A extensão de nossos equívocos

A partir desta quinta-feira, 12 de maio, iniciou-se um novo capítulo na história do Brasil e também na militância de esquerda, principalmente do PT e da CUT. Minha geração será incumbida da difícil tarefa de fazer uma avaliação desapaixonada dos erros e acertos desse ciclo que se finda. Não falo aqui da catarse pela qual passam aqueles que, no mínimo, desde a década de 90 ajudaram a construir o projeto que o PT consolidou à frente do país. Essa geração não tem como se desvencilhar da carga emocional de seus 25-30 anos de militância. Já nós, que temos 25-30 anos de idade, precisamos seguir atentamente os ensinamentos marxistas de estudar atentamente a história e aprender com ela.

Não há quem negue a consolidação de direitos, a ampliação das oportunidades e o avanço social dos últimos 13 anos. Mas a nós não nos cabe fazer a defesa apaixonada dessas conquistas, sem ignorar os custos e as condições objetivas que nos levaram a elas. É claro que comemoramos e seguiremos defendendo cada uma delas. Entretanto, é nosso dever avaliar como chegamos até aqui e qual a extensão de nossos equívocos. Vivemos nestes 13 anos, da Carta ao Povo Brasileiro ao afastamento de Dilma Roussef da presidência, um período de conciliação de classes que o ex-presidente Lula sempre descreveu muito bem: “um governo onde todos ganham”. O processo de escalada social foi descrito como o ascenso daqueles do “andar de baixo” que subiram alguns degraus, sem todavia, incomodar àqueles do “andar de cima”.

Eis aqui nosso primeiro equívoco, o de acreditar que esse processo reduziu a desigualdade social. Esse é nosso conto de fadas moderno. Ao contrário do que pregavam os militares de que “era necessário primeiro fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo”, nos últimos anos o que fizemos foi fazer o bolo crescer e dividir com todos. O problema era o tamanho de cada pedaço. A política desenvolvimentista sempre priorizou as extremidades da régua social, em primeiro lugar os mais ricos, em segundo lugar os mais pobres, em terceiro os demais. E demos muito mais aos ricos do que aos pobres, iludidos por uma questão de percepção. Aos que nada tinham, o pouco que se lhes deu muito parecia. Aos que tudo tinham não havia migalhas suficientes que saciassem sua ganância. E enquanto o bolo crescia, essa lógica prosperou. Ao final do processo, erradicamos a fome nivelando os miseráveis à classe trabalhadora inserida na sociedade de consumo e criando um imenso exército de reserva, digno de qualquer país europeu pós-revolução industrial no início do século XIX. De outro lado, enriquecemos banqueiros e donos dos meios de produção até onde sua ganância conseguiu nos chantagear. Assim, na prática, aumentamos a distância real entre as classes antagônicas eternamente em disputa no sistema capitalista.

O segundo equívoco foi a forma encontrada (ou aceita) de se fazer essa transformação social no Brasil. Jogar o jogo da política brasileira. E o jogo, meus caros, o jogo é pesado. 500 anos de uma cultura política centrada no coronelismo (das capitanias hereditárias aos redutos eleitorais) e no patrimonialismo (dos escambos ao dinheiro na cueca) fizeram do jogo do Poder um lupanar que, definitivamente, não é para os incautos. E esse é o problema de chegar ao governo, sem, contudo, chegar ao poder. Dos manuais mais básicos de política, Maquiavel já nos advertia que não era possível governar sem “sujar as mãos”. O problema foi maquiar essa relação, não deixar claro para a população que havia uma disputa interna sobre os rumos do país. O erro foi não nos armar para fazer o enfrentamento direto, para realizar as reformas estruturais, para mudar as regras do jogo, para consolidar uma condição objetiva de se chegar, de fato, ao poder. Quando Lula falou que o “governo era igual feijão, só funcionava na pressão”, achamos que essa era a senha para nossa mobilização, quando na verdade não passava de uma advertência para dizer que a pressão do Capital sempre foi mais efetiva do que a nossa. E ao não perceber isso, o movimento sindical e o conjunto dos movimentos sociais se fecharam, cada um em sua pauta umbiguista, sem olhar para o todo. E competimos entre nós para ver quem fazia mais pressão e conquistava mais migalhas, em vez de construir a necessária unidade para enfrentar o real inimigo.

O terceiro equívoco foi interno. Deixamos de fazer formação, e por isso mesmo, perdemos a noção do todo. A consequência direta foi que deixamos de disputar a sociedade. Sim, se é verdade que o governo deixou de fazer a democratização dos meios de comunicação e de disputar ideologicamente os rumos da educação, permitindo o surgimento de uma geração plena de direitos que os vê como atávicos e sequer é capaz de reconhecê-los como conquistas, também é verdadeiro que tampouco nós e nossas entidades cumpriram com esse papel. Abdicamos de formar e disputar a opinião pública.

Interno também, o quarto equívoco é a ilustração do famoso paradoxo de Tostines. Foi a consolidação de uma majoritária fisiológica no PT e na CUT que garantiu a tranquilidade do governo na construção da governabilidade através de uma maioria fisiológica no congresso, ou foi a construção da governabilidade através de uma maioria fisiológica no congresso que permitiu a consolidação de uma majoritária fisiológica no PT e na CUT? Seja uma ou outra, pouco importa, o fisiologismo de muito militantes e parlamentares serviu para arrefecer a luta em diversos momentos. Agora, mais próximo ao fim do ciclo, quando a conjuntura não mais facultava essa possibilidade, os fisiológicos enfrentaram um dilema. Alguns, com alguma galhardia, tentam recuperar sua audácia e valentia. Outros, simplesmente, abandonam o barco ou trocam de trincheira.

Por fim, o último equívoco é o que podemos cometer daqui para frente. Nossa tarefa, a partir da autocrítica, é buscar novos (ou velhos) caminhos para trilhar, evitando os erros do passado. Não há porque renegar nossa história, a menos que queiramos uma desculpa para cometer os mesmos erros no futuro. É hora de se reinventar. Investir na formação política e na construção da unidade da esquerda, sem sectarismos, sem arrogância. Disputar a opinião pública, a mente e o coração das novas gerações. E, por fim, como nos ensinou o saudoso Mario Lago, do auge dos seus 78 anos, após a derrota de Lula na eleição de 89, quando alguém perguntou “e agora, o que nós vamos fazer?”, com sua tranquilidade histórica: “Uai, a gente começa tudo de novo”.

Texto de Daniel Mittelbach

Solene

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