Oito de Março – Dia Internacional da Mulher. Você sabe porque?

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Fechar Ruas para Abrir Mentes

Eu nunca cuidei dos pobres, a primeira vez que eu carreguei um pobre no meu carro eu vomitei por causa do cheiro” (Rafael Greca – Prefeito de Curitiba)

A experiência de se aproximar de uma pessoa pobre deve ter sido tão traumática para o Greca que foi a primeira vez e possivelmente a última.

No primeiro mês do seu mandato o Prefeito fez uma ação simbólica de lavar o calçadão da Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba. Usou do expediente da limpeza das áreas públicas para realizar uma camuflada varredura social. Foi um processo de expulsão do moradores de rua travestida de urbanização. Afinal a pobreza causa ânsia.

As medidas bizarras não pararam por aí. Com a justificativa de proteger os jovens “dos mercadores do mal e da morte” o Prefeito botou em ação o Programa “Balada Protegida”. A operação ocorreu em bares e casas noturnas da Rua Vicente Machado, (rua onde o prefeito mora) e no terminal Guadalupe, onde chegam os moradores da região metropolitana. O recado da Operação era nítido, não venha da periferia para se divertir na minha varanda. O que ele não esperava era que além de abordar periféricos, a polícia civil e militar constrangeu também os filhos da classe média. Em pouco tempo a operação minguou.

Com base nesses antecedentes, que atitude esperar de uma prefeitura higienista em uma situação de alagamento na favela?

enchente

A resposta é: negligência. Neste sábado, 03 de março, as favelas do Parolin, Sabará, Ganchinho e Vila Torres alagaram com as fortes chuvas. O descaso com a urbanização das favelas é tamanho que poucos minutos de chuva foram o suficiente para alagar ruas, casas e causar grandes prejuízos para moradores destas regiões.

A prefeitura não menciona qual a providência tomada para amparar as famílias desabrigadas que foram para casa de parentes, amigos e igrejas. Ao invés disso apresenta a ação emergencial de atendimento às vítimas como caridade.

Doação Parolim

Greca publicou nas redes sociais um agradecimento aos “valorosos funcionários municipais que aliviaram nossa angústia de bem servir: tomaram o sofrimento do povo nos ombros, entraram nas águas – sem medo do risco de leptospirose -, resgataram pessoas, levando idosos e crianças no colo.” Até porque quando o ato é de heroísmo porque se preocupar com a saúde do trabalhador né?

Diante do descaso do governante os movimentos sociais montaram postos de coletas de doação para ajudar as famílias a se reerguerem. Enquanto isso a prefeitura divulga que “Graças ao programa de macrodrenagem que está sendo feito na cidade de Curitiba, os danos causados pela chuva no sábado não foram maiores.” Mais uma tentativa de invisibilizar a realidade das favelas. Mais uma tentativa de manter a imagem de Curitiba como a “Capital europeia” (livre de pobreza).

Tem muita gente que não sabe, mas segundo o Censo do IBGE de 2010, Curitiba possui 223 favelas composta em sua maioria por mulheres. Na época eram 82.368 mulheres para 80.311 homens. A maioria de mulheres é reflexo do encarceramento e extermínio/genocídio dos homens negros, pobres e periféricos.

Favela Curitiba 2

Essa situação de desamparo social aliado à retirada de direitos através das reformas trabalhista e da previdência propostas pelo planalto gerou uma inevitável indignação coletiva na população das favelas. A resposta veio no trancaço realizado na noite de 05 de março com nove bloqueios feitos nas ruas Lamenha Lins e Brigadeiro Franco, onde a população protestava contra a falta de infraestrutura nas favelas, contra o prefeito e contra as reformas.

Isso é desobediência civil. Isso é enfrentamento. Isso é coragem de lutar com raça e mostrar para os governantes que a favela não aceita a invisibilidade imposta por essa gestão. Essa luta precisa do apoio de todos. Não podemos permitir a narrativa de criminalização e consequente resposta violenta da segurança pública. Também não podemos ir para o outro extremo e romantizar a pobreza com a elevação do “eu só quero é ser feliz e andar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar de ter a consciência que o pobre tem seu lugar”. Não podemos nos acomodar com um “lugar” (longe do centro) para o pobre.

