Pequenos gestos importam

Porque será que parte das pessoas se incomodam com feminicídio, mas não se incomodam com o machismo das revistas e programas de televisão? Porque será que as pessoas entendem como errado o espancamento de gays e o estupro corretivo de lésbicas, mas não se incomodam com piadas homofóbicas? Porque será que chacina de jovens negros em favela incomoda, mas racismo cordial não?

Por vezes parece que ignoramos que o ódio é construído. Para chegar aos atos de violência brutal, vários pequenos atos de agressividade foram praticados no caminho. Ignoramos que a sociedade patriarcal e colonialista influencia na formação do pensamento comum e molda o caráter de muitos.

Quando apontamos a opressão em fatos corriqueiros, é comum ouvirmos que isso não é importante. Isso nem sempre de maneira tão direta, muitas vezes se dá através da sutil secundarização da pauta. Tentam nos catequizar com a reza de que precisamos debater a conjuntura política ampla e geral, a manutenção de financiamento para políticas públicas, as estruturas funcionando como achamos que deve ser. E de fato devemos, mas não só isso.

O machismo e o racismo são utilizados para atacar o opositor que não respeitou proporcionalidades e paridades, porém jamais para apontar erros dentro do próprio grupo, até porque não podemos admitir publicamente que também cometemos os erros que denunciamos.

E assim a pauta de direitos humanos vai sendo distorcida. Serve para atacar o adversário político, serve para comoção em atos de repercussão midiática, mas jamais para autocrítica

Anúncios

Será que foi racismo?

O racismo cordial é definido como uma forma de discriminação contra pessoas não brancas que se caracteriza por uma polidez superficial que reveste atitudes e comportamentos discriminatórios, que se expressam nas relações interpessoais através de piadas, ditos populares e brincadeiras de cunho “racial”.
O Racismo está tão presente na nossa sociedade que muitas vezes ele é reproduzido em discursos sem que se tenha uma reflexão sobre o conteúdo que está sendo externando. As piadas sobre negros e negras, a polidez ao depreciar uma característica da negritude, a negação do negro como belo sugerindo mudanças estéticas, a determinação pelo comércio de que o negro tem baixo poder de compra e por isso a sugestão de produtos mais baratos, a atribuição do errado ao negro em nosso vocabulário, camufla comportamentos discriminatórios.
Como a afirmação do negro ser inferior biologicamente fracassou, o racismo buscou outra maneira de se manifestar, já que a forma direta, desde 1989, constitui-se como crime. O racismo cordial aparece de uma forma branda, sem alarde, sem violência explícita, por vezes através até de gestos discretos. Quando o negro ou a negra denuncia o crime, rapidamente os não-negros justificam como sendo um erro de comunicação, um exagero do ofendido que está condicionado a enxergar preconceito em tudo. Neste momento geralmente o agressor cita que tem um negro em sua família, e que não é racista, até porque “somos todos miscigenados”.
O racismo cordial é aquele que paulatinamente convence as adolescentes que seu cabelo alisado fica mais bonito do que crespo. É aquele que faz piadas constantes sobre lábios e nariz negróides. É aquele que faz a menina crescer na expectativa de ser a mulata gostosa e o menino de ter o pênis enorme.
O racismo cordial é aquele que destrói a autoestima dos negros e negras com doses homeopáticas de convencimento de que a estética do negro é feia, Só será considerado belo se for hiperssexualizado, de que a capacidade intelectual do negro é baixa, de que a expectativa de vida é curta, de que seu poder aquisitivo sempre será baixo, de que por diversas vezes ele será parado pela polícia para uma revista “de rotina”. 
Essa construção negativa, faz com que muitos negros e negras não reconheçam seu pertencimento étnico, visto que se identificar como negro é algo considerado ruim. Essa negação da própria imagem gera uma defesa do inexistente. A pessoa defende ser pertencente a uma etnia/raça que não existe, como por exemplo “não sou negra, sou morena/mulata/marrom-bombom/chocolate”.
Não querer ser quem se é por influência do racismo cordial, é viver em constante conflito e sofrimento. A sociedade enxerga a “morena” como negra e pratica o racismo com ela. Se ela, contudo, não se entende desta forma, não será capaz de denunciar o que sofre e sempre buscará justificativas como: foi apenas uma piada ou um erro de comunicação.
Muitas famílias não conversam sobre o tema. Há uma alienação consentida sobre auto-definição de raça/cor. Há um consenso social em torno da miscigenação que faz com que as pessoas acreditem individualmente que elas podem ser um meio termo entre branco e negro e isso o blinda do racismo. Essa construção é mentirosa e perversa.
Só conseguiremos ter empoderamento para reconhecer o racismo quando primeiro nos reconhecermos como negros e negras e deixarmos de ser café-com-leite. Quando entendermos que o esteriótipo negativo de nossa raça foi construído por brancos, e isso é um problema que eles precisam resolver, não nós. Quando sofremos com racismo, a atitude a ser tomada é fazer Boletim de Ocorrência e não mudar nosso corpo, nossas roupas, nossa fala, nossa vida para agradar o branco e sermos aceitos.
As famílias precisam conversar sobre isso. É muito triste ver e ouvir não-negros praticando o racismo cordial. Nos tratando como se fôssemos seres exóticos que precisam se adaptar. Da mesma forma é muito triste ver o impacto disso nos negros e negras, que por vezes chegam a negar seu pertencimento étnico e criar uma fantasia racial.
Vamos valorizar nossa história! Quem a maculou foram os não-negros. Somos forjados na luta e na resistência. Temos de ter orgulho de nossa ancestralidade, pois…
Nossos passos vem de longe

