Ritos sociais e definição do papel da mulher

Nossa sociedade é repleta de cerimônias que marcam uma nova etapa da vida. Todo rito tem sua importância social e sua mensagem velada, ainda mais para as mulheres. Será que  entendemos o que as cerimônias significam na vida das mulheres? Abaixo apresento algumas para que possamos avaliar se é somente uma festa, uma comemoração ou se traz uma relação de subordinação.

Festa de debutante: A aniversariante vestida como menina recebe os convidados e após a chegada de todos, ela se retira. Começa a cerimônia com 15 casais, cada um representando uma idade da vida da menina, geralmente com alguma alegoria que lembre a fase: apresentação de fotos, falas de familiares, homenagens e demonstrações das habilidades que a menina desenvolveu em cada etapa… Em seguida ela volta vestida como mulher. Diante de todos a mãe passa batom rosa (vermelho é vulgar) e a madrinha (ou outra mulher importante na educação da menina) troca o sapato baixo por um com salto representando que agora ela já pode ser cortejada. Então começa o Baile onde ela dança graciosamente uma valsa com o pai e depois com os candidatos a pretendentes.

O conceito do Baile de debutante é a apresentação da filha mulher a sociedade, mostrando como ela é bela, como é prendada, como sabe se portar com graça e elegância, ou seja, uma mulher apta a casar e ser uma boa esposa dentro dos padrões sociais ocidentais estabelecidos.

É a representação do papel da mulher dentro de uma sociedade patriarcal. A mulher deve atender aos padrões de moda e beleza, saber realizar as atividades domésticas, saber se portar em público, e saber ser conduzida por um homem.

Pedido de Namoro/Casamento: O jovem mancebo interessado precisa pedir autorização para namorar/casar com a moça ao pai dela. É um sinal de respeito a família da menina. Afinal, o pai é o proprietário/responsável pela filha até que ela se case. Ele tem o poder de determinar com quem ela pode ou não se envolver independente de sua vontade. Mas e a família do menino? Ela não precisa dizer as intenções dela com ele? Não, não precisa. É óbvio que a intenção de uma mulher ao se relacionar com um homem é casar e ter filhos.

Chá de panela: Um rito de passagem onde as mulheres se reúnem para dar dicas domésticas para a jovem que irá casar. É oferecido a ela presentes para sua casa, receitas para cozinhar para a família e roupa íntima para satisfazer o marido. Como forma de despedir-se da vida de solteira as mulheres colocam a noiva em trajes ridículos e saem batendo panela avisando a vizinhança que aquela jovem não está mais disponível, ela irá casar. A panela é um símbolo para a mulher recém-casada.

OBS: Na despedida de solteiro do noivo os amigos devem apresentar o que o noivo deixará de ter acesso por optar em se tornar um homem casado. É uma forma dos amigos testarem se a intenção do homem de casar é firme. Tradicionalmente a despedida de solteiro envolve orgia, bebedeira e voto de silêncio sobre os acontecimentos.

Casamento: No ritual clássico a mulher se veste de branco representando sua pureza virginal e é entregue pelo pai ao marido onde diante de Deus e dos convidados jura amar e respeitar diante de qualquer adversidade. Ele também faz os votos, mas não precisa ser virgem e nem representar que é. A mulher deve ser fiel ao marido antes mesmo de ser casada, por que Deus desde toda a eternidade já tem reservado o varão daquela mulher. Ela deve guardar-se virgem para o marido e depois entregar-se somente a ele. A mulher Inclui o nome do marido ao seu para socialmente referendar que agora faz parte de outra família. Na tradição ela retira o nome da família da mãe, ficando o seu primeiro nome, o sobrenome da família paterna (seu primeiro dono) e na sequência o nome da família do marido (seu segundo e definitivo dono). Para o homem não muda nada.

Gravidez/Criação de filhos: É um dom divino e negá-lo é negar o papel da mulher na criação, é negar a própria fé. A maternidade é sagrada e por isso não deve ser evitada. Como o sexo é somente depois do casamento e os filhos são bênçãos, há quem defenda que o planejamento deve ficar pela vontade de Deus. Antigamente a gravidez era o único momento em que a mulher podia realizar desejos e reduzir a carga de atividades domésticas, ainda mais se o bebê fosse do sexo masculino. Hoje essa realidade sobre o sexo do bebê mudou. Também já é socialmente aceitável utilizar métodos contraceptivos para planejar o melhor momento para engravidar. Porém há quem defenda que uma mulher que não tem filhos é incompleta, infeliz e não atendeu a missão do casamento.

Vida Profissional: A mulher deve sim estudar e ter uma profissão. Deve sim passar pelo rito de trote ao ingressar num curso superior, ainda que seja uma atividade que enfoque na sexualidade/sensualidade e que seja sexista e humilhante. Deve também passar pelo rito da formatura que já foi exclusivo dos homens, mas agora tem aceitação para ambos os sexos. É interessante que a mulher trabalhe para ajudar nas despesas domésticas ou para pagar as suas futilidades. Desde que o trabalho seja de meio período e no horário que os filhos estejam na escola. Ela deve dar conta do seu trabalho, da educação e saúde dos filhos, das tarefas domésticas e de manter-se bem esteticamente para o marido. O homem deve ser o provedor da casa. O trabalho da mulher é mais para satisfação pessoal e complemento da renda do que para construir uma carreira profissional. Para uma boa esposa o trabalho é uma atividade secundária.

Divórcio: Deus me livre! Não tem cerimônia.

Viuvez: As mulheres têm expectativa de vida maior que a dos homens e em geral os homens casam com mulheres mais novas. Por isso é mais comum haver viúvas do que viúvos. Quando a mulher fica viúva o esperado é que ela respeite por determinado tempo a imagem do marido. Quanto tempo? Isso pode variar. O importante é que por algum tempo ela manifeste socialmente o respeito ao marido morto não se relacionando com outros homens. Depois de um tempo ela inclusive deve voltar a procurar um parceiro que a acolha, visto que seu papel social é ser esposa. No passado foi pior. As mulheres eram obrigadas a manter um luto de sete anos. Mas isso mudou.

Peguei somente alguns exemplos e sabemos que essas cerimônias, como qualquer rito no capitalismo, não é para qualquer mulher. Se a mulher for negra ou se for lésbica, tudo muda. Nestes casos o que ela tiver será lucro. A mulher negra tem que casar com o homem que quiser casar com ela sem reclamar. Importante é casar. Ainda mais se ele for branco. Daí ele estará a erguendo socialmente e ela deve aceitar tudo que ele propor e agradecer pela benesse.

Se ela for lésbica nada disso se aplica. Se for negra e lésbica, o melhor é ser discreta e esconder sua opção orientação para não incomodar ninguém e não envergonhar a família.

Qual a sua reflexão? Ritos são festas que comemoram uma passagem ou são marcos que determinam papeis sociais numa nova etapa da vida?

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