Trancaço 2

Temos que reforçar o discurso de que a pobreza é resultado de um sistema econômico que explora uns para enriquecer outros. Temos que divulgar que a expressão dos números do IBGE, mostrando a favela com maioria de mulheres e em especial de mulheres negras, evidencia a relação de opressão entre gênero, raça e classe. Temos que fazer a análise de que além da luta imediata pela sobrevivência a meta tem que ser uma reestruturação desta sociedade com a superação do capitalismo. E temos que ir para a luta.

E aí? Vamos sair da frente do computador e nos somar com a periferia para tomarmos as ruas ou vamos ficar só no campo da crítica?

A proposta é: Fechar Ruas para Abrir Mentes

(Fotos de Raíssa Melo)

 

 

Pantera Negra: a importância da representatividade [ATENÇÃO, ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS]

Assisti ao filme Pantera Negra no dia do Lançamento nos cinemas. Confesso que estava com um grau de expectativa imenso. Ver os cartazes promocionais com tantos personagens Negros e Negras me fazia arrepiar, nunca vi algo assim sem o tema ser o sofrimento do povo preto. Não me decepcionei. O filme é tão denso, com tantas mensagens que vou falar aqui só da primeira fase do filme onde o universo do herói é contextualizado.
O filme começa com a criação de Wakanda, fato absolutamente necessário para o enredo, visto que esta terra já tinha sido mencionada em filmes anteriores deste universo por conta do Vibranium (metal presente no escudo do Capitão América) e também para apresentar a origem do herói, apesar de não ser este o objetivo do filme.
A origem do país remete há mais de 10.000 anos quando acontece a queda de um meteoro na região. Bashenga, o líder de uma das cinco tribos que viviam ali, explorou o local da queda do meteoro e descobriu que aquela pedra vinda dos céus era feita de um mineral nunca antes visto por ali. Era vibranium, o metal mais raro do planeta. As pessoas da tribo de Bashenga passaram a usar o novo metal na confecção de suas armas. Entretanto, o metal também emitia uma radiação única, que transformou alguns dos membros da tribo em monstros fora de controle. Bashenga então orou para sua deusa pedindo forças para conter aquela guerra. A Deusa egípcia Bast, ajudou Bashenga ensinando-o um ritual de preparo da erva coração para que ele se transformasse no primeiro “Pantera Negra”. Assim ele conseguiu fazer uma aliança entre as tribos, derrotar os monstros e fundar Wakanda. Esta cena inicial marca a importância da conexão destes povos com a sua ancestralidade.
Mesmo o filme repetindo o tradicional enredo, onde somente os homens podem ascender ao trono, o poder do “Pantera Negra” vem da Deusa egípcia Bast.
Só para reforçar: estou falando de um filme protagonizado por um herói negro africano, nascido e criado no seu país de origem. Um país que, sem a presença de um colonizador, cresceu e prosperou com suas riquezas naturais, conectado a sua ancestralidade, onde uma Divindade Feminina confere os poderes de Pantera Negra ao Rei que tem por responsabilidade proteger seu povo e manter a aliança com as tribos. Estamos debatendo aqui a soberania dos povos. Só isso já é incrível, mas vamos além.
Após este preâmbulo o filme chega na década de 90, em Oakland, no Estado da Califórnia, onde o Rei T’Chaka cobra explicações de seu irmão N’Jobu, sobre o seu envolvimento em uma traição a sua terra natal. Este local não é escolhido por acaso. A cidade além de ser terra natal do diretor do filme Ryan Coogler, é o berço do movimento político conhecido como os Panteras Negras, que lutou pelos direitos civis dos negros nos EUA.

A chegada do Rei é precedida por duas guerreiras. Quando vi esta parte fiquei preocupada. A aparição de mulheres negras com lanças pareceu muito caricato. Além disso, de imediato me identifiquei com o suposto traidor, irmão do Rei. Ele foi para aquele país com a missão de ser um espião, porém vendo o sofrimento dos irmãos negros e negras, por conta das raízes profundas de racismo que a escravização deixou pelo mundo, passou a acreditar que Wakanda deveria compartilhar seu avanço tecnológico com os negros e negras marginalizados.

O povo de Wakanda desenvolveu alta tecnologia a partir do Vibranium. Para manter a sua riqueza natural longe da exploração capitalista, o país permanece escondido utilizando hologramas para camuflar as imagens de satélite que somente registram floresta e savana. Além disso, vários espiões de Wakanda, chamados “cães de guerra” estão espalhados pelo mundo onde ficam atentos a tudo que possa revelar a verdade sobre o país.