Ser negra é minha essência e não minha sentença

Será que você consegue imaginar o que é para uma criança entender que ela não é branca? É entender que você não será aceita neste mundo. Isso começa a acontecer quando você começa a ter contato com pessoas fora do teu círculo familiar e começa a ouvir que seu cabelo pode ser usado no lugar da esponja de aço, que iria ficar mais bonito se fosse liso, que seu nariz rouba oxigênio, que você tem que sambar porque ta no seu sangue de preta. Na escola você é a última a ser escolhida como par para dançar quadrilha nas festas juninas ou em qualquer situação que precise de um casal, nos passeios é comum ouvir a professora dizer que você nem precisa de filtro solar por ter a pele feita para trabalhar no sol, você é a última a ter a “melhor amiga”, você por vezes não é convidada para festas de aniversário, principalmente se for de um menino, porque ele não convida as feias. E você é a feia porque seu cabelo é feio, seu nariz é feio, seus lábios são feios, seu corpo é feio, sua pele é feia…
Na adolescência onde a busca por aceitação é constante, o impulso para mudar as características físicas é inevitável. Maquiagem para afinar nariz, chapinha e escovas no cabelo, a aceitação de que você é sensual e não bonita, o investimento em ser a melhor amiga da mais popular do grupo onde você está inserida (escola, igreja, bairro, esporte, etc), uma luta constante para ser aceita, que nem sempre tem sucesso. Provavelmente você será a última a dar o primeiro beijo e quando der, imediatamente será considerada a fácil, aquela que é para pegar e não para namorar.
É comum ouvir as amigas da sua mãe aconselhando ela a ter cuidado para não deixar a filha engravidar, afinal somos da cor do pecado. A filha branca dela é obvio que é virgem e assim se casará, mas as amigas adolescentes negras têm essa sensualidade natural que faz os meninos perderem a cabeça.
Nas ruas quase todas as mulheres ouvem assédios (cantadas) machistas, mas nós mulheres negras ouvimos com um alto teor de vulgaridade. Na noite em bares ou boates, é comum sermos abusadas com passadas de mão nas partes intimas, beijos forçados, encoxadas… Quando reclamamos dos abusos ouvimos que achavam que éramos prostitutas.
Nesse momento amigos teus começam a morrer. Alguns a família consegue provar que não eram bandidos, mas outros são assassinados por que resistiram à polícia. O famoso Auto de resistência. Eu chamo de “Auto de Existência”. Nossos amigos negros da juventude são executados somente por existirem.
Você percebe neste momento que quando você entra numa loja o segurança te segue. Os vendedores não querem te atender por entenderem que você não tem poder de compra e vai só fazer com que percam tempo. Em ambientes de trabalho volta e meia as pessoas te confundem com os trabalhadores da limpeza e asseio, de maneira depreciativa. Em entrevistas de emprego seu currículo até é aprovado, mas na entrevista você não tem o “perfil” da empresa.
Na juventude, quase todos passam pela situação daquele amigo negro dos pais que de maneira repentina morre por volta dos 50 anos de idade por consequências da pressão alta que ocasionou um infarto ou um AVC. Os amigos dos seus pais, vítimas de diabetes, geralmente passam por amputação de algum membro. Meu pai enfartou com cinquenta e poucos. Ainda bem, sobreviveu. Tenho um tio diabético com membro amputado. Essa é uma realidade comum em família de negros. E ainda tem aquela prima/amiga negra que morreu no parto por eclampsia e ninguém nem sabia que ela tinha qualquer problema durante a gravidez.
Eu passei no vestibular para uma universidade pública pela política de cotas. Minha mãe fez uma faixa com um lençol e escreveu com batom e colocou no portão da nossa casa. Meus pais ficaram tão orgulhosos, tão felizes. Quando começaram as aulas ouvi de muitos acadêmicos brancos que eu não “merecia” estar ali e que não conseguiria acompanhar o ritmo de uma universidade pública federal. Ouvi de professores que não aceitariam costumes tribais, ainda mais num curso na área da saúde. Ao contrário do que muitos pensavam, eu me formei. Passei em um concurso público, também utilizando a política de cotas. É impressionante a falta de colegas negros e negras no serviço público. Mas, contrariando as expectativas, vou seguindo.
