Permita-me discordar

Sororidade não é sinônimo de aquiescência. É o pacto entre as mulheres que se reconhecem como irmãs, é um dos principais alicerces do feminismo. Sem a ideia de “irmandade” entre as mulheres, dificilmente o movimento conseguiria ganhar proporções significativas para impor as suas pautas. É uma tática na luta contra o patriarcado. Percebo que há dificuldade com esse conceito e já li algumas feministas definindo sororidade como ideal utópico.

Creio que muitas vezes o problema é associar o significado de sororidade ao de fraternidade, mas não como conceito filosófico ligado às ideias de Liberdade e Igualdade e sim a ideia de sociedade secreta de homens onde todos seguem um rito e um estatuto. Quem não segue as regras não é membro do grupo. Não somos assim. Feminismo não é uma “fraternidade de mulheres”. Não somos todas iguais. Temos diversas correntes de pensamento dentro do feminismo e defendemos essa diversidade. Para exemplificar cito de forma resumida as principais:

  1. Feminismo Radical: acredita que a raiz da opressão feminina são os papéis sociais inerentes aos gêneros. Reivindicam uma espécie de volta de um determinismo quase que biológico: mulheres são aquelas que têm vagina, que têm filhos, que têm ovário;
  2. Feminismo Socialista: vê no capitalismo a fonte da desigualdade entre gêneros;
  3. Feminismo Liberal: prega que as mulheres podem vencer a desigualdade das leis e dos costumes gradativamente, combatendo situações injustas pela via institucional e conquistando cada vez mais representatividade política e econômica por meio das ações individuais.
  4. Feminismo Interseccional (do qual mais me aproximo): procura conciliar as demandas de gênero com as de outras minorias, considerando classe, raça, orientação sexual, deficiência física… São exemplos de feminismo interseccional o transfeminismo, o feminismo lésbico e o feminismo negro.

Se somos tão plurais como exigir que concordemos sempre? Repito: sororidade não é sinônimo de aquiescência. Não significa concordar com tudo, ou com todas. Ana Liési Thurler, integrante do grupo de pesquisa Vozes Femininas, da Universidade de Brasília (UNB) define sororidade como “acolhimento, empoderamento, solidariedade entre mulheres”.

A origem da palavra sororidade está no latim sóror, significa “irmãs” e irmãs nem sempre concordam. Temos metas comuns que são a igualdade de direitos entre os gêneros, o combate a violência contra as mulheres, empoderamento político com ocupação de espaços de decisão, respeito a diversidade, garantia de direitos sexuais e reprodutivos, dentre outros, porém muitas vezes divergimos no método para alcançar o mesmo objetivo.

Divergir não significa deixar de respeitar, deixar de ser irmã. Divergência inclusive suscita reflexão e o reexame de nossas opiniões. Divergência não é o oposto de sororidade.

É muito comum em debates feministas quando não há acordo político uma das argumentadoras evocar a “falta de sororidade”. Tá errado amiguinha. Há falta de sororidade quando se fere o princípio de entender a outra como sua irmã, ou seja quando se falta com o respeito. Debate no campo das ideias (tese e antítese) são inclusive essenciais para formação de síntese. São saudáveis quando há maturidade política para construção de novos pensamentos.

O que percebo é um apelo recorrente para a tal “falta de sororidade” quando o ego é ferido por alguma discordância com outra militante, e isso faz com que o conceito fique sempre entendido de forma distorcida e parecendo inatingível.

A verdade é que temos muita dificuldade de aceitar crítica. Quando alguém mostra que entende que teu raciocínio não é o mais correto, o mais comum é vermos isso como uma ofensa e não como uma oportunidade de melhoria, de crescimento, um novo desafio de aprendizado. Aprendi que só criticamos de forma direta, aqueles e aquelas que acreditamos que podem melhorar, caso contrário não gastamos tempo e investimento intelectual numa conversa que não surtirá efeito. Portanto a crítica direta é um voto de confiança no potencial da outra companheira. De forma alguma é falta de sororidade.

Precisamos aprender a ouvir mais e sermos humildes em aceitar que alguém pode estar te dando uma dica e não te ofendendo. Escrevi sobre a necessidade de escuta no texto Feminismo e Reprodução Social.

Companheiras, entendamos que nem toda divergência é falta de sororidade, assim como nem toda concordância significa companheirismo, ao contrário, as vezes significa que a outra não está nem aí para o que você pensa ou faz, simples descaso.

Vamos nos desafiar ao exercício da dialética e assim praticar a sororidade ou vamos manter nosso conhecimento em pedestal e manter o conceito como utópico?

Por fim a definição de sororidade que acho interessante é a que conceitua como sendo uma aliança feminista entre mulheres que tem a consciência crítica sobre a misoginia e o esforço, tanto pessoal quanto coletivo, de destruir a mentalidade e a cultura machista. Sua prática permite às mulheres serem coerentes e potencializa a cultura feminista.

Sororidade exige humildade e respeito. Nós não conseguiremos combater o patriarcado se estivermos ocupadas brigando uma com as outras

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