A idéia de N’Jobu se revela cruel quando ele diz que os negros e negras precisam da tecnologia de Wakanda para o desenvolvimento de armas que possam matar os seus opressores. O Rei não concorda por dois motivos. Primeiro por acreditar que se o mundo tiver conhecimento dos avanços tecnológicos de sua terra outras nações iriam invadir para tentar dominar o Vibranium, segundo porque o Rei não queria começar uma guerra racial. Com o desdobramento da discussão o Rei mata seu irmão e deixa abandonado o filho dele Ekik Killmonger.

A saga chega então no presente onde recém ocorreu a morte do Rei T’Chaka em um atentado, conforme visto em Os Vingadores: Guerra Civil. O filme apresenta duas personagens importantes no enredo, a guerreira Okoye e a Cão de Guerra Nakia. Okoye é a líder do Dora Milaje, guarda real de Wakanda. Na cena em questão ela acompanha o príncipe T’Challa que está indo convidar Nakia para a cerimônia fúnebre de seu pai e na seqüência sua coroação. Nakia é uma espiã (estilo 007) que estava disfarçada em uma missão secreta para acabar com o comércio de escravos em um país da África.  Ao saber das notícias atende o chamado, mas não sem antes, com ajuda do príncipe e de Okoye, libertar os escravos.

Acontece então a cerimônia onde as tribos escolhem o novo Rei. Todas as tribos podem indicar um homem para batalhar pelo trono. Nesse momento vemos que apesar do Rei de Wakanda ser necessariamente um homem, as cinco tribos tem monarcas homens ou mulheres. M’Baku, monarca da tribo que se mantém isolada das outras quatro, desafia o príncipe. Nos quadrinhos M’Baku é chamado Homem Gorila, alcunha que o filme optou por não usar e assim evitar interpretações inadequadas. Como esperado, porém com certa dificuldade, T’Challa vence o combate e torna-se o novo Rei.

Lembra que no início fiquei preocupada com a caricatura de guerreira africana com lança tribal que apareceu meio sem explicação? No instante seguinte o encantamento com a força da personagem Okoye é inevitável. As mulheres deste filme são incríveis. Achei inclusive o arco das personagens femininas melhor do que o arco do herói que seguiu bastante previsível.

Paro aqui, na coroação do Rei T”Challa como Pantera Negra. Nesse momento, onde o enredo principal nem sequer tinha se desenrolado. Nessa primeira parte do filme, onde ocorre a contextualização do universo em que o herói está inserido, é abordado, com mais ou menos ênfase, questões como a conexão com a ancestralidade, a soberania dos povos, o poder das mulheres negras, a exploração capitalista, racismo, marginalização do povo preto, escravização nos dias atuais e a necessidade de aliar o avanço tecnológico com sustentabilidade ambiental.

Isso tudo em 15 minutos de filme!!!

O que é um filme começar mostrando o tráfico de mulheres negras e não chegar um branco salvador? O que é a coroação de um Rei feito por um Xamã sem nenhuma, nenhuma mesmo, referencia ao cristianismo? O que é mostrar o desenvolvimento de um país africano baseado em suas riquezas naturais sem a interferência de um povo colonizador? O que é a autonomia e poder das mulheres neste filme? O que é a utilização da tecnologia com a finalidade de melhorar o mundo e não para invadir e conquistar? O que é uma guarda real composta exclusivamente por mulheres guerreiras sem que na trama nenhuma delas tenha um drama sentimental? O que é o respeito imenso por uma mulher jovem negra absolutamente inteligente que domina e desenvolve novas tecnologias? Ao mesmo tempo, o que é o respeito pelos anciãos e anciãs que tem por função aconselhar o Rei? O que é a homenagem, nada discreta, ao movimento Pantera Negra?

Minha cabeça explodiu já nos primeiros 15 minutos. Quer saber mais? Corre e vai assistir o filme

Para aqueles que como eu são fãs de HQ, relembro que tempos mais tarde o Pantera Negra conhece Ororo Munroe (Tempestade) que estava indo para o Quênia conhecer a tribo de seus ancestrais e eles se apaixonam e se casam. Porém sabemos que nos filmes da Marvel não há conexão entre o universo de Os Vigadores e X-men. Infelizmente

No Carnaval, Pega a visão

O Carnaval no Brasil é uma festa popular realizada durante 05 dias desde 1892, antecedendo o início do período da quaresma católica. É constituído por blocos de carnaval, bailes de fantasia, festas de rua e caracterizado pela irreverência.

