Sempre em frente, quem para retrocede

Eu acredito que enquanto estivermos no sistema capitalista, que se alicerça no patriarcado e no colonialismo (leia-se machismo e racismo), as lutas dos socialmente oprimidos serão na tentativa de reduzir as violências sofridas. As organizações de mulheres e negras e negros devem ser acima de tudo anticapitalista.

A tarefa é grande. Avalio que algumas etapas são necessárias para chegar na compreensão de que a discussão não é o racismo ou o machismo e sim o sistema econômico. Primeiro é preciso fazer com que as pessoas se aceitem e se empoderem dentro da sua característica. Isso passa pela aceitação da estética, pela desconstrução de padrão de beleza, pela desconstrução de papel que a pessoa deve ou pode exercer na sociedade. Cada um e cada uma precisa adquirir a consciência que pode ser aquilo que quiser, com a roupa que se sentir bem e com o corpo que a genética e seus hábitos conformam.

Parece simples mas não é. Principalmente para as mulheres negras que crescem ouvindo que é beiçuda, que o nariz rouba oxigênio, que o cabelo é de bombril, que o quadril é de boa parideira, que a pele é da cor do pecado, dentre outras coisas que rebaixam a auto estima e a coloca como último lugar na hora da escolha para uma relação afetiva.

Essa fase de aceitação e empoderamento estético muitas vezes precisa de encontros com os iguais para que passe a ter exemplos positivos e coragem para mudar o estilo. Não é fácil e muitas vezes não é rápido. Muitas mulheres vivem a vida inteira em dietas para emagrecer, desrespeitando o seu próprio corpo para se encaixar num padrão que não é o seu. Muitas gastam dinheiro que não tem para manter o cabelo alisado ou pintado, por que o seu natural não é bonito ou fecha portas no mercado de trabalho.

Depois de entender que essas mudanças em nosso corpo pela imposição externa é uma forma de violência e submissão às mulheres, depois de se aceitar ser como de fato é, vem a compreensão que é preciso militar de forma organizada, para conscientizar as outras da opressão que sofrem, para que todas possamos ser livres.

Mas se para por aí, o movimento se torna auto-ajuda e cai num drama psicológico em torno das histórias de opressões sofridas. Por vezes alguns colocam o opressor (homens ou brancos, e com certeza os homens brancos) como inimigos e acabam gerando uma nova opressão.

A próxima fase é exatamente o oposto. Devemos extrapolar o nosso grupo, que já tem o conhecimento da opressão que sofre e de como enfrentar no cotidiano, e debater com toda a sociedade. O machismo e o racismo são sim problemas sociais, e não serão desconstruídos sem formação. Muitos nem sabem que aquilo que pratica é visto como violência pelo outro.

Nesse momento é preciso lutar por políticas públicas, por ensino nas escolas abordando com qualidade a história da África e da Afrodescendência, pelo debate de gênero nas escolas, realizar formações através de debates sobre a racismo, direitos reprodutivos, violência de gênero, violência doméstica, extermínio da juventude negra, 08/03, 20/11, a falsa abolição, a estética negra, diferenças salariais, cotas, participação em espaços de poder, desmilitarização da polícia, representatividade na mídia, dentre outras tantas pautas que nos atinge.

Quando chegamos nesta etapa conseguimos entender que só mudando o sistema iremos superar essas diferenças construídas e impostas, que servem para explorar a uns mais que aos outros. Enquanto estivermos no capitalismo a luta é por diminuir as desigualdades.E aí cada qual faz sua opção política de em qual trincheira irá seguir na militância. O conhecimento adquirido impulsiona para a luta.

Cada etapa tem o seu tempo, cada pessoa tem seu tempo. O que não podemos coibir é o avanço de cada um. Tem companheiros e companheiras que defendem que o grupo oprimido deve se organizar entre si e somente agir entre os iguais para empoderar os seus. Isso segrega, afasta, isola e não reduz a opressão. Como disse, cada etapa tem o seu tempo, mas os militantes com mais experiência deve ajudar os novos a evoluir na caminhada.

Sigamos na luta, nos empoderando, construindo novas lideranças e defendendo o projeto de sociedade socialista

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