4. Knudsen, Susanne V. (2006), “Intersectionality – a theoretical inspiration in the analysis of minority cultures and identities in textbooks”,Caught in the Web or Lost in the Textbook, 8th IARTEM conference on learning and educational media, held in Caen in October 2005, Utrecht, The Netherlands: International Association for Research on Textbooks and Educational Media (IARTEM), pp. 61–76, OCLC 799730084.
  5. «Combahee River Collective: A Black Feminist Statement – 1974».
  6. hooks, bell (2014) [1984].Feminist theory: from margin to center 3rd ed. (New York: Routledge). ISBN 9781138821668.
  7. Zeba Blay e Emma Gray.«Why We Need To Talk About White Feminism» (em inglês). HuffPost Women. Consultado em 24/12/2015.
  8. Breeanna Hare (12/12/2014).«Beyonce opens up on feminism, fame and marriage»(em inglês). CNN. Consultado em 24/12/2015.