Maior parte da minha vida eu passei tentando fazer com que as pessoas não se sentissem desconfortáveis por eu não ser branca. Rindo de piadas sobre negros e negras serem burros ou preguiçosos, ouvindo quieta sobre a projeção do meu futuro (engravidar na adolescência, ser mãe solteira e trabalhar em algo que não precisasse de muita escolaridade). Como se eu estivesse errada por ser quem era e precisasse me redimir por isso aceitando o que me impusessem.
Mas chegou o dia em que eu me deparei com a história da minha ancestralidade e entendi que a condição de vida dos negros e negras é sim sofrida, mas não é nossa culpa. Isso ocorre por conta das condições de como nossos ancestrais foram trazidos para este país. Ocorre pelas marcas profundas de discriminação que a escravização de negros e negras deixaram nessa sociedade. É conseqüência da forma como esse sistema desumano foi “encerrado”. Os negros foram libertos da escravização da mesma maneira como jogamos nosso lixo doméstico para fora. Pior, nosso lixo pelo mesmo tem destinação.
Na verdade, são os brancos e brancas que deveriam ter vergonha de sua história de crueldade. Ter em suas raízes donos de fazendas escravagistas deveria ser motivo de desonra e de, no mínimo, busca por reparação histórica pelos crimes contra a humanidade que seus familiares cometeram. Porém o que ocorre é exatamente o oposto. A branquitude continua sendo racista e continua se utilizando dos privilégios que adquiriram com sangue do povo preto, com o sangue do meu povo. Não se sentem nem um pouco responsáveis pelas diferenças sociais que hoje existem entre brancos e negros, e quando falamos de políticas de redistribuição de renda, de cotas, de racismo como crime, o que ouvimos é que nos fazemos de vítima, que não temos mérito, que é injusto com os brancos.
Hoje não ser branca para mim é motivo de auto-afirmação. Tenho orgulho de ser negra, dos meus traços, do meu cabelo. Tenho orgulho da minha história e de minha família. Reconheço minha ancestralidade e a luta que preciso travar de combate ao racismo. Sei que meus passos vieram de longe e que tenho que lutar pelo bem viver.
Infelizmente viver na ignorância da opressão racial é mais fácil. Acreditar que racismo não existe e que tudo é piada de mau gosto ou mal entendido é muito mais confortável. Achar que a sociedade não te direciona para embranquecer seus traços e que você alisa o cabelo porque gosta, é muito mais simples. Sabe porque? Porque o racismo adoece, desiguala e desumaniza. Mexe com a autoestima de uma pessoa negra que foi privada de seu passado. Não temos história. Não temos história negra. Quando é contada, ela chega somente até o período onde os negros eram escravizados. E a maiorias das pessoas negras, com razão, não querem essa história para si. E assim negam seu pertencimento étnico. O trabalho de empoderamento dos negros e negras é contra-hegemônico e por isso tem tanta resistência.
Em que pesem todos os avanços das políticas de promoção da igualdade racial e de enfrentamento ao racismo no Brasil, nos últimos 15 anos, ainda estamos em desvantagem no acesso aos nossos direitos fundamentais. Direitos esses que, desde os tempos de escravidão, inexistiram no cotidiano do africano e do afro-brasileiro. Mesmo após uma Constituição Cidadã, que desde 1988 diz que racismo é crime inafiançável e imprescritível, não se encontra racista para punir, visto que nosso judiciário tipifica os crimes de racismo como “constrangimento”, “briga de vizinhos”, “injúria simples”.
Minha luta é para ser reconhecida como sujeita de direitos. Você não acha um absurdo eu ter que lutar para isso? Achando isso um absurdo, você vai fazer o que? Se você não faz nada e mantém tudo como está, fica a constatação: você é racista 
lorem-ipsum-dolor-sit-amet-consectetur-1-1024x768

