Culpabilização da Vítima

A nossa sociedade cultiva a ideia equivocada de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais quando provocado por mulheres sedutoras. Essa justificativa responsabiliza as mulheres pelas atitudes abusivas que os homens possam praticar. Sendo assim o ato sexual não consentido é apenas uma resposta física do homem a uma provocação consciente por parte das mulheres que não souberam se portar de forma casta e utilizaram seu potencial sedutor. Essa provocação pode ocorrer de diversas formas, desde uma roupa que realce a beleza do corpo, estar sozinha, estar em uma festa, beber bebida alcoólica, andar a noite sozinha, andar de dia sozinha, estar em uma rua deserta, estar no centro da cidade, ser negra, ser branca, ser criança, ser jovem, ser adulta, ser idosa, ser deficiente física ou mental, ser rica, ser pobre, ser alta, ser baixa… Em resumo, sendo mulher, cis ou trans, o risco de provocar o instinto estuprador de um homem é uma possibilidade constante na vida de uma mulher.

Recentemente ouvi de uma delegada que atua em “delegacia da mulher” que ir na biblioteca depois da escola é também uma forma de se arriscar a ser estuprada e morta, e isso é culpa da família que ao invés de manter a criança dentro de casa permitiu que ela fosse a uma biblioteca sozinha. Se este pensamento predomina em quem deveria proteger, investigar e solucionar crimes contras as mulheres, imagina como deve ser o empenho em prender agressores…

O Datafolha realizou uma pesquisa, encomendada pelo FBSP, entrevistando 3.625 pessoas a partir de 16 anos, em 217 municípios. A coleta de dados foi feita entre os dias 1º e 5 de agosto de 2016. Esta pesquisa mostrou que mais de 33% da população brasileira considera a mulher culpada pelo estupro.

Esta pesquisa aponta que 42% dos homens e 32% das mulheres concordam com a afirmação: “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”, enquanto 63% das mulheres e 51% dos homens discordam. O problema é que a ideia de “se dar ao respeito” varia de acordo com a religião, local de origem, nível de escolaridade, classe social, acesso a bens e consumo, cultura, valores morais, dentre outros fatores, de cada indivíduo de nossa sociedade.

Veja aqui a pesquisa completa.

Quando a violência é doméstica, além da culpabilização da vítima pela família ouve-se a receita de que os problemas domésticos se resolvem dentro de casa. De acordo com o SIPS sobre a “Tolerância social à violência contra as mulheres”, 63% dos brasileiros concordaram, total ou parcialmente, que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”. No mesmo sentido, 89% dos entrevistados concordaram que “a roupa suja deve ser lavada em casa”; e 82% que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Conclui-se que a maioria da população brasileira defendem o patriarcado (com alguns contornos contemporâneos).

Estes estudos confirmam a tese que os movimentos feministas defendem que vivemos em uma sociedade onde há de fato uma cultura do estupro. A culpabilização da vítima é algo muito sério e traz marcas profundas numa mulher. Além de sofrer fisicamente uma violação do seu corpo com conseqüências imediatas, ela pode desenvolver problemas psicológicos incluindo depressão, fobias, ansiedade, abuso de drogas ilícitas, tentativas de suicídio e síndrome de estresse pós-traumático.

A culpabilização da vítima pelo seu próprio estupro pode ser classificada como uma verdadeira tortura psicológica contra a mulher, que além de todo sofrimento físico e psicológico pós-estupro, também é penalizada socialmente pelo comportamento doentio do seu estuprador.

Como romper com essa cultura machista? Educando meninos e meninas que ambos tem os mesmo direitos e deveres, que nenhum é mais ou menos importante que o outro, que cada qual pode desempenhar o papel que quiser na sociedade, que nenhum ser existe para satisfação obrigatória dos prazeres do outro, que o machismo é sim uma forma de violência que deve ser combatida. Isso deve ser discutido em casa, nas escolas, nas igrejas, nas redes sociais, ou seja, em todos os lugares.

Não temos que ensinar as meninas a como se comportar para não ser estuprada. Não temos que impedi-las de frequentarem a biblioteca ou o centro da cidade. Temos que ensinar os meninos a respeitar as mulheres. Temos que ensinar os meninos que eles só tem propriedade e controle sob o seu próprio corpo e mais nenhum outro. Temos que ensinar aos meninos que é abominável o ato de levantar a saia das meninas na escola ou deitar no chão para ver calcinhas. Que não é aceitável roubar beijos no colégio quando não há acordo. Temos que ensinar ao meninos que cantadas não são elogios e sim ofensas, e que muitas vezes são assustadoras.

Além da promoção do debate permanente sobre as questões de gênero, temos também que exigir políticas públicas de proteção as mulheres. O estado não pode se eximir da responsabilidade de promover a segurança pública e de solucionar crimes cometidos contra as mulheres e meninas, culpabilizando o comportamento individual ou um suposto descuido da família.

Precisamos de uma revolução cultural. Não teremos igualdade ou democracia de fato enquanto vivermos em uma sociedade patriarcal e racista

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