Maria Beatriz Nascimento

Maria Beatriz Nascimento nasceu em Aracaju/Sergipe, em 12 de julho de 1942, filha da dona de casa Rubina Pereira do Nascimento e do pedreiro Francisco Xavier do Nascimento. Além de Beatriz o casal teve outros nove filhos. Em 1950, quando Beatriz tinha sete anos de idade, a família migrou para a cidade do Rio de Janeiro.

Com 28 anos inicio a graduação no curso de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Durante a graduação fez estágio no Arquivo Nacional com o historiador José Honório Rodrigues. Formou-se em 1971 e começou a trabalhar como professora de história na rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, articulando pesquisa e ensino.

Em 1974, Beatriz Nascimento publica Por uma história do homem negro (Revista de Cultura Vozes. 68(1), pp. 41-45), um texto/proposição que tem como tema principal a flagrante despreocupação da academia brasileira com os temas vinculados à história da população negra, no máximo, reduzidos aos genéricos estudos da escravidão. Neste artigo, Beatriz parte de uma forte motivação que excede preocupações de uma pesquisadora restrita aos muros universitários, se pronuncia como historiadora negra, portanto como vinculada diretamente ao chamado “objeto de estudo”. No mesmo ano, a referida revista veicula outro artigo seu (Negro e Racismo, Revista de Cultura Vozes. 68 (7), 1974, p. 65-68) no qual a autora comenta e reage a idéias recorrentes na sociedade brasileira e, inclusive, no pensamento acadêmico de que há uma única maneira de ser negro, de definir a “cultura negra” e de reduzir à participação negra na formação brasileira a “contribuições”.

Participou da Quinzena do Negro, realizada na USP em 1977, como conferencista e nela falou sobre seus incômodos quanto ao espaço universitário falar do negro apenas como escravo, como se as pessoas negras tivessem participado da história apenas como mão-de-obra. Neste momento ela já está em processo de reconhecimento público de seus estudos acerca da questão étnico-racial, em especial dos quilombos.

Também ajudou a criar o Grupo de Trabalho André Rebouças, do qual ela se torna orientadora. O GTAR se constitui num grupo de estudantes negras(os) de vários cursos que tinha, dentre seus objetivos, o propósito de introduzir e ampliar principalmente na universidade conteúdos acerca das relações raciais no Brasil, almejando o envolvimento do corpo docente (GTAR – Em busca de um espaço. Estudos Afro Asiáticos 8-9, 1983).

Em 1981, terminou sua pós-graduação lato sensu na Universidade Federal Fluminense (UFF) com a pesquisa “Sistemas alternativos organizados pelos negros: dos quilombos às favelas”. Este projeto obtém financiamento parcial da Fundação Ford e da Casa Leopold Senghor do Senegal e tem como objetivo principal estabelecer a possível continuidade dos quilombos com favelas em determinadas cidades brasileiras, a exemplo do Rio de Janeiro. Por força de restrições de financiamento e da própria extensão do tema, Beatriz reduz hipóteses e se detém na viagem a Angola (onde se situavam os quilombos africanos) e no trabalho de campo em áreas passíveis de identificação como “antigos quilombos”, especialmente em Minas Gerais (Kilombo e memória comunitária – um estudo de caso. Estudos Afro-Asiáticos 6-7, pp. 259-265, 1982)

Beatriz Nascimento tornou-se estudiosa das temáticas relacionadas ao racismo e aos quilombos, abordando a correlação entre corporeidade negra e espaço com as experiências diaspóricas dos africanos e descendentes em terras brasileiras, por meio das noções de “transmigração” e “transatlanticidade”. Seus artigos foram publicados em periódicos como Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de inúmeros artigos e entrevistas a jornais e revistas de grande circulação nacional, a exemplo do suplemento Folhetim da Folha de S. Paulo, Isto é, jornal Maioria Falante, Última Hora e a revista Manchete.
Seu trabalho mais conhecido e de maior circulação foi o filme Ori (1989, 131 mim), de sua autoria, dirigido pela socióloga e cineasta Raquel Gerber. O filme, narrado pela própria Beatriz, apresenta sua trajetória pessoal como forma de abordar a comunidade negra em sua relação com o tempo, o espaço e a ancestralidade, emblematicamente representados na ideia de quilombo. O filme alia a reflexão acerca de territorialidade com corporeidade. Para ela o corpo negro se constitui e se redefine na experiência da diáspora e na transmigração (por exemplo, da África para a América, da senzala para o quilombo, do campo para a cidade, do Nordeste para o Sudeste). Neste tema, a encontramos discorrendo acerca da sua própria imagem, da “perda da imagem” que atingia africanas(os) escravizados(as) e descendentes em diáspora. O corpo negro pode ser, então, que procura e constrói lugares de referência transitórios (o baile black, a escola de samba) ou duradouros (a casa de culto afro-brasileiro ou o quilombo). A chamada “cultura negra” recriada estendia-se pelo que ela denominava de transatlanticidade nas relações América, Europa e África.

Beatriz também escreveu acerca da situação das mulheres negras no Brasil, de sua condição social inferior devida ao amálgama de heranças escravistas com mecanismos racistas (A mulher negra no mercado de trabalho. Jornal Última Hora, Rio de Janeiro, 25/07/1976) e à perpetuação de estereótipos no imaginário nacional, especialmente no cinema (A senzala vista da casa grande. Jornal opinião, 5 de outubro de 1976, p. 20-21). É no artigo A mulher negra e o amor (Jornal Maioria Falante, No 17, fevereiro a março de 1990, p. 3.) que Beatriz Nascimento enuncia a discriminação de raça e de sexo que atinge as mulheres negras de vários ângulos e as marca de maneira específica o campo afetivo. Em 1987 ela é agraciada com o título de Mulher do Ano 1986, pelo Conselho Nacional de Mulheres no Brasil.

Além da militância intelectual, Beatriz era poetisa. Sua poesia traz à cena a experiência de ser mulher negra. Essa sensibilidade se traduziu em toda sua escrita.
Estava fazendo mestrado em comunicação social, na UFRJ, sob orientação de Muniz Sodré, quando sua trajetória foi interrompida. Beatriz foi assassinada ao defender uma amiga de seu companheiro violento, deixando uma filha.
Faleceu em 28 de janeiro de 1995 no Rio de Janeiro.

Apesar de ter uma produção que se estende ao longo de 20 anos, entre 1974 e 1994, e de alcançar relativa visibilidade intelectual e política em vida, a exemplo do que acontece com Lélia Gonzalez, Eduardo Oliveira e Oliveira, Hamilton Cardoso e outras(os) de sua geração, Beatriz Nascimento não se torna uma autora reconhecida nos círculos hegemônicos dos estudos raciais no Brasil.

Há que se reconhecer que, como uma das protagonistas, ela palmilha, sedimenta e constrói em grande parte o espaço que hoje alcançamos nas questões étnico-raciais: a realização e ampliação dos estudos raciais por pesquisadoras(es) negras(os); a presença negra discente e docente nas universidades; a história da população negra brasileira e seus vínculos diversos e contraditórios com as sociedades africanas; a interrelação entre temas como identidade, raça, sexo, corpo, cultura e espaço; a correlação, nem sempre afinada, entre pensamento e ativismo negros.

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Referências:

Alex Ratts em Geledes –  http://sgq.io/4NzsH9TX#gs.keKa7HI

http://mulheres-incriveis.blogspot.com.br/

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