Não somos rivais, somos a revolução!

Quase sempre quando uma mulher se manifesta publicamente com afinco defendendo sua posição política, seja de direita ou de esquerda, é comum surgirem vários comentários desqualificando a mulher de maneira machista.

Nesse período em que a conjuntura tem mudado de maneira tão acelerada, muitas militantes têm surgido nas redes sociais expondo suas opiniões e muitas outras são gravadas em atos quando fazem discursos inflamados.

Precisamos ter maturidade para compreender que não temos todas, o mesmo projeto de sociedade. Que nem todas têm a mesma visão de mundo. Que a uniformidade de pensamento inclusive se aproxima mais da ditadura que da democracia.

Podemos discordar do entendimento político de qualquer pessoa, podemos manifestar em quais pontos temos divergência na análise, podemos e devemos marcar posição. O que não podemos é adjetivar a opositora como louca, esquizofrênica, perturbada, vaca, vadia, FDP, burra, mal amada, mal comida, ou qualquer outro termo pejorativo que só demonstra como o machismo está impregnado na sociedade e na hora do descontentamento aflora e agride as mulheres sem nem ter vergonha. Além disso, é uma tremenda manifestação de ignorância e desrespeito ao debate de saúde mental.

Há algum tempo atrás era comum nas redes sociais a postagem “Defina a fulana com uma palavra”. Eu fiquei profundamente indignada e com vergonha alheia pelos absurdos que as pessoas eram capazes de escrever sobre uma mulher, só para mostrar nas redes o quão se opunham as suas idéias.

É hipocrisia se dizer feminista, machista em desconstrução ou homem solidário ao feminismo, quando você reproduz o machismo nas mulheres consideradas opositoras na política ou em qualquer outro campo. Vamos exercer a coerência?

Nosso vocabulário é tão rico. Querendo demonstrar desacordo que tal esses adjetivos: Pelega, fascista, coxinha, direitosa, burguesa, antidemocrática, fundamentalista, insuportável, intolerante, opressora, racista, lgbtfóbica, entre outros…

O feminismo é para libertar TODAS as mulheres. A palavra TODAS não admite exceção.

Seguiremos em marcha até que TODAS sejamos livres

Queridas pessoas brancas

Muitas entidades, partidos e movimentos de esquerda levantam a bandeira do antirracismo. Muitas dizem que tem o combate ao machismo, ao racismo e à lgbtfobia como princípio. Mas como isso se manifesta na prática? Essas organizações antirracistas muitas vezes não se preocupam nem de forma aparente com essa pauta como, por exemplo, garantindo a presença de negros e negras em mesas de debate. Chamam negros e negras para tratar de assuntos da negritude somente, sem considerar que sabemos também falar da conjuntura, de economia, de relações internacionais, de finanças, de saúde, de educação, de segurança pública, de democracia, e de tantos outros temas para além de nossas pautas específicas.