O costume de usarmos fantasias no Carnaval vem da Grécia, Roma e Egito Antigo, quando as máscaras eram utilizadas para misturar o respeito da então festa religiosa com a diversão de reunir diversas pessoas. Tempos depois, na cidade de Veneza, na Itália, os mais ricos se fantasiavam para poder ir disfarçados nos bailes nas comunidades mais pobres, considerados os mais animados.

No Brasil, as fantasias evoluíram com o passar do tempo. As roupas servem para que possamos nos divertir ao nos passarmos por outros seres, seja um super-herói, uma princesa, seres mitológicos, personagens de filmes e desenhos ou um animal. O grande objetivo é que todos possam se reunir com alegria, deixando de lado qualquer tipo de preconceito e utilizando adereços para se camuflarem com criatividade no meio da multidão.

Porém algumas fantasias de Carnaval perderam o objetivo da irreverência e passaram a retratar o ódio de classe, o machismo e o racismo. Fantasias como Black Face, Empregada doméstica, Homem vestido de mulher, Indígena, ou Iemanjá além de serem machistas, preconceituosas se apropriam de culturas de povos e religiões marginalizadas.

O Black Face ou Nega Maluca ridiculariza as mulheres negras com evidente manifestação de apropriação cultural e racismo. O Black face surgiu por volta de 1830, quando homens brancos se pintavam de preto (de forma caricata) e se apresentavam para a aristocracia branca com o objetivo de satirizar a população negra, e demonstrar os negros e negras como burros, fortes, hiperssexualizados e primitivos.

A fantasia de Empregada Doméstica, na maioria das vezes de forma erotizada, evidencia as relações de poder e o machismo. Em geral na interpretação desta fantasia a empregada precisa satisfazer os desejos do seu patrão, naturalizando o assédio sexual, a cultura do estupro, o ódio de classe e também o racismo visto que é uma profissão desempenhada por maioria negra.

Homens vestidos de mulher no carnaval reproduzem o comportamento imposto pelo patriarcado como papel feminino. Além de ser machista e desrespeitoso é preconceituoso contra as trans e reforça os estereótipos de gênero. Em geral os homens imitam mulheres como frágeis, gostosonas e que dizem ‘não’ somente para fazer doce. É um desserviço a luta feminista que desconstrói a imagem da mulher como fraca, que defende todas as formas de corpo e afirma que Não é Não!

A população indígena passou por um genocídio. Sua cultura e seu direito a terra ainda hoje é atacado pelo capital. Ao usar roupas indígenas e imitá-los como povos selvagens desconsiderando sua luta pela sobrevivência como nação, fica evidente o preconceito e apropriação cultural.

Fantasiar-se de uma divindade é desrespeitoso para qualquer cultura. Fica ainda pior quando se tratam de religiões que já sofrem com a intolerância. A fantasia de Iemanjá é um insulto. Ofender a fé e a sacralidade além de demonstrar a própria ignorância sustenta a mensagem equivocada de que algumas religiões são melhores do que outras.

A dica é: vamos nos divertir no carnaval, e muito! Sempre garantindo que não estejamos ofendendo ninguém. Vamos respeitar as manas, as monas, as minas, de todas as origens étnico-racial e social.

Somos um povo muito criativo e certamente podemos fazer fantasias que sejam divertidas e não agrida ninguém.

Que tal o desafio de fazer um carnaval livre do machismo, racismo e ódio de classe?

Pega a visão

 

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Ventriloquismo branco

Depois de tanto tempo de luta dos movimentos de negros e negras, a sociedade começou a achar racismo deselegante. Grande parte ainda não vê o racismo como algo grave, muito menos como sendo crime, parece mais uma gafe, um deslize que gera desconforto e, portanto melhor não fazê-lo de forma descarada.

Porém o racismo é um elemento estruturador da sociedade brasileira, e segue em constante atualização, ou seja, novas formas de manifestação são elaboradas dentro do que é socialmente aceito, inclusive dentro do campo progressista.

Além da apropriação do capitalismo da nossa cultura, seja nas vestes, na dança, na música, com intenção de obtenção de lucro e de minimizar a pauta, também temos que lidar com os privilégios da branquitude dentro dos espaços de militância.

