O feminicídio contra Lúcia Pérez

O brutal estupro e assassinato de uma jovem de 16 anos motivou os movimentos feministas da Argentina a convocarem uma greve de uma hora de duração na data de hoje, 19 de outubro, e manifestações em cidades como Buenosparo-mujeresniunamenos_claima20161018_0041_17 Aires e Mar del Plata.

Com o nome de Miércoles Negro (Quarta-feira Negra), os grupos Ni Una Menos, Mujeres de la Matria Latinoamericana (MuMaLá) e outras associações convocaram os protestos, dos quais deverão participar milhares de pessoas vestidas de preto, unidas pelo slogan “basta de violência machista”.

As ONGS convocaram as mulheres a suspender suas atividades entre as 13h e 14h desta quarta-feira (horário local). “Em seu escritório, hospital, corte, redação, loja, fábrica ou onde quer que trabalhe, pare por uma hora para exigir ‘basta de violência machista, nós nos queremos vivas'”, diz a convocatória.

Sobre o feminicidio de Lucía:

Lucía Pérez Montero tinha 16 anos, era estudante e vivia em Mar del Plata, na Argentina, com os pais. Quando foi deixada na porta de um hospital, no dia 08 de outubro, os médicos que tentaram reanimá-la julgaram que a causa da morte seria overdose: mesmo com o rosto lavado, Lucía ainda apresentava resquícios de cocaína no nariz.

Aquilo, no entanto, era estranho: o consumo havia sido desesperadamente febril, pois as narinas de Lucía estavam completamente queimadas por dentro. Ninguém conseguiria aspirar tanto pó daquela forma, principalmente uma jovem como ela, que não era usuária de drogas. E a partir dessa suspeita, os médicos descobriram que a verdadeira da morte de Lucía Pérez não era overdose, mas um brutal abuso sexual: os legistas descobriram que Lucia sofreu imposição de consumo de drogas, e que a tortura sexual provocou rompimentos profundos em via vaginal e anal. Os três agressores, que têm entre 23, 41 e 61 anos, são vendedores de drogas.

Um dos suspeitos é Juan Pablo Offidani, de 41 anos. Filho de um famoso notário jurídico da Argentina, Pablo estudou nos melhores colégios, teve acesso aos melhores recursos, mas, mesmo assim teve uma adolescência conturbada, período em que se envolveu com drogas. Viveu no Brasil durante um tempo, hospedado na pousada da madrasta, em Trancoso, e voltou à Argentina, acompanhado de uma mulher e o filho dela, Martín Farias. Martín tem 23 anos, e é o segundo acusado da morte de Lucia.

As agressões sexuais na Argentina aumentaram 78% entre 2008 e 2015, segundo dados do próprio Ministério de Segurança argentino. No Brasil, entre 2009 e 2011, foram registrados 16.993 casos de feminicídio. E nas escolas, nas faculdades, nos almoços de família e nos grupos de whatsapp, nunca morremos tanto. Empaladas, quebradas ao meio (como na música do Biel), destruídas, aleijadas – tudo isso são termos que os homens usam para descrever seu desejo sexual com as mulheres.

O Mapa da Violência 2015 aponta que no Brasil, a taxa de feminicídios (4,8 mortes a cada 100 mil mulheres) é duas vezes maior do que a média internacional. Só em 2013, último ano com dados disponíveis, a violência de gênero vitimou mais de 4,7 mil mulheres no país.

ONGs e movimentos sociais também reclamam das condições de trabalho das mulheres argentinas e da desigualdade econômica entre os gêneros. “Se a média de desemprego na Argentina é de 9,3%, para as mulheres é de 10,5%”, disseram os organizadores ao convocar o evento. “Nos empregos informais a diferença salarial chega a 40% em relação aos homens”.

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No último dia 03 de junho, milhares pessoas marcharam contra violência de gênero na Praça do Congresso, no centro de Buenos Aires. No último domingo 09, milhares de pessoas marcharam em Rosário, na província de Santa Fé, uma das cidades mais violentas do país, contra a violência contra mulheres. Protestos similares aconteceram em outras cidades do país, como Mar del Plata.

Lutar para que não haja mais nenhum caso como o de Lucia é lutar para que toda essa fantasia assassina morra. Não, não é normal que um homem diga que vai “estropiar” uma mulher; não é normal dizer que vai “aleijá-la”.

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres.

Companheira Lucia – Presente!

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