Eu costumo dizer que a branquitude coloca nossa militância numa caixa. Só abrem a caixa quando precisam de nós para falar de tema que nós temos por óbvio o “lugar de fala”. Para além disso a caixa fica fechada.

E quando sofremos racismo? A expectativa é que os negros e negras nos oraganizemos, e eles, os brancos e brancas, nem precisem se manifestar. Dizem que não se sentem confortáveis em falar sobre o tema por serem brancos e brancas. Como se não fossem os brancos e as brancas os praticantes do racismo. Na visão dessas pessoas a luta contra o racismo é pauta nossa. Quero aqui avisar que o racismo é problema da sociedade. Nós combatemos e denunciamos por sofrermos na pele, porém vocês, queridas pessoas brancas, tem o dever de não praticar e de não pactuar com práticas racistas.

Para não praticar racismo, os não negros precisam conhecer quais práticas e discursos são racistas. A grande questão é que somente aprenderão isso nos ouvindo, indo em nossos atos, lendo nossos textos, e não compactuando com o racismo quando perceberem a situação em curso. Estão dispostos a nos ouvir? Ou a justiça que deve resolver?

A forma de não pactuar não é cobrando atitude do negro, que muitas vezes se sente acuado em determinadas situações, a forma de não compactuar é você pessoa branca constranger o agressor dizendo “cara isso é racismo e eu não concordo. Pare já com isso.”

E sobre a famosa frase “não me sinto confortável por ser branco (a)” muitas vezes soa em meus ouvidos como desculpa para não se comprometer com a pauta. Como vocês acham que nós nos sentimos em espaços de maioria branca como movimento sindical, movimento feminista, partido político? Somos minorias nesses espaços e gritamos para ser ouvidos. Não nos escondemos atrás da falácia do desconforto. O mundo é desconfortável para nós desde que nascemos pretas, e isso não é desculpa para fugirmos da luta, pelo contrário, nos impulsiona.

A omissão nas pautas de negros e negras é também uma forma de racismo e de invisibilizar as nossas lutas. Não nos responsabilizem exclusivamente pelo combate ao racismo. Não nos aprisionem especificamente numa pauta. Não se ausentem do combate ao racismo. Reconheçam os privilégios que tem por serem brancos e brancas e usem para nos defender quando for o caso.

Será que examinando sua consciência você, pessoa de pele clara, tem de fato por princípio o antirracismo? Atos de negros e negras é prioridade como atos de conjuntura? Você sofre com um jovem branco que apanha da polícia em manifestação da mesma maneira como sofre pelo genocídio da juventude negra?

Fica a reflexão e o constrangimento

 

