Conjuntura, Fora Cunha e Grelo Duro

A conjuntura nacional polarizou a sociedade. De um lado vemos os movimentos sociais e populares organizados, trazendo a militância para a rua para defender a democracia, qualificando o debate político e mostrando que o cenário é de perseguição a um partido de massas. Do outro, o conservadorismo aliado a grande mídia, utilizando informações seletivas da operação Lava-Jato para manipular o povo brasileiro e inflamar o ódio, gerando uma onda de violência e convencendo grande parte da sociedade de que aniquilar um partido e seus militantes acabará com a corrupção no país. Com isso temos visto sedes de sindicatos, centrais e partidos sendo atacadas. O pior ataque, contudo, é o direcionado aos militantes políticos, destes ainda mais grave a violência contra as mulheres.
Todos os lados são contra a corrupção e defendem punição aos corruptos. A diferença está no método. O governo federal, sob comando do PT, fortaleceu a polícia federal e não engavetou nenhuma investigação, ao contrário, deu autonomia para a PF. Já a “nova direita ensandecida” tem praticado atos de ódio e violência como exposição de bonecos da Dilma e Lula enforcados, pedidos de intervenção militar, agressões físicas e verbais a pessoas que vestem a cor vermelha, dentre outras barbáries injustificáveis.
Olhando esta crise por uma perspectiva feminista não posso deixar de tratar de alguns assuntos. O primeiro deles é o papel da luta das mulheres contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), figura de destaque no processo de impeachment,  e como o cenário atual poderia ser diferente se os movimentos mistos tivessem se incorporado a pauta das mulheres. O segundo tema que trato neste texto foi o uso da expressão “grelo duro” por Lula em um dos áudios divulgados pela Operação Lava-Jato.
Nós do Movimento feminista percebemos nossas lutas pouco valorizadas nos movimentos sociais de forma ampla. Quando a pauta é das mulheres negras a dificuldade é ainda maior. Quem trabalhou na organização da Marcha das Mulheres Negras 2015 sabe bem o que quero dizer. Nos atos gerais, quando os movimentos das mulheres negras pedem fala, sempre tem narizes que se torcem, mas não tem coragem de negar o uso do microfone. Todos entendem a necessidade e importância do debate, porém no momento em que precisamos de auxílio, seja estrutural ou militante, as pautas corporativas sempre estão à frente da luta contra o machismo e o racismo.
Um exemplo disto foi a manifestação do dia internacional da mulher este ano de 2016. Enquanto a pauta se tratava de temas do movimento feminista, as entidades do nosso campo político estavam preocupadas com os gastos. Quando a conjuntura mudou e houve a condução coercitiva de Lula, os movimentos sociais fizeram a opção política de se somar à manifestação para que as mulheres se manifestassem contra o golpe. Daí apareceu uma diversidade de movimentos e entidades querendo construir o ato, até aqueles que estavam preocupados com os gastos.
Desde a declaração do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB) em 2015 onde ele diz que o “aborto só vai a votação se passar pelo seu cadáver”, nós mulheres estamos nas ruas pedindo que ele saia do cargo. Conforme ele afirmou, a pauta da descriminalização do aborto está parada desde então. Na sequência, quase como uma afronta aos movimentos feministas, ele trouxe para pauta o PL5069/13 que na prática, dificulta procedimentos de atenção à saúde importantes para que vítimas de violência possam retomar suas vidas, tais como a anticoncepção de emergência e o direito ao aborto legal e seguro nos casos já previstos em lei. A proposta ainda penaliza os(as) profissionais de saúde que realizarem o atendimento. Dessa forma, aqueles que porventura auxiliem nos casos de aborto (daqueles previstos em lei) teriam pena que vai de 5 a 10 anos de prisão. Criamos para as redes sociais a hashtag “#ForaCunha” que rapidamente viralizou e hoje é utilizada por todas as feministas.