Foram séculos onde os brancos e brancas falaram por nós, sem a nossa voz. Agora querem a nossa voz, porém falando por eles. Quando reivindicamos o lugar de fala para apresentarmos nossas lutas, para falarmos de como resistimos e de como nos assassinam, seja socialmente, seja através do racismo institucional, ou de forma direta através do aparato repressor do estado, nos chamam de “pós-modernos”. Quando exigimos que o discurso de classe seja imbricado com o debate de gênero e raça nos tratam como se estivéssemos queimando as obras de Karl Marx. Quando elevamos nossa voz para debater temas da política geral como economia, segurança pública, educação, saúde, democracia, reformas neoliberais, dizem que nossas palavras fortes e emotivas, conseqüência de sofrer na pele os impactos da mais valia e do conservadorismo,  banalizam o debate.

Ao mesmo tempo em que calam nosso protagonismo, querem utilizar nossa imagem para demonstrar como o grupo político é plural e democrático. Destacam negros e negras como imagens públicas. Mas fica nisso. Na imagem.

Já tive a decepção de participar de debates com negros na mesa que somente compunham o cenário.  Não tinham fala. Como não convidaram negros como palestrantes acharam que seria uma boa opção colocar um negro na mesa junto com o mediador. O mediador conduzia o debate e o negro/a era a “imagem da pluralidade”.

Diversas vezes me neguei a fazer falas públicas quando militantes chegam pedindo para que eu represente o movimento naquele espaço, mas que na minha fala eu diga isso, isso, isso e aquilo. Como se nós negros e negras fossemos a marionete e o branco o ventríloquo.

Alguns grupos políticos têm a preocupação de chamar negros e negras quando o assunto é racismo, geralmente em novembro, e só. Para outros temas tem os intelectuais da academia ou aquelas lideranças perpétuas que impedem a renovação geracional, todos brancos. Sobre isso, nos espaços auto-organizados que participo, reforço que independente do tema que nos propuserem temos de fazer todos nos ouvir falar sobre gênero, raça e classe. Não aceitamos que limitem nossa capacidade cognitiva. Façamos sempre limonada.

O mais interessante é que quando essas situações ocorrem, os brancos que a praticam acreditam que estão de fato visibilizando um negro. Não percebem o racismo cordial praticado. Não percebem que não abriram mão de nenhum privilégio e sim estão nos usando para melhorar a própria imagem ou de seu grupo. Será mesmo que não percebem estas manobras?

Juliana Borges afirma que para a branquitude, há um ideal de negro a ser aceito e imposto, e que se aprofunda em relação às mulheres negras, como um tipo passivo, incapaz intelectualmente e, como diria Beatriz Nascimento, “oligofrênico”, “mero objeto sexual”. Isto fica evidente, por exemplo, em ambientes autodenominados de esquerda e progressistas quando, sob qualquer protesto ou denúncia de negros em relação a um branco “apoiador”, pede-se que negros e negras sejam “compreensíveis”, “calmos” e, pior, educadores constantes daqueles e daquelas que vivem sob os privilégios de seu fenótipo como herdeiros de uma herança construída por estupros, usurpação, tortura, desumanização, escravização, assimilação e aculturação.

Para a esquerdobranquitude fica o lembrete:

Usar-nos como decoração para passar a idéia de representatividade é racismo.

Usar-nos como imagem pública do grupo político, porém com roteiro escrito por um branco iluminado, é racismo.

Limitar nossa capacidade de elaboração política a um único tema é racismo.

Já cometeu um destes atos? Não arranje desculpas mirabolantes para justificar. Aceite que cometeu um ato racista, se proponha a não mais fazê-lo e interferir quando percebê-lo em andamento.  Fora disto você seguirá contribuindo para o ciclo de atualização das formas de manifestação racista

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Entre Santa e Puta, escolhi ser Livre!

O debate recente sobre a polêmica do funk me fez perceber como a sexualidade da mulher ainda é sacralizada. Conforme explica Wanda Horta, o sexo é uma necessidade humana básica incluída dentre as necessidades fisiológicas tais como a fome, a sede, o sono, a excreção e o abrigo. Sendo uma necessidade fisiológica em organismos íntegros, o sexo precisa ser vivido para que tenhamos plenitude na satisfação das necessidades fisiológicas.

É claro que temos situações onde por questões físicas ou psicológicas o sexo deixa de ser uma necessidade. Não trato aqui desta situação. Nem tão pouco das pessoas que optam, pelo motivo que for, pela vivência da castidade.

Considerando que temos tranquilidade de conversar entre nós sobre a saciedade da fome, da sede, do sono, da excreção e da necessidade de abrigo, gostaria de ponderar sobre a interdição do debate sobre o sexo, ainda mais quando tratamos de mulheres.