DA UNIDADE VAI NASCER A NOVIDADE

O Ato do Dia Internacional da Mulher em Curitiba deste ano foi histórico. Isso só foi possível pela união de mais de 45 movimentos e coletivos feministas e de mulheres que se reuniram mais de 15 vezes para traçar as estratégias, dividir responsabilidade e compartilhar o protagonismo.
Nos anos anteriores também organizávamos este ato com diversos movimentos, porém as diferentes leituras de conjuntura fazia com que houvesse acirramentos e pouca mobilização. O caminhão de som se trnsformava em um palanque para disputas de análises e versões da política econômica que em nada agregava mulheres à luta feminista. A preocupação maior era ter a melhor narrativa da conjuntura e interagir com as mulheres do percurso da marcha ficava em segundo plano. As minorias (Mulheres Negras, Indígenas, do Campo) precisavam elevar o tom para ter seu espaço garantido para trazer suas pautas da vida real. É claro que esse era o comportamento dos grupos mais radicais, tem muitas companheiras que de fato organizam o movimento em prol das mulheres e não de seus interesses eleitorais. Ainda bem que as guerreiras valorosas do movimento são a maioria, porém a disputa no caminhão sempre ganha maior repercussão e destaque nas avaliações.
Como isso mudou? A unidade dos movimentos feministas aqui no Paraná, que culminou no oito de março 2017, foi inevitável com o desenrolar da conjuntura. As questões político-partidárias sempre trouxeram entraves na unificação dos diversos movimentos, mas o avanço da direita e o retrocesso nas pautas das mulheres com o conservadorismo da bancada evangélica e com o golpe, fez com que o discurso fosse afinado entre todas nós para barrar a perda de nossos direitos.
Conforme escrevi em “Conjuntura, Fora Cunha e Grelo Duro” desde a declaração do Eduardo Cunha (PMDB) em 2015, na época presidente da Câmara dos Deputados, onde ele disse: “aborto só vai a votação se passar pelo meu cadáver”, nós mulheres fomos para as ruas exigindo que ele saísse do cargo. Ele engavetou a pauta da descriminalização do aborto e na sequência, quase como uma afronta aos movimentos feministas, ele reapresentou o PL5069/13 que dificulta procedimentos de atenção à saúde importantes para vítimas de violência sexual. Nessa época também ganhou grande proporção os ataques misóginos contra a Presidenta Dilma. Desde adesivos chamando/comparando a presidenta a uma vaca, até alusões ao estupro.
Os movimentos mistos pouco deram atenção as palavras de ordem das mulheres pedindo FORA CUNHA. Não se ligaram que a misoginia revelava o fascismo do cunha e diziam que isso “era assunto dos coletivos de mulheres”, “As mulheres estão tirando o foco da luta contra o golpe”. Ouvimos tanta bobagem, quando na verdade se os homens valorizassem nossa militância a história poderia ter sido outra.
Neste momento nos unimos para mostrar para a bancada evangélica que não aceitamos e não aceitaremos retroceder em direitos, nos unimos para mostrar para os esquerdomachos de nossas organizações que as bandeiras de lutas das mulheres não são assuntos menores e não aceitamos ser invisibilizadas.
Quando o Cunha foi preso os esquerdomachos disseram categoricamente para as mulheres não comemorarem, “é tudo cortina de fumaça para prender o Lula”, “Não podemos comemorar nenhuma ação da Lava Jato”. Já denunciávamos o Cunha antes do Moro. Isso é silenciamento de uma luta. Mas pedir para as mulheres utilizarem o ato do oito de março para fazer defesa do Lula, isso foi feito sem nenhum pudor. Pedir para deixarmos nossos acordos com diversos movimentos de lado, para acirrar ainda mais a disputa pelo microfone do ato, para acabar com a sororidade, isso pode, comemorar a prisão do misógino do Cunha, isso não pode. Não engoli e me manifestei contrária, a consequência é que até hoje sou olhada de maneira torta por muito militante que hierarquiza a luta, inclusive mulheres.
Simone de Beauvoir alertou: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” O que eu não sabia é que isso também cabia para os espaços mistos da esquerda.
Veio o golpe, assumiu o ilegítimo. Desde a composição de seu ministério ele mostrou qual seria seu compromisso com as pautas das mulheres. A decisão de acabar com o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos e transferir a dotação orçamentária para a presidência da república, revela sua falta de interesse em minorias de direitos. Mais uma vez tomamos as ruas em solidariedade a Presidenta Dilma, pois o golpe foi permeado de machismo, e também pedindo o FORA TEMER.
As mulheres se uniram. Inclusive a união entre mulheres através da sororidade, supera o acordo das lideranças de movimentos em frentes de lutas. O oito de março deste ano foi incrível. Houve divisão de responsabilidades na construção da atividade e na organização no dia do ato cada uma cumpriu sua tarefa. É claro que como qualquer ato tivemos dificuldades, mas o resultado foi ótimo. Tivemos várias gerações de mulheres, várias orientações, mulheres cis e trans, várias etnias e raças. Essa mistura trouxe tanto aprendizado, tanta troca de experiência… Saí com a sensação de que é possível unidade na esquerda se ao invés das lideranças egocêntricas se unirem para disputar protagonismo e hegemonia, isso fosse construído através da SORORIDADE, ou seja, protagonizado pelas mulheres e com verdadeira democracia. Será que vão deixar? Será que irão perguntar para nós, mulheres, como fizemos dar certo esse ato quando forem fazer os seus, ou será que considerarão que esse é o nosso único espaço? Será que nos chamarão para reuniões? Será que irão valorizar nossa militância? Ou será que continuarão nos invisibilizando e nos olhando de canto quando pedirmos fala?
Para aqueles e aquelas que lerão esse texto e ficarão incomodados, e me olharão ainda mais torto do que já olham, deixo para a reflexão as palavras de Audre Lorde: “Eu não posso escolher entre as frentes em que eu devo batalhar essas forças da discriminação, onde quer que elas apareçam pra me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não durará muito para que depois eles apareçam pra destruir você.”
Viva a luta das mulheres

