Ser negra é minha essência e não minha sentença

Será que você consegue imaginar o que é para uma criança entender que ela não é branca? É entender que você não será aceita neste mundo. Isso começa a acontecer quando você começa a ter contato com pessoas fora do teu círculo familiar e começa a ouvir que seu cabelo pode ser usado no lugar da esponja de aço, que iria ficar mais bonito se fosse liso, que seu nariz rouba oxigênio, que você tem que sambar porque ta no seu sangue de preta. Na escola você é a última a ser escolhida como par para dançar quadrilha nas festas juninas ou em qualquer situação que precise de um casal, nos passeios é comum ouvir a professora dizer que você nem precisa de filtro solar por ter a pele feita para trabalhar no sol, você é a última a ter a “melhor amiga”, você por vezes não é convidada para festas de aniversário, principalmente se for de um menino, porque ele não convida as feias. E você é a feia porque seu cabelo é feio, seu nariz é feio, seus lábios são feios, seu corpo é feio, sua pele é feia…
Na adolescência onde a busca por aceitação é constante, o impulso para mudar as características físicas é inevitável. Maquiagem para afinar nariz, chapinha e escovas no cabelo, a aceitação de que você é sensual e não bonita, o investimento em ser a melhor amiga da mais popular do grupo onde você está inserida (escola, igreja, bairro, esporte, etc), uma luta constante para ser aceita, que nem sempre tem sucesso. Provavelmente você será a última a dar o primeiro beijo e quando der, imediatamente será considerada a fácil, aquela que é para pegar e não para namorar.
É comum ouvir as amigas da sua mãe aconselhando ela a ter cuidado para não deixar a filha engravidar, afinal somos da cor do pecado. A filha branca dela é obvio que é virgem e assim se casará, mas as amigas adolescentes negras têm essa sensualidade natural que faz os meninos perderem a cabeça.
Nas ruas quase todas as mulheres ouvem assédios (cantadas) machistas, mas nós mulheres negras ouvimos com um alto teor de vulgaridade. Na noite em bares ou boates, é comum sermos abusadas com passadas de mão nas partes intimas, beijos forçados, encoxadas… Quando reclamamos dos abusos ouvimos que achavam que éramos prostitutas.
Nesse momento amigos teus começam a morrer. Alguns a família consegue provar que não eram bandidos, mas outros são assassinados por que resistiram à polícia. O famoso Auto de resistência. Eu chamo de “Auto de Existência”. Nossos amigos negros da juventude são executados somente por existirem.
Você percebe neste momento que quando você entra numa loja o segurança te segue. Os vendedores não querem te atender por entenderem que você não tem poder de compra e vai só fazer com que percam tempo. Em ambientes de trabalho volta e meia as pessoas te confundem com os trabalhadores da limpeza e asseio, de maneira depreciativa. Em entrevistas de emprego seu currículo até é aprovado, mas na entrevista você não tem o “perfil” da empresa.
Na juventude, quase todos passam pela situação daquele amigo negro dos pais que de maneira repentina morre por volta dos 50 anos de idade por consequências da pressão alta que ocasionou um infarto ou um AVC. Os amigos dos seus pais, vítimas de diabetes, geralmente passam por amputação de algum membro. Meu pai enfartou com cinquenta e poucos. Ainda bem, sobreviveu. Tenho um tio diabético com membro amputado. Essa é uma realidade comum em família de negros. E ainda tem aquela prima/amiga negra que morreu no parto por eclampsia e ninguém nem sabia que ela tinha qualquer problema durante a gravidez.
Eu passei no vestibular para uma universidade pública pela política de cotas. Minha mãe fez uma faixa com um lençol e escreveu com batom e colocou no portão da nossa casa. Meus pais ficaram tão orgulhosos, tão felizes. Quando começaram as aulas ouvi de muitos acadêmicos brancos que eu não “merecia” estar ali e que não conseguiria acompanhar o ritmo de uma universidade pública federal. Ouvi de professores que não aceitariam costumes tribais, ainda mais num curso na área da saúde. Ao contrário do que muitos pensavam, eu me formei. Passei em um concurso público, também utilizando a política de cotas. É impressionante a falta de colegas negros e negras no serviço público. Mas, contrariando as expectativas, vou seguindo.