No movimento feminista, o debate da sexualidade traz a contribuição de que o casal deve permitir que ambos sejam protagonistas na atividade sexual. Que o ato deve trazer prazer para todos os envolvidos, e para isso deve haver respeito às regras previamente consentidas. Temos palavras de ordem como “Meu corpo, minhas regras”, “Tenho direito de beijar quem eu quiser”, “Não, é Não”. Percebo, porém, que precisamos avançar no debate da sexualidade para além da permissibilidade.

Por que ainda é escandaloso uma mulher dançar transbordando sensualidade? Por que quando uma mulher se sente bem com o seu corpo e usa roupa transparente, decotada ou curta, ela ainda é julgada como se estivesse usando um subterfúgio para compensar algo (falta de talento, falta de competência, falta de inteligência)? Por que falar abertamente sobre a maneira como você se satisfaz sexualmente é um tabu? Porque ainda há quem diferencie as mulheres entre inteligentes e gostosas?

Fazendo estes questionamento percebi que há insegurança conceitual entre o que é viver a sexualidade versus mercantilização do corpo ou até mesmo confusão entre a liberdade dos corpos e a hiperssexualização.

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Chamamos de mercantilização do corpo a utilização do corpo como objeto consumível, seja de forma direta – através de troca monetária, para exclusiva satisfação física e/ou psicológica de outro – ou de forma indireta como é feita pela mídia. Recentemente uma peça publicitária de cerveja fazia a apresentação de seu produto em diversos tamanhos e recipientes. A garrafa de 600 ml se igualava ao volume do seio da modelo. A campanha não apresentou este produto visto que os seios da modelo eram suficientes para a demonstração do volume consumível. O mote da campanha era “Faça a sua escolha”. Neste caso a mulher não foi considerada sequer como possível consumidora, somente como produto de comparação, visto que a indústria da estética permite que o volume do seio seja também escolhido. Fica na subjetividade que o homem pode pagar pela cerveja assim como pelo seio no volume que preferir para sua satisfação, como se a ele o corpo da mulher pertencesse.

A hiperssexualização é um debate que precisa ser feito em conexão com a imposição de padrões de beleza. A beleza da mulher branca é tida como algo apreciável, algo que causa encantamento próximo ao angelical. A beleza normatizada é jovial, alta, magra, cabelos longos, olhos e pele clara sem imperfeições. A constante exposição de modelos que representam o que é considerado belo causa em grande parte das mulheres uma busca por um corpo que não é seu. Isso permite o crescimento de um mercado lucrativo que oferece a possibilidade de mudança física como caminho para a auto-estima.

O padrão de beleza determina uma única forma de corpo como aceito e a diversidade de formas como abominável e não saudável. É uma violência psicológica contra as mulheres. Muitas acreditam que só encontrarão ou manterão seu par, quando atenderem a expectativa de beleza imposta, ainda que a custa de sacrifício alimentar e intervenções cirúrgicas. A beleza neste caso, não é para satisfação pessoal e sim para atrair e manter o homem e rivalizar com outras mulheres.

Enquanto o padrão de beleza para a pele branca é associada ao divino, ao angelical, a pele negra é associada ao pecado, aos prazeres da carne. A estrutura racista do sistema capitalista enraizou na sociedade que os corpos negros são selvagens, viris e violentos. Servem como fetiches para serem abusados tanto para o trabalho braçal como para o sexo. Neste sentido as mulheres negras são consideradas atraentes, e não bonitas, de acordo com o apelo sexual do seu corpo. Isso é demonstrado fortemente na mídia com a representação da mulata globeleza: mulher negra de pele clara, seios e bunda farta, pele coberta de óleo (representando o suor do corpo negro trabalhador), que tem como única função entreter espectadores ávidos por curvas. Hiperssexualizar a mulher negra é excluir dela a condição humana e reduzi-la a objeto de satisfação sexual de outrem.

Formou-se assim no imaginário coletivo a ideia de que a mulher branca é para casar e apresentar socialmente como a cuidadora do lar, enquanto a mulher negra é para a diversão sexual masculina, o que inclusive corrobora com as estatísticas de estupro e feminicídio.

Em resumo, a mercantilização do corpo é uma estratégia do capital para utilização do corpo como objeto comercial passivo com potencial lucrativo, e a manutenção de padrões de beleza assim como a hiperssexualização são resultados de estereótipos construídos pelo patriarcado para solidificar o papel das mulheres, e para o deleite dos fetiches masculino.