A quem pertence a minha cultura?

Há uma imensa dificuldade de fazer com que uma pessoa branca entenda que está sendo racista. Até assumem que são machistas, alguns em desconstrução, até assumem que não gostam de LGBTI, mas racista nunca, até porque isso é crime. Se algum negro ou negra denuncia racismo na fala ou atitude de uma pessoa branca, o mais comum é ouvir que você a persegue, que você é radical, que você é barraqueira, que adora uma treta, que você nem é tão negra assim, que isso é racismo reverso.
Vou tentar ser o mais didática possível para elucidar alguns conceitos e desfazer equívocos. Por isso já aviso que o texto será longo.
ALERTA 1: Pessoas brancas não se sintam ofendidas quando um negro ou uma negra aponta seu racismo. O ofendido foi o negro ou negra e não você. Sinta-se com vergonha, peça desculpas e não cometa mais esse erro. A sociedade que estamos inseridos nos cria racistas, então reconheça o erro sem tentar elaborar uma justificativa requintada para isso. Reconhecer o erro, desculpar-se e não mais repetir é o mínimo que alguém que se beneficiou com o processo histórico da escravização dos negros deve fazer. E aceite, se você é branco, mesmo não sendo responsável pela escravização, você foi beneficiado com por ela.
ALERTA 2: Quando uma pessoa branca sofre algum tipo de agressão verbal relacionada à sua cor, ela não pode dizer que sofreu “racismo reverso”. O racismo é fruto de um mito criado sobre a inferioridade de pessoas com o fenótipo negro, atribuindo diversas características negativas (gente amaldiçoada, sem alma, ser humano inferior, suja, violenta, cabelo duro e ruim, cor do pecado e etc), sustentadas pelas elites sociais em todas as épocas da história da humanidade. A pessoa branca nesse caso sofre preconceito, discriminação ou injúria racial, que está relacionada a ofensas contra a honra da vítima, independente de seu fenótipo. Racismo é um crime histórico criado pelo ódio à etnia negra e que matou e continua a matar milhares de pessoas negras em todo o mundo.
Tendo explicado que “racismo reverso” é um termo equivocado, gostaria de tratar de outro tema que também gera bastante confusão: Apropriação Cultural
ALERTA 3: O intercâmbio cultural ocorre quando há troca de vivência e informação cultural entre pessoas de povos diferentes. Porém só acontece troca quando não há relação de subordinação de um sobre o outro. Não há relação de troca cultural quando um povo é escravizado por outro que se julga superior. Troca e apropriação são palavras com diferenças tão obvias que nem precisaria explicar, mas pelo visto se faz necessário.
Por tanto a apropriação cultural acontece quando elementos de uma cultura dominada são adotados pelo dominador e esvaziado de seu significado, que pode ser desde uso de acessórios e roupas, a exploração de símbolos religiosos, até sequestro de tradições e de manifestações artísticas.
De forma sintética:

  • Um povo domina outro e determina que o dominado é culturalmente inferior
  • A sociedade dominadora aceita a ideia e passa a discriminar as pessoas e a cultura dominada
  • A cultura minoritária é obrigada a abandonar seus elementos para se adaptar aos elementos dados pela cultura majoritária
  • Quando o mercado consumidor precisa de renovação, o dominador busca elementos “exóticos” do dominado, ressignifica e capitaliza com a justificativa que não há mais diferença entre os povos pela miscigenação.

