Sobre a chacina misógina de Campinas

Demorei muito tempo refletindo e processando tudo o que tenho ouvido sobre a chacina misógina ocorrida em Campinas. Não quero me deter aos fatos do ocorrido, nem as cartas ou audios, pois a grande mídia tem feito essa exposição em detalhes, mas vou contextualizar para introduzir a discussão.

Na madrugada da virada de 2016 para 2017 o técnico de laboratório Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, pulou o muro onde acontecia uma festa de ano-novo, e assassinou sua ex-esposa Isamara Filier, 41 anos, seu filho João Victor, 8 anos, e mais dez pessoas. Ao todo, Araújo disparou contra 15 familiares e amigos de Isamara. Dos 12 mortos, nove eram mulheres. Além das três vítimas que estão hospitalizadas sem risco de vida, mais três conseguiram escapar ilesas. Dois adolescentes que se esconderam em um banheiro relataram que o filho do atirador disse: “Você matou a mamãe”. Logo depois, ouviram os disparos que mataram Victor. Depois da chacina, Araújo se matou com um tiro na cabeça. Foi um crime premeditado, planejado, que utilizou de vários artefatos. Outro fato que chama atenção é que diversas pessoas conheciam a intenção dele de assassinar a ex-esposa, porém ele seguiu seu plano sem nenhum impedimento.

Isamara já tinha buscado todos os mecanismos legais contra ele, denunciando abuso sexual do filho, pedindo e conseguindo medidas judiciais de proteção em relação aos dois. Em cartas e audios deixados pelo atirador, ele justifica os doze assassinatos ao dizer que buscava vingança por ter perdido a guarda do filho Victor depois de ser denunciado por abuso sexual contra a criança. Para se referir à ex-esposa. Isamara Filier, à mãe dela e a outras mulheres da família dela, ele só usa uma palavra, o tempo todo: “vadia”.

Conversando com pessoas que não estão envolvidas em movimentos sociais, os relatos que ouvi são muito tristes. Ouvi mulheres dizendo que não adianta recorrer a Lei Maria da Penha em caso de violência ou ameaça, que a medida protetiva é somente um instrumento burocrático, que se o homem quiser ele mata de qualquer forma. Ouvi também que por vezes é melhor manter um relacionamento abusivo do que separar e correr o risco de ser assassinada.

Esse crime gerou em diversas mulheres um sentimento de encolhimento de liberdade, de desproteção, de necessidade de submissão ao homem por sobrevivência.

Em outro texto escrevi que nós mulheres vivemos com medo dos homens. Medo do estupro, do feminicídio, da agressão física e psicológica, do relacionamento abusivo, da inferiorização intelectual, das diversas formas de violência que somos submetidas pelos homens que acham que por sermos mulheres devemos realizar suas vontades por obrigação religiosa, moral e/ou cultural.

Abro aqui um parêntese: Lendo as notícias sobre a chacina muito me chamou a atenção o uso do termo “ex-mulher”. Parece que quando uma mulher se divorcia ela deixa de ser mulher. O Homem é ex-marido, ou seja, para ele muda o estado civil, porém para a mulher parece que há uma perda de identidade social. Ela é ex-mulher e não ex-esposa. Fecho parêntese.

Sim, nós mulheres temos medo do machismo que pode nos matar, mas se recuarmos pelo medo, iremos retroceder em conquistas. Não podemos aceitar relacionamentos abusivos por medo de agressão. Não podemos aceitar que violentem de qualquer forma (física, sexual ou psicológica) a nós e aos nossos filhos e filhas e tratar como problema de doméstico. Não podemos ficar presas em relacionamentos infelizes e com tortura psicológica para não chocar a família. Não precisamos mais manter casamentos doentes e agressivos por conta da dependência financeira ou por que a Igreja determina.

Temos avanços legais como A Lei Maria da Penha que contribuiu para diminuir em cerca de 10% a taxa de homicídio contra mulheres dentro de casa. Essa  Lei não trata só da questão penal, apenas 12% de seus artigos tratam da questão penal. Os outros todos são de prevenção à violência doméstica. Não é somente para tratar de quem já fez, mas sim para prevenir.

Os dados do Mapa da Violência de 2015 indicam impacto positivo da Lei Maria da Penha. Enquanto o índice de crescimento do número de homicídios de mulheres no Brasil foi de 7,6% ao ano entre 1980 e 2006, quando a Lei Maria da Penha entrou em vigor, entre 2006 e 2013 o crescimento foi de 2.6% ao ano. Esse percentual tem que diminuir ainda mais e para isso precisamos fortalecer essa política.

Não podemos desacreditar nas conquistas que são fruto da organização das mulheres em busca de direitos. Se ainda não somos livres temos que lutar por mais medidas que promovam a igualdade, que empodere mulheres, que aumente a representatividade em espaços políticos, que nos protejam e que puna agressores. Devemos fortalecer a nossa militancia e não nos encolhermos.

Somos contra a misoginia e não vamos ceder ao ódio. Não vamos voltar para o tempo em que o papel da mulher era ser a ajudante do marido. Não vamos fechar os olhos quando abusarem de nossas crianças. Retroceder não vai impedir eles de nos matar, ao contrário a violência contra a mulher voltará a ser o assunto doméstico que cada família resolve de acordo com a sua tradição, sem repercussão, sem denuncia, sem punição.

É muito difícil evitar crimes de ódio. Neste caso ele foi premeditado, e não possibilitou chance de reação. Foi um ato covarde e o suicídio deixa um amargo de impunidade visto que o atirador concluiu seu plano. O que é preciso rever são medidas protetivas mais eficientes que consigam minimizar feminicídios anunciados.Precisamos melhorar a Lei e não desacreditá-la.

O que de fato me deixou perplexa neste caso é que o autor da chacina reproduz um discursso que se houve muito na “direita coxinha verde-amarela”. Ele traz um ódio as mulheres e a sua emancipação, apresenta contrariedade a Lei Maria da Penha, desacordo com o sistema político e ao fato de mulheres ocuparem postos de decisão como a Dilma na presidencia. Isso demonstra o avanço assustador do pensamento conservador tão doentil que leva o agressor a acreditar que está agindo corretamente ao matar a ex-esposa e o filho sobre quem ele perdeu a autoride e quem mais estivesse perto.

Não podemos ceder ano medo.  A coragem, a força, a vitória cotidiana está em efrentá-lo. Não podemos deixar o conservadorismo avançar.Devemos nos manter na luta defendendo políticas públicas de proteção as mulheres. Devemos seguir buscando representatividade nos espaços políticos elegendo mulheres feministas que defendam nossas pautas e  que proponham leis que promovam a igualdade, que defendam nossos direitos sexuais e reprodutivos, a dignidade humana, a possibilidade de seguirmos vivas…

Por isso mulheres nosso dever é Seguir Em Marcha Até que Todas Sejamos Livres

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Um comentário sobre “Sobre a chacina misógina de Campinas

  1. Impossível não concordar plenamente contigo. É triste que esse país sempre tenha sido assim. Mais triste ainda, termos a ilusão de que tenhamos avançado, após tantas e tantas discussões sobre o assunto. O retrocesso é eminente, principalmente com o avanço do fascismo. Mas, como encerras o texto, precisamos seguir em marcha, desistir de lutar, nunca Abs..

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