A quem pertence a minha cultura?

Há uma imensa dificuldade de fazer com que uma pessoa branca entenda que está sendo racista. Até assumem que são machistas, alguns em desconstrução, até assumem que não gostam de LGBTI, mas racista nunca, até porque isso é crime. Se algum negro ou negra denuncia racismo na fala ou atitude de uma pessoa branca, o mais comum é ouvir que você a persegue, que você é radical, que você é barraqueira, que adora uma treta, que você nem é tão negra assim, que isso é racismo reverso.
Vou tentar ser o mais didática possível para elucidar alguns conceitos e desfazer equívocos. Por isso já aviso que o texto será longo.
ALERTA 1: Pessoas brancas não se sintam ofendidas quando um negro ou uma negra aponta seu racismo. O ofendido foi o negro ou negra e não você. Sinta-se com vergonha, peça desculpas e não cometa mais esse erro. A sociedade que estamos inseridos nos cria racistas, então reconheça o erro sem tentar elaborar uma justificativa requintada para isso. Reconhecer o erro, desculpar-se e não mais repetir é o mínimo que alguém que se beneficiou com o processo histórico da escravização dos negros deve fazer. E aceite, se você é branco, mesmo não sendo responsável pela escravização, você foi beneficiado com por ela.
ALERTA 2: Quando uma pessoa branca sofre algum tipo de agressão verbal relacionada à sua cor, ela não pode dizer que sofreu “racismo reverso”. O racismo é fruto de um mito criado sobre a inferioridade de pessoas com o fenótipo negro, atribuindo diversas características negativas (gente amaldiçoada, sem alma, ser humano inferior, suja, violenta, cabelo duro e ruim, cor do pecado e etc), sustentadas pelas elites sociais em todas as épocas da história da humanidade. A pessoa branca nesse caso sofre preconceito, discriminação ou injúria racial, que está relacionada a ofensas contra a honra da vítima, independente de seu fenótipo. Racismo é um crime histórico criado pelo ódio à etnia negra e que matou e continua a matar milhares de pessoas negras em todo o mundo.
Tendo explicado que “racismo reverso” é um termo equivocado, gostaria de tratar de outro tema que também gera bastante confusão: Apropriação Cultural
ALERTA 3: O intercâmbio cultural ocorre quando há troca de vivência e informação cultural entre pessoas de povos diferentes. Porém só acontece troca quando não há relação de subordinação de um sobre o outro. Não há relação de troca cultural quando um povo é escravizado por outro que se julga superior. Troca e apropriação são palavras com diferenças tão obvias que nem precisaria explicar, mas pelo visto se faz necessário.
Por tanto a apropriação cultural acontece quando elementos de uma cultura dominada são adotados pelo dominador e esvaziado de seu significado, que pode ser desde uso de acessórios e roupas, a exploração de símbolos religiosos, até sequestro de tradições e de manifestações artísticas.
De forma sintética:

  • Um povo domina outro e determina que o dominado é culturalmente inferior
  • A sociedade dominadora aceita a ideia e passa a discriminar as pessoas e a cultura dominada
  • A cultura minoritária é obrigada a abandonar seus elementos para se adaptar aos elementos dados pela cultura majoritária
  • Quando o mercado consumidor precisa de renovação, o dominador busca elementos “exóticos” do dominado, ressignifica e capitaliza com a justificativa que não há mais diferença entre os povos pela miscigenação.

O detalhe é que quando a cultura dominada usa o elemento de sua cultura, ele ainda é visto com olhar de inferioridade, misticismo selvagem, como algo negativo, racismo mesmo. Quando o dominador usa, é visto como exótico e muitas vezes eles chegam ao disparate de acreditar que estão sendo solidários por popularizar um artigo cultural que é visto por alguns dominadores como algo que deva gerar medo. Chegam a pensar que estão rompendo com o preconceito, quando na verdade estão esvaziando de significado em nome da moda.
Como podem pensar que tomar um elemento cultural de outro povo porque achou “legal” pode simbolizar respeito?
Geralmente quando uma mulher negra usa turbante em ambiente público ela é rapidamente identificada como “macumbeira”, que no senso comum é visto como algo ruim, uma religião demoníaca, que conversa com mortos e incorpora entidades para fazer o mal ou prever o futuro. Ignorância imensurável, intolerância inadmissível. Racismo e estupidez. Infelizmente é comum serem hostilizadas na rua por cristãos fundamentalistas.
Quando uma pessoa branca utiliza o mesmo turbante, é visto como um acessório para o cabelo e a discussão geralmente é sobre a cor do turbante, a estampa, o tipo de pano, como fazer a amarração ou se colocou o turbante por preguiça de arrumar o cabelo (aff).
O que os brancos muitas vezes desconsideram, é que o turbante é um ornamento de símbolo religioso em várias culturas, inclusive na afro. Ele evidenciava a ligação dos negros escravizados com seus costumes originais e representava a resistência e ancestralidade. Não é um mero enfeite.
Outro exemplo de apropriação cultural é o uso de dread. O termo dreadlocks – que significa algo como tranças/cachos abomináveis – foi cunhado por colonizadores ingleses que enfrentaram um exército de jamaicanos “panafricanistas” que prometeram não cortar mais seus cabelos até que toda a negritude em Diáspora pudesse retornar ao continente-mãe. Em outras palavras, “penteados” podem possuir todo um histórico político que se descaracteriza quando uma pessoa (branca) o implanta na sua cabeça porque quer ser “alternativo”
É claro que quando culturas diferentes se misturam é inevitável que uma afete a outra. Podemos ver isso na culinária e música brasileira que são fortemente influenciadas pela cultura afro. Porém no Brasil somente um lado foi beneficiado e não foi o dos negros e negras.
Para nós negras e negros da diáspora, o uso dos elementos culturais da nossa ancestralidade é ato de resistência. Alguns tem significado religioso, fazem parte de cerimônias e ritos. Devem ser respeitados. Não são adereços da moda.
OBSERVAÇÃO: Os brancos de religiões de matizes africanas sabem do significado e usam os elementos com a devida deferência.
ALERTA 4: Por que ao invés de se apropriar dos elementos de nossa cultura, os brancos não encampam a luta contra o fim do genocídio da juventude negra? Porque não defendem a equiparação salarial entre negros e brancos; entre homens e mulheres? Porque não pautam o fim do racismo institucional? Porque não contribuem divulgando dados sobre a violência obstétrica que as mulheres negras sofrem? Porque não param de nos julgar como menos qualificadas pela nossa cor? Porque não discursam contra a hiperssexualização do corpo da mulher negra? Sobre a polícia que prende e mata negros porque “confundiram” com bandidos?
“Tá na moda ser negro. Desde que você não seja negro.” (Willow Smith)
ALERTA 5: Ainda assim, depois de ler esse texto, terá aquela que virá perguntar, “eu branca, que luto contra o racismo, posso usar turbante, posso usar trança nagô, posso fazer dread? Eu sei o significado e respeito, posso” Ah pessoa branca… não será de mim que você ganhará essa autorização

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