O detalhe é que quando a cultura dominada usa o elemento de sua cultura, ele ainda é visto com olhar de inferioridade, misticismo selvagem, como algo negativo, racismo mesmo. Quando o dominador usa, é visto como exótico e muitas vezes eles chegam ao disparate de acreditar que estão sendo solidários por popularizar um artigo cultural que é visto por alguns dominadores como algo que deva gerar medo. Chegam a pensar que estão rompendo com o preconceito, quando na verdade estão esvaziando de significado em nome da moda.
Como podem pensar que tomar um elemento cultural de outro povo porque achou “legal” pode simbolizar respeito?
Geralmente quando uma mulher negra usa turbante em ambiente público ela é rapidamente identificada como “macumbeira”, que no senso comum é visto como algo ruim, uma religião demoníaca, que conversa com mortos e incorpora entidades para fazer o mal ou prever o futuro. Ignorância imensurável, intolerância inadmissível. Racismo e estupidez. Infelizmente é comum serem hostilizadas na rua por cristãos fundamentalistas.
Quando uma pessoa branca utiliza o mesmo turbante, é visto como um acessório para o cabelo e a discussão geralmente é sobre a cor do turbante, a estampa, o tipo de pano, como fazer a amarração ou se colocou o turbante por preguiça de arrumar o cabelo (aff).
O que os brancos muitas vezes desconsideram, é que o turbante é um ornamento de símbolo religioso em várias culturas, inclusive na afro. Ele evidenciava a ligação dos negros escravizados com seus costumes originais e representava a resistência e ancestralidade. Não é um mero enfeite.
Outro exemplo de apropriação cultural é o uso de dread. O termo dreadlocks – que significa algo como tranças/cachos abomináveis – foi cunhado por colonizadores ingleses que enfrentaram um exército de jamaicanos “panafricanistas” que prometeram não cortar mais seus cabelos até que toda a negritude em Diáspora pudesse retornar ao continente-mãe. Em outras palavras, “penteados” podem possuir todo um histórico político que se descaracteriza quando uma pessoa (branca) o implanta na sua cabeça porque quer ser “alternativo”
É claro que quando culturas diferentes se misturam é inevitável que uma afete a outra. Podemos ver isso na culinária e música brasileira que são fortemente influenciadas pela cultura afro. Porém no Brasil somente um lado foi beneficiado e não foi o dos negros e negras.
Para nós negras e negros da diáspora, o uso dos elementos culturais da nossa ancestralidade é ato de resistência. Alguns tem significado religioso, fazem parte de cerimônias e ritos. Devem ser respeitados. Não são adereços da moda.
OBSERVAÇÃO: Os brancos de religiões de matizes africanas sabem do significado e usam os elementos com a devida deferência.
ALERTA 4: Por que ao invés de se apropriar dos elementos de nossa cultura, os brancos não encampam a luta contra o fim do genocídio da juventude negra? Porque não defendem a equiparação salarial entre negros e brancos; entre homens e mulheres? Porque não pautam o fim do racismo institucional? Porque não contribuem divulgando dados sobre a violência obstétrica que as mulheres negras sofrem? Porque não param de nos julgar como menos qualificadas pela nossa cor? Porque não discursam contra a hiperssexualização do corpo da mulher negra? Sobre a polícia que prende e mata negros porque “confundiram” com bandidos?
“Tá na moda ser negro. Desde que você não seja negro.” (Willow Smith)
ALERTA 5: Ainda assim, depois de ler esse texto, terá aquela que virá perguntar, “eu branca, que luto contra o racismo, posso usar turbante, posso usar trança nagô, posso fazer dread? Eu sei o significado e respeito, posso” Ah pessoa branca… não será de mim que você ganhará essa autorização

violencia-do-opressor