Romper com estas formas de opressão é apresentar para as mulheres o conceito de autonomia sobre seus corpos e sua vida. É defender que a mulher pode ser sensual por estar bem resolvida com o seu corpo, independente do formato que ele tiver, e que exercer a sexualidade é permitir a vivência do que lhe proporciona prazer sem medo de julgamento moral.

Exercer a sexualidade é direito de todas nós, seja qual for a classe, o pertencimento étnico-racial ou a orientação sexual. É libertador utilizarmos nossos corpos da maneira como quisermos para dançar, cantar, vestir e transar. É transgressor as mulheres assumirem o protagonismo sexual dizendo ou cantando que gostam, sim, de sexo e de qual forma preferem, fugindo do papel sacralizado de rainha do lar para as brancas e de escrava sexual para as negras ou da categorização entre gostosa ou inteligente.

Utilizar o potencial erótico não significa fazer menos uso do intelecto, não significa ser fútil, assim como ser intelectual não significa ser frígida. Entre Santa ou puta, escolho ser LIVRE.

Porém para de fato sermos livres, não podemos somente ficar na disputa de pautas identitária. Precisamos manter em primeiro plano a luta contra o patriarcado, mas também contra o sistema capitalista que se alicerça na exploração através da mais-valia e utiliza o racismo e o sexismo como ferramenta para sua manutenção. O feminismo que acredito não é somente uma questão identitária, parte da compreensão de que é necessário superar o atual sistema econômico para alcançar a igualdade, e que para isso é necessário entender a relação entre gênero, raça e classe e intervir neste imbricamento de opressões.

Dito isto, tenhamos em mente que podemos exercer nossa sexualidade, dançar até o chão, usar roupa transparente/curta/decotada, falar sobre sexo e masturbação e inclusive fazer sexo (com proteção) livremente sem que isso seja mercantilizar ou hiperssexulizar o nosso corpo. O sexo é uma necessidade básica fisiológica do ser humano, assim sendo devemos falar sobre isso com naturalidade e não com falsos pudores.

Este malabarismo conceitual que pretende culpabilizar as mulheres pelo machismo dizendo que viver sua sexualide e seu potencial erótico é manter a cultura do estupro, parte da elite pudica e da classe média moralista que para manter seus privilégios não podem compactuar com o rompimento do status quo. Eles sim tem interesse em manter o monopólio da definição do que é arte, do que é comportamento aceitável e do que fere os princípios e bons costumes das famílias de bem. A classe dominante não pode nos convercer que a vivência da nossa liberdade justifica a misoginia. Não vamos nos permitir cair nas armadilhas do patriarcado.

Feminismo é Revolução, e como disse Emma Goldman, “se não posso dançar não é minha revolução”

 

 

 

 

Cultura pra quem?

“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

 Este trecho da música do Titãs retrata uma realidade conhecida, porém seletivamente ignorada, de um grupo social marginalizado que, além da restrição aquisitiva, tem negado o seu direito à cidade. Vivemos em uma sociedade que para manter a ordem do capital, segue uma política higienista que define quem tem direito a ocupar qual espaço. A consequência direta desta exclusão silenciosa é a determinação do “não lugar” de cada grupo social.

O “não lugar”, apesar de ser despercebido pela maioria de direitos, é percebido cotidianamente quando se é negro, pobre e favelado. Por vezes o “não lugar” vem de uma proibição direta de acesso, como por exemplos nos shoppings que não permitem a entrada de grupos de jovens de periferia, para o “rolezinho”. Outras vezes percebemos o nosso “não lugar” através de um segurança que nos segue pela loja, pela falta de atendimento no comercio, pelo olhar de desprezo relacionado as nossas roupas, gírias e manifestações.

Porém como diz a música, queremos também diversão e arte, e para isso o povo preto e pobre da favela, que tem muitas vezes seu acesso negado no asfalto, cria suas próprias oportunidades, seus ritmos, sua dança, seu estilo, sua cultura. Assim começam os bailes de favela.

Na década de 70 começaram a ser realizados bailes black, soul, shaft e funk no Rio de Janeiro. Com o tempo, os DJs foram buscando outros ritmos de música negra, e sua própria batida, mas o nome original permaneceu. O funk carioca tem uma influência direta do miami bass e do freestyle.

