Queridas pessoas brancas

Muitas entidades, partidos e movimentos de esquerda levantam a bandeira do antirracismo. Muitas dizem que tem o combate ao machismo, ao racismo e à lgbtfobia como princípio. Mas como isso se manifesta na prática? Essas organizações antirracistas muitas vezes não se preocupam nem de forma aparente com essa pauta como, por exemplo, garantindo a presença de negros e negras em mesas de debate. Chamam negros e negras para tratar de assuntos da negritude somente, sem considerar que sabemos também falar da conjuntura, de economia, de relações internacionais, de finanças, de saúde, de educação, de segurança pública, de democracia, e de tantos outros temas para além de nossas pautas específicas.

Eu costumo dizer que a branquitude coloca nossa militância numa caixa. Só abrem a caixa quando precisam de nós para falar de tema que nós temos por óbvio o “lugar de fala”. Para além disso a caixa fica fechada.

E quando sofremos racismo? A expectativa é que os negros e negras nos oraganizemos, e eles, os brancos e brancas, nem precisem se manifestar. Dizem que não se sentem confortáveis em falar sobre o tema por serem brancos e brancas. Como se não fossem os brancos e as brancas os praticantes do racismo. Na visão dessas pessoas a luta contra o racismo é pauta nossa. Quero aqui avisar que o racismo é problema da sociedade. Nós combatemos e denunciamos por sofrermos na pele, porém vocês, queridas pessoas brancas, tem o dever de não praticar e de não pactuar com práticas racistas.

Para não praticar racismo, os não negros precisam conhecer quais práticas e discursos são racistas. A grande questão é que somente aprenderão isso nos ouvindo, indo em nossos atos, lendo nossos textos, e não compactuando com o racismo quando perceberem a situação em curso. Estão dispostos a nos ouvir? Ou a justiça que deve resolver?

A forma de não pactuar não é cobrando atitude do negro, que muitas vezes se sente acuado em determinadas situações, a forma de não compactuar é você pessoa branca constranger o agressor dizendo “cara isso é racismo e eu não concordo. Pare já com isso.”

E sobre a famosa frase “não me sinto confortável por ser branco (a)” muitas vezes soa em meus ouvidos como desculpa para não se comprometer com a pauta. Como vocês acham que nós nos sentimos em espaços de maioria branca como movimento sindical, movimento feminista, partido político? Somos minorias nesses espaços e gritamos para ser ouvidos. Não nos escondemos atrás da falácia do desconforto. O mundo é desconfortável para nós desde que nascemos pretas, e isso não é desculpa para fugirmos da luta, pelo contrário, nos impulsiona.

A omissão nas pautas de negros e negras é também uma forma de racismo e de invisibilizar as nossas lutas. Não nos responsabilizem exclusivamente pelo combate ao racismo. Não nos aprisionem especificamente numa pauta. Não se ausentem do combate ao racismo. Reconheçam os privilégios que tem por serem brancos e brancas e usem para nos defender quando for o caso.

Será que examinando sua consciência você, pessoa de pele clara, tem de fato por princípio o antirracismo? Atos de negros e negras é prioridade como atos de conjuntura? Você sofre com um jovem branco que apanha da polícia em manifestação da mesma maneira como sofre pelo genocídio da juventude negra?

Fica a reflexão e o constrangimento

 

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