Acabou novembro, e o racismo?

O mês de novembro traz para pauta de debate de diversas entidades e movimentos o combate ao racismo. Isso porque no dia 20 de novembro é celebrado o dia da Consciência negra, data escolhida por ser o dia atribuído à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695.

Porém cabe lembrar que o ano possui 12 meses, que o racismo não tem data marcada para acontecer, que o extermínio da juventude negra não é pré-agendado, tão pouco o feminicídio das negras tem picos em determinados meses do ano. O racismo precisa ser combatido e debatido todos os dias do ano, não somente no mês de novembro, não somente como pauta temática. Isto é insuficiente.

Muitas entidades acreditam que estão sendo altamente solidárias com a pauta dos negros e negras, ao investirem alto em campanhas de combate ao racismo no mês de novembro. Somente no mês de novembro.

Toda iniciativa de enfrentamento às opressões específicas é válida. O problema é quando ela se torna uma pauta de calendário. O movimento feminista em certa medida tem superado essa situação quando além das atividades do dia 08 de março, onde as mulheres fazem atos de rua trazendo a pauta contra o patriarcado, organizam os 16 dias de ativismo em campanha mundial que se inicia em 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, e vai até 10 de dezembro, o Dia Internacional dos Direitos Humanos, passando pelo 6 de dezembro, que é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres.

Porém as pautas dos movimentos de negros e negras são consideradas menores, visto que neste país, ninguém se assume como racista e portanto a pauta não é prioritária. Infelizmente é comum você ouvir pessoas se dizendo machistas (homens e mulheres) e até mesmo homofóbicos, contudo ninguém assume preconceito racial. Até porque é crime.

Outro fator que invisibiliza nossas atividades é, que datas de negros e negras não movimentam o mercado, portanto não é interessante oficializar feriados ou comemorações visto que não gera aumento significativo nas vendas do comércio em geral. E como vivemos em uma sociedade capitalista, referenda-se em silêncio que a carne mais barato do mercado é a carne negra.

Mas o que considero mais difícil de entender, e que traz um nó na garganta, é a ausência dos militantes de esquerda brancos e brancas nas atividades organizadas por negros e negras. Quando os brancos organizam o debate e chamam uma de nós para palestrar, até tem quórum. Porém quando nos organizamos e convidamos para que se somem a nossa luta, dificilmente temos adesão dos “companheiros e companheiras”. Este ano isso foi muito perceptível na comemoração do Dia de Tereza de Benguela e na Marcha das Crespas de Curitiba.

Quando se lembram da representatividade e nos chamam para compor um debate, temos ouvintes não-negros que até estão dispostos a nos ouvir até chegar o palestrante principal, porém quando nos auto-organizamos e convidamos os não negros a ouvirem nossas pautas a partir de nós mesmos, daí tem sempre outra agenda mais importante que eles precisam cumprir. Somos invisibilizados por aqueles que dizem que caminham ao nosso lado. Eu diria que este lado tem angulação.

 Vejamos dados de algumas pesquisas para que entendamos que o combate ao racismo deve ser todos os dias:

  • De acordo com o Mapa da Violência 2015, no ano de 2012 morreram 2,5 vezes mais negros que brancos no Brasil. As principais vítimas dessas mortes são jovens negros (entre 15 a 29 anos) com baixa escolaridade e moradores das periferias dos grandes centros urbanos.
  • O número de pessoas brancas mortas por arma de fogo caiu 23% entre 2003 e 2012 (de 14,5 mortes por 100.000 habitantes para 11,8), a quantidade de vítimas negras aumentou 14,1% no mesmo período: de 24,9 para 28,5. Os dados são do Mapa da Violência 2015.
  • De acordo com o Mapa da Violência 2015, o número de mulheres negras mortas cresceu 54% em 10 anos (de 2003 a 2013), enquanto que o número de mulheres brancas assassinadas caiu 10% no mesmo período.
  • Dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM)/Datasus apontam que mais da metade dos 56.337 mortos por homicídio em 2012 no Brasil eram jovens (27.471, correspondente a 52,63%), sendo que destes 93,30% eram do sexo masculino e 77% negros.
  • Segundo a Pesquisa sobre Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a pedido do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o grau de conhecimento de práticas de bullying chega a 19% contra alunos negros, 18,2% contra pobres, 17,4% contra homossexuais. Em seguida, 10,9% estiveram nessa situação por ser mulher e 10,4% por morarem na periferia ou em favelas.

 A mensagem que quero fixar com esse artigo é que o racismo se combate todos os dias, que a solidariedade na luta deve ocorrer em todos os espaços e que a representatividade importa sim para os negros e negras. Por isso, quando for pensar em mesas para debates, lembrem-se de chamar negros e negras para que possamos contribuir com nossos pontos de vista sobre o tema. Quando nós convidarmos não-negros para atividades de combate ao racismo organizadas por nós, se somem à nossa luta. Abordem esse tema cotidianamente e não somente em novembro, e não somente com palavras e textos, mas também com atitudes de enfrentamento ao racismo e presença nos espaços de discussão. O contrário disso é silenciamento e racismo institucional dentro de movimentos que eram pra ser “sociais”.

Vale lembrar: não somos negros e negras somente em novembro

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