Os Mestres de Cerimônia, ou MC, escrevem suas letras com base na vivência da comunidade, com a linguagem da comunidade. Por isso ao escutar um funk, vale a pena tentar entender o seu contexto. Há letras que tratam da violência, da criminalidade, do analfabetismo político, do desrespeito à lei e de sexo. Não se pode esquecer que o funk nasce como manifestação de comunidades onde a violência é cotidiana, de uma realidade de exclusão social e repressão pelo aparato do estado. A associação da realidade transmitida nas letras do funk ao crime é determinada pela discriminação social que se tem com as favelas.

O funk fala de uma realidade que as elites não querem ouvir. Usam um vocabulário que não é politicamente correto. A dança livre de pudores sobre o corpo e sua sensualidade escandaliza pais preocupados. O baile unifica a comunidade, o bom e o mal.

Nos anos 90 e 2000 eu frequentei o baile funk no Rio de Janeiro. Primeiro nas matinês da Circus com banho de espuma, depois nos bailes de rua da Merck, no Country Club de Jacarepaguá na Praça Seca e no Castelo das Pedras. Tinha Lado A e Lado B, cada qual com facções rivais e por vezes tinha briga no baile. Porém os próprios MCs faziam letras pedindo que não houvesse enfrentamento dizendo “briga pra que?… pare e pense um pouco mais e violência aqui nunca mais. Massa funkeira não me leve a mal, venham com paz e amor curtir o festival”. Mas a maior briga era com a polícia que insistiam que frequentadores de baile funk eram bandidos e utilizavam de sua autoridade para interferir, em nome da lei e da ordem, como bem quisessem.

Por um bom tempo o baile foi proibido. Nesse período o funk de protesto ganhou força. “Diversão hoje em dia, nem pensar. Pois até lá nos bailes eles vem nos humilhar. Ficam lá na praça onde era tudo tão normal, agora virou moda à violência no local. Já não aguento mais essa onda de violência, só peço a autoridade um pouco mais de competência”

Muito disso se deve a defesa de que cultura é aquela que está nos museus, em artistas premiados, imposta pela classe dominante, cara e de difícil acesso. Para estes, música de verdade é aquela que se paga um valor exorbitante para ir em um show, portanto o baile de favela, o fluxo, não se enquadram neste quesito. Reconhecer como cultura o que vem do quarto de despejo, é reconhecer as desigualdades que ela esfrega na cara da sociedade, é reconhecer que o sistema em vigor explora e oprime. Isso não interessa a elite.

Além disso, a industrial musical somente queria propagar o funk que romantizava a pobreza, estigmatizando as demais manifestações como música de bandido ou hipersexualizada. Cobravam do funk a retratação do morro similar ao que a música caipira faz com a realidade do campo. O que não esperavam é que o funk não aceitasse ser domesticado.

No movimento cultural, principalmente musical, foi preciso muitas vezes que o próprio movimento se impusesse sobre as forças que lhe impediam de continuar a luta pela existência. O Rock foi rotulado por anos como música demoníaca feita para drogados com o lema “sexo, drogas em rock’ roll”. A trajetória do samba também teve criminalização e associação à malandragem. Essas simplificações levam ao preconceito e à perseguição.

Em 2013 a Comissão de Cultura da Câmara dos deputados caracterizou o ritmo como manifestação cultural, porém, no Rio de Janeiro o funk já é considerado patrimônio cultural desde 2009. Isso significa que o estilo musical é uma expressão característica brasileira e que o poder público tem o dever de preservá-la e garantir que ela se desenvolva.

Mesmo assim vimos manifestações de preconceito e desconhecimento quando a Anitta em carreira internacional retoma sua origem e grava um clipe de funk no morro do Vidigal. O fato de o clipe fazer um protesto contra a criminalização do funk, o fato dela ter valorizado as pessoas da comunidade para participação no clipe, de ter utilizado elementos do cotidiano local como o biquíni de fita isolante, o banho de sol na laje e a sandália Kiwi, o fato dela propagar a imagem do morro sem associar a favela ao tráfico e a bandidagem pouco importou diante da moral puritana ofendida da classe média.

Essa mesma classe média defende a liberdade sexual da mulher e o direito ao seu próprio corpo para produzir e reproduzir como quiser, para vestir e dançar como quiser, desde que não seja em um morro ao som de funk.

Para esta classe média hipócrita, repleta de falso moralismo, que se intitula detentora da verdadeira cultura musical, mando um beijinho no ombro para o recalque passar longe