A mulher pode ser o que ela quiser (?) Meu corpo minhas regras (?)

Acredito nisso e me somo a todas as lutadoras feministas nesse grito, a exemplo da semana passada, quando uma revisteca tentou impor a todas nós mulheres o padrão de mulher ideal, aceitável, através do bela, recatada e do lar.

Por isso, as redes sociais foram inundadas por toneladas e toneladas de indignação muito bem humorada. E foi lindo! Com #belaracatadaedolar, milhares de mulheres disseram não ao estabelecimento do padrão. Chegou-se a explicar, muito bem explicadinho, várias vezes, que a campanha, espontânea, diga-se de passagem, não era contra o estilo da mulher retratada na matéria da tal revista. Não, ao contrário, ela, aquela indivídua, pode ser o que ela quiser, inclusive bela recatada e do lar. O que não pode é exigir-se de todas as mulheres, como se coisas fôssemos, a adoção de um padrão não estabelecido por elas próprias.

Isso é o óbvio, pra dizer o mínimo. Cada um e cada uma constrói seu estilo ao longo da vida, conforme, suas vivências, suas emoções, suas crenças, seus gostos, seus humores. Não há como querer estabelecer padrões e que as pessoas, por isso, abandonem todas as suas experiências e historias.

E é por isso, em homenagem a essas experiências e historias de cada uma de nós, que dissemos, redissemos, escrevemos, reescrevemos, gritamos e berramos: A MULHER PODE SER O QUE ELA QUISER! Defendemos nossas identidades, o material de que somos feitas, cada uma de nós. Todas nós. Todas.

Pois bem, A MULHER PODE SER O QUE ELA QUISER! Pode! Pode, sim! Mas pode, mesmo!

Que lindo! Nos irmanamos nesse grito por dias e dias e dias e dias.

Até que, ontem à noite, algo muito tenebroso ameaça e estremece nossas estruturas: uma mulher.

Uma mulher escolhida Miss Bumbum 2013 nos Estados Unidos, pelo que dizem as primeiras notícias. Uma mulher Miss Bumbum que tem um relacionamento afetivo com um homem, um novo ministro, pelo que dizem as primeiras notícias. Uma mulher Miss Bumbum que faz uma visita ao gabinete ministerial desse homem, pelo que dizem as primeiras notícias. E registra o momento, em fotos, pelo que dizem as primeiras notícias. E posta nas redes sociais, pelo que dizem as primeiras notícias. Nas fotos, ela usa um vestido branco (no joelho!), com decote profundo e fenda frontal imensa. E essas primeiras notícias, ainda por cima, junto com as tais fotos e postagem na rede social, mostram fotos dela seminua, de frente e de costas (o cenário de fundo destas não é o gabinete ministerial, é bom que se diga) e lhe atribuem a fala de que ela é a primeira dama ministerial mais bonita do Brasil.

Não vou descrever a moça, pois, fatalmente, cairia no erro de estabelecer-lhe um padrão que nem sequer sei se ela o reconhece e o adota. Não vou fazer o que a revisteca tentou fazer semana passada.

Mas, ao que parece pelas reações, os fatos não agradaram. Li e ouvi coisas ao estilo “que absurdo!”, “que barbaridade!”, “não era o momento!” e por aí foi a coisa.

Me pergunto: por que? Porque ela foi Miss Bumbum, mostra seu corpo, uma das fotos no gabinete ministerial mostra um “selinho” entre ela e o ministro, é isso? Por acaso é porque não reconhecemos recato nela?

Mas, afinal, a mulher não é dado ser o que ela quiser? Ou isso é válido só para algumas? Quais algumas? Qual o padrão que estamos querendo estabelecer para, em troca, como recompensa, ser-nos dado o direito de sermos o que quisermos? Dentro desses padrões, é claro.

E nosso corpo? Nosso corpo não era assunto só nosso? MEU CORPO, MINHAS REGRAS, não era isso? Ah, sim, mas só para algumas? Aquelas que se adequam ao padrão que estamos querendo estabelecer para, em troca, como recompensa, ser-nos dado o direito de ditarmos as regras sobre nossos próprios corpos? Claro!

Não vivemos dizendo (e acreditamos nisso) que não importa a roupa, o comportamento ou o que seja?

Não é momento de quê? Não é momento de defendermos que a mulher pode ser o que ela quiser? Não é momento de aceitarmos, entendermos, praticarmos que a mulher pode ser o que ela quiser? Não é momento de acreditarmos no nosso bordão sobre nossos corpos? Não é momento de praticarmos nossas teorias? Ah, não, os direitos plenos das mulheres estão sempre em segundo plano, não é mesmo? Sempre temos que esperar.

Ou, na verdade, na prática, também dividimos as mulheres em direitas e recatadas, de um lado, e vulgares e vadias, de outro?

Pois, pra mim, isso tudo é machismo. O bom e velho machismo. E como bom e velho machismo que é, vem carregado de tremenda hipocrisia.

Mas, o que eu quero saber, mesmo, e ninguém falou, ninguém comentou, ninguém perguntou, é quem é, afinal, o novo ministro? Ele é competente? O que pretende fazer no ministério? Qual sua experiência na área? É honesto? É técnico?

Se ele é recatado ou não, não quero saber. Se gosta de mostrar o corpo, não quero saber. Se já participou ou pretende participar de concursos de beleza, não quero saber. Se já pousou nu ou seminu para fotos, não quero saber. O que ele posta nas redes sociais sobre sua vida, não quero saber. O estilo de suas roupas, não quero saber. Se é homem ou mulher, se é heterossexual ou homossexual, se é cisgênero ou transgênero, não quero saber. Se gosta de sopa ou de carne moída, não quero saber. As cores de sua preferência, também não quero saber.

Sobre o novo ministro, as únicas coisas que me interessam e quero saber é como ele vai desempenhar seu cargo e o que isso vai significar na sua área de atuação.

Do estilo, preferências, roupas, fotos e postagens nas redes sociais da mulher que abalou nossas estruturas, ontem à noite, não quero saber. Sobre ela, o que sim, quero saber é se vamos defender o seu direito de ser o que ela quiser e fazer com seu corpo o que ela quiser; se vamos nos levantar contra a patrulha que correu as redes sociais, a partir de ontem à noite, sobre seu estilo, corpo e comportamento.

Vamos defender nossas teorias para todas ou só para algumas? Nossa sororidade alcançará a todas as mulheres?

Já dizia Simone de Beauvoir, lá no século passado: “basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes.”

Por Izabel Aragon

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