Nessa época também ganhou grande proporção os ataques misóginos contra a Presidenta Dilma. Desde adesivos chamando/comparando a presidenta a uma vaca, até alusões ao estupro. A sexualidade dela foi, e ainda é, questionada e atacada de maneira covarde e cruel, como nunca se viu acontecer com um homem no exercício de cargo político. Atacam a pessoa de Dilma simplesmente por ser mulher.
Ataques contra uma mulher em um espaços de poder, como aconteceu a Presidenta Dilma, a Deputada Federal Maria do Rosário (PT), dentre outras, revela o entendimento machista de que as mulheres não deveriam ocupar espaços políticos. É um ataque a todas nós que lutamos pelo empoderamento das mulheres. O Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC), que hoje surfa na onda golpista, também foi alvo de nossas manifestações por fazer apologia ao estupro em suas declarações.
Estamos na luta. E se os movimentos mistos tivessem entendido em tempo a necessidade de enfrentamento ao Cunha e ao Bolsonaro como nós feministas vimos, se tivessem incorporado antes essa pauta como fizeram agora no oito de março,  talvez a conjuntura fosse outra.

E agora vamos falar das mulheres de “grelo duro”
Essa fala foi publicizada de forma ilegal através de um grampo que registrou a conversa do Lula com o Ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República Paulo Vannucchi. Durante a ligação, o Lula está criticando as ações do procurador Douglas Kirchner, envolvido na investigação da operação Lava-Jato. Dois dias antes do vazamento das ligações telefônicas, o Conselho Superior do Ministério Público Federal decidiu não exonerar o Procurador da República Douglas Kirchner (mencionado por Lula) por entender que ele estava, apenas, exercendo seu direito à liberdade religiosa. Ele estava sendo acusado de torturar física e psicologicamente a própria mulher. Existem provas e testemunhos que esse promotor mantinha sua esposa em cárcere privado, onde ministrava surras de cipó, supostamente motivadas por determinação dos mandamentos da sua religião.
Nesse contexto, o Lula fala: “(…) Vocês ficam procurando o que fazer… faz um movimento das mulheres contra esse filho da puta. Ele batia na mulher, levava a mulher no culto religioso, deixava ela sem comer, dava chibatada nela, sabe? Cadê as mulher de grelo duro lá do nosso partido?”
Vale aqui a explicação do que essa expressão significa. “Grelo”, na definição dos dicionários, é um nome que se dá a brotos de plantas. Mas, popularmente, é um apelido para o clitóris, órgão sexual feminino que tem como única função proporcionar prazer para a mulher. Quando a mulher fica excitada, acontece a ereção do clitóris – daí, “grelo duro”.
Feita a explicação, ainda não consigo entender como pode ter tido mais repercussão o uso da expressão “grelo duro” do que a afirmação que um promotor dava chibatadas em sua esposa. A violência física à uma mulher não teve tanta importância quanto uma expressão regional. Nisso sim eu vejo o machismo, mas não só isso, é inegável a manipulação da mídia neste caso. Só não vê quem não quer.
Quando se trata de homens com força política, com poder de decisão, é comum eles serem chamados de “o pica das galáxias”. Quando determina uma ação e encerra o assunto diz-se que “botou o pau na mesa”. São expressões chulas, porém de impacto no universo masculino. Mulher de “grelo duro” é o equivalente. Os movimentos feministas têm buscado expressões próprias (por exemplo, sororidade ao invés de fraternidade) para abandonar o vocabulário masculino, e essa expressão “grelo duro”, que até então era regional, graças ao Lula ganhou o país. Não é uma expressão machista, e sim que revela uma mulher empoderada. Até por que “grelo duro” é extremamente prazeroso.
Mas respondendo especificamente a pergunta do Lula “Cadê as mulher de grelo duro lá do nosso partido?” Estamos aqui! Sempre estivemos na luta, nas ruas, discutindo nossas pautas específicas e a política geral. O que falta são as lideranças masculinas nos enxergarem como protagonistas políticas, por que como disse anteriormente se os movimentos mistos tivessem ouvido os nossos gritos de FORA CUNHA e se somado a eles, talvez o cenário político fosse outro. Todavia, que fique a lição, nunca é tarde para se empoderar uma mulher
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