Carolina Maria de Jesus

foto-carolina-maria1“Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.” Carolina de Jesus.

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento – Minas Gerais, em 14 de março de 1914 em uma comunidade rural onde seus pais eram meeiros. Seus pais migraram do Desemboque para Sacramento quando da mudança da economia da extração de ouro para as atividades agropecuárias.

Aos sete anos, a mãe de Carolina forçou-a a frequentar a escola depois que a esposa de um rico fazendeiro decidiu pagar os estudos dela e de outras crianças pobres do bairro. A benfeitora de Carolina Maria de Jesus foi a senhora Maria Leite Monteiro de Barros, pessoa para quem a mãe de Carolina trabalhava como lavadeira. No Colégio Allan Kardec Carolina estudou pouco mais de dois anos. Toda sua educação formal na leitura e escrita advêm deste pouco tempo de estudos.

 Em 1937 sua mãe morreu, e ela se viu impelida a migrar para a metrópole de São Paulo. Carolina construiu sua própria casa, usando madeira, lata, papelão e qualquer coisa que pudesse encontrar. Ela saía todas as noites para coletar e conseguir dinheiro para sustentar a família. Quando encontrava revistas e cadernos antigos, guardava-os para escrever em suas folhas. Começou a escrever sobre seu dia-a-dia, sobre como era morar na favela. Isto aborrecia seus vizinhos, que não eram alfabetizados, e por isso se sentiam desconfortáveis por vê-la sempre escrevendo, ainda mais sobre eles.

Ela foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, em abril de 1958. Dantas era repórter da Folha da Noite e cobria a abertura de um pequeno parque municipal. Imediatamente após a cerimônia uma gangue de rua chegou e reivindicou a área, perseguindo as crianças. Dantas viu Carolina de pé na beira do local gritando “Saiam ou eu vou colocar vocês no meu livro!” Os intrusos partiram. Dantas perguntou o que ela queria dizer com aquilo. Ela se mostrou tímida no início, mas levou-o até o seu barraco e mostrou-lhe tudo e, em 1960, Quarto de despejo, foi publicado prefaciado pelo escritor italiano Alberto Moravia.

“É um documento sobre o que um sociólogo poderia fazer estudos profundos, interpretar, mas não teria condição de ir ao cerne do problema e ela teve, porque vivia a questão”, avalia Audálio Dantas, jornalista que descobriu a escritora em 1958. “Pode-se dizer que essa foi a primeira favela que se aproximou do centro da cidade e isso constituía o fato novo”, relembrou.

Mesmo diante todas as mazelas, perdas e discriminações que sofreu em Sacramento, por ser negra e pobre, Carolina revela através de sua escritura a importância do testemunho como meio de denúncia sócio-política de uma cultura hegemônica que exclui aqueles que lhe são alteridade.

A tiragem inicial de dez mil exemplares se esgotou em uma. Embora escrito na linguagem simples, seu diário foi traduzido para treze idiomas e tornou-se um best-seller na América do Norte e na Europa.

Carolina jamais se resignou às condições impostas pela classe social a qual pertencia. Em uma vizinhança com alto nível de analfabetismo, saber escrever era uma conquista excepcional. Carolina escreveu poemas, romances e histórias.

Escreveu e publicou alguns livros após Quarto de Despejo, porém sem muito sucesso. Seu auge e decadência como figura pública foram fugazes. Isso possivelmente ocorreu devido à sua personalidade forte, que a afastava de muita gente, além da drástica mudança no panorama político brasileiro, a partir do golpe de estado em 1964, que marginalizaria qualquer manifestação popular.

Para o ocidente liberal e capitalista, seu primeiro livro retratava um sistema cruel e corrupto reforçado durante séculos por ideais colonizadores presentes nas dinâmicas sociais da população. Já para os leitores comunistas, suas histórias representavam perfeitamente as falhas do sistema capitalista no qual o trabalhador é a parte mais oprimida do sistema econômico.

Como é observado pelo historiador José Carlos Sebe, “traduções dos seus diários em classe foram utilizadas por diversos especialistas estrangeiros sobre o Brasil, durante anos.”; isso indica a importância mundial do seu papel como fonte primária sobre a vida nas favelas. E o autor Robert M. Levine descreve de que modo “a palavra da Carolina deu vida a uma parte da América Latina pouco estudada nos livros didáticos tradicionais.”

Para o jornalista, Audálio Dantas, a escritora foi consumida como um produto que despertava curiosidade, especialmente da classe média. Costumo dizer que ela foi um objeto de consumo. Uma negra, favelada, semianalfabeta e que muita gente achava que era impossível que alguém daquela condição escrevesse aquele livro, avaliou. Essa desconfiança, segundo Audálio, fez com que muitos críticos considerassem a obra uma fraude, cujo texto teria sido escrito por ele. A discussão era que ela não era capaz ou, se escreveu, aquilo não era literatura, recordou.

Pobre e esquecida, Carolina Maria de Jesus Faleceu em 13 de Fevereiro de 1977, de insuficiência respiratória, aos 62 anos e foi sepultada no Cemitério da Vila Cipó, cerca de 40 Km do centro de São Paulo.

 

Livros Publicados:

  • Quarto de despejo(1960)
  • Casa de Alvenaria(1961)
  • Pedaços de fome(1963)
  • Provérbios(1963)

Publicação póstuma

  • Diário de Bitita(1982)
  • Meu estranho diário(1996)
  • Antologia pessoal(1996)
  • Onde Estas Felicidade(2014)

 

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