Será que foi racismo?

O racismo cordial é definido como uma forma de discriminação contra pessoas não brancas que se caracteriza por uma polidez superficial que reveste atitudes e comportamentos discriminatórios, que se expressam nas relações interpessoais através de piadas, ditos populares e brincadeiras de cunho “racial”.
O Racismo está tão presente na nossa sociedade que muitas vezes ele é reproduzido em discursos sem que se tenha uma reflexão sobre o conteúdo que está sendo externando. As piadas sobre negros e negras, a polidez ao depreciar uma característica da negritude, a negação do negro como belo sugerindo mudanças estéticas, a determinação pelo comércio de que o negro tem baixo poder de compra e por isso a sugestão de produtos mais baratos, a atribuição do errado ao negro em nosso vocabulário, camufla comportamentos discriminatórios.
Como a afirmação do negro ser inferior biologicamente fracassou, o racismo buscou outra maneira de se manifestar, já que a forma direta, desde 1989, constitui-se como crime. O racismo cordial aparece de uma forma branda, sem alarde, sem violência explícita, por vezes através até de gestos discretos. Quando o negro ou a negra denuncia o crime, rapidamente os não-negros justificam como sendo um erro de comunicação, um exagero do ofendido que está condicionado a enxergar preconceito em tudo. Neste momento geralmente o agressor cita que tem um negro em sua família, e que não é racista, até porque “somos todos miscigenados”.
O racismo cordial é aquele que paulatinamente convence as adolescentes que seu cabelo alisado fica mais bonito do que crespo. É aquele que faz piadas constantes sobre lábios e nariz negróides. É aquele que faz a menina crescer na expectativa de ser a mulata gostosa e o menino de ter o pênis enorme.
O racismo cordial é aquele que destrói a autoestima dos negros e negras com doses homeopáticas de convencimento de que a estética do negro é feia, Só será considerado belo se for hiperssexualizado, de que a capacidade intelectual do negro é baixa, de que a expectativa de vida é curta, de que seu poder aquisitivo sempre será baixo, de que por diversas vezes ele será parado pela polícia para uma revista “de rotina”. 
Essa construção negativa, faz com que muitos negros e negras não reconheçam seu pertencimento étnico, visto que se identificar como negro é algo considerado ruim. Essa negação da própria imagem gera uma defesa do inexistente. A pessoa defende ser pertencente a uma etnia/raça que não existe, como por exemplo “não sou negra, sou morena/mulata/marrom-bombom/chocolate”.
Não querer ser quem se é por influência do racismo cordial, é viver em constante conflito e sofrimento. A sociedade enxerga a “morena” como negra e pratica o racismo com ela. Se ela, contudo, não se entende desta forma, não será capaz de denunciar o que sofre e sempre buscará justificativas como: foi apenas uma piada ou um erro de comunicação.
Muitas famílias não conversam sobre o tema. Há uma alienação consentida sobre auto-definição de raça/cor. Há um consenso social em torno da miscigenação que faz com que as pessoas acreditem individualmente que elas podem ser um meio termo entre branco e negro e isso o blinda do racismo. Essa construção é mentirosa e perversa.
Só conseguiremos ter empoderamento para reconhecer o racismo quando primeiro nos reconhecermos como negros e negras e deixarmos de ser café-com-leite. Quando entendermos que o esteriótipo negativo de nossa raça foi construído por brancos, e isso é um problema que eles precisam resolver, não nós. Quando sofremos com racismo, a atitude a ser tomada é fazer Boletim de Ocorrência e não mudar nosso corpo, nossas roupas, nossa fala, nossa vida para agradar o branco e sermos aceitos.
As famílias precisam conversar sobre isso. É muito triste ver e ouvir não-negros praticando o racismo cordial. Nos tratando como se fôssemos seres exóticos que precisam se adaptar. Da mesma forma é muito triste ver o impacto disso nos negros e negras, que por vezes chegam a negar seu pertencimento étnico e criar uma fantasia racial.
Vamos valorizar nossa história! Quem a maculou foram os não-negros. Somos forjados na luta e na resistência. Temos de ter orgulho de nossa ancestralidade, pois…
Nossos passos vem de longe
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