Maior parte da minha vida eu passei tentando fazer com que as pessoas não se sentissem desconfortáveis por eu não ser branca. Rindo de piadas sobre negros e negras serem burros ou preguiçosos, ouvindo quieta sobre a projeção do meu futuro (engravidar na adolescência, ser mãe solteira e trabalhar em algo que não precisasse de muita escolaridade). Como se eu estivesse errada por ser quem era e precisasse me redimir por isso aceitando o que me impusessem.
Mas chegou o dia em que eu me deparei com a história da minha ancestralidade e entendi que a condição de vida dos negros e negras é sim sofrida, mas não é nossa culpa. Isso ocorre por conta das condições de como nossos ancestrais foram trazidos para este país. Ocorre pelas marcas profundas de discriminação que a escravização de negros e negras deixaram nessa sociedade. É conseqüência da forma como esse sistema desumano foi “encerrado”. Os negros foram libertos da escravização da mesma maneira como jogamos nosso lixo doméstico para fora. Pior, nosso lixo pelo mesmo tem destinação.
Na verdade, são os brancos e brancas que deveriam ter vergonha de sua história de crueldade. Ter em suas raízes donos de fazendas escravagistas deveria ser motivo de desonra e de, no mínimo, busca por reparação histórica pelos crimes contra a humanidade que seus familiares cometeram. Porém o que ocorre é exatamente o oposto. A branquitude continua sendo racista e continua se utilizando dos privilégios que adquiriram com sangue do povo preto, com o sangue do meu povo. Não se sentem nem um pouco responsáveis pelas diferenças sociais que hoje existem entre brancos e negros, e quando falamos de políticas de redistribuição de renda, de cotas, de racismo como crime, o que ouvimos é que nos fazemos de vítima, que não temos mérito, que é injusto com os brancos.
Hoje não ser branca para mim é motivo de auto-afirmação. Tenho orgulho de ser negra, dos meus traços, do meu cabelo. Tenho orgulho da minha história e de minha família. Reconheço minha ancestralidade e a luta que preciso travar de combate ao racismo. Sei que meus passos vieram de longe e que tenho que lutar pelo bem viver.
Infelizmente viver na ignorância da opressão racial é mais fácil. Acreditar que racismo não existe e que tudo é piada de mau gosto ou mal entendido é muito mais confortável. Achar que a sociedade não te direciona para embranquecer seus traços e que você alisa o cabelo porque gosta, é muito mais simples. Sabe porque? Porque o racismo adoece, desiguala e desumaniza. Mexe com a autoestima de uma pessoa negra que foi privada de seu passado. Não temos história. Não temos história negra. Quando é contada, ela chega somente até o período onde os negros eram escravizados. E a maiorias das pessoas negras, com razão, não querem essa história para si. E assim negam seu pertencimento étnico. O trabalho de empoderamento dos negros e negras é contra-hegemônico e por isso tem tanta resistência.
Em que pesem todos os avanços das políticas de promoção da igualdade racial e de enfrentamento ao racismo no Brasil, nos últimos 15 anos, ainda estamos em desvantagem no acesso aos nossos direitos fundamentais. Direitos esses que, desde os tempos de escravidão, inexistiram no cotidiano do africano e do afro-brasileiro. Mesmo após uma Constituição Cidadã, que desde 1988 diz que racismo é crime inafiançável e imprescritível, não se encontra racista para punir, visto que nosso judiciário tipifica os crimes de racismo como “constrangimento”, “briga de vizinhos”, “injúria simples”.
Minha luta é para ser reconhecida como sujeita de direitos. Você não acha um absurdo eu ter que lutar para isso? Achando isso um absurdo, você vai fazer o que? Se você não faz nada e mantém tudo como está, fica a constatação: você é racista 
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