Empoderamento não é somente uma questão estética

Um termo muito usado no movimento feminista e no movimento negro é o chamado Empoderamento. Nas redes sociais ele ganha destaque com imagens de negras utilizando turbantes e Black powers como sinal de aceitação da própria estética e ancestralidade e também como forma de desafiar o padrão de beleza estabelecido. Recentemente uma peça publicitária tratou do empoderamento das mulheres embelezando um grupo na ocasião da assinatura do divórcio.
Sobre a propaganda fiquei com a dúvida se a mensagem era “olha o que você perdeu” ou “olha o que junto a você eu deixei de ser”. No caso da primeira afirmação o comercial transmite a ideia de que a mulher “conquista e segura” o homem através da manutenção da beleza, portanto machista. No segundo caso ela empodera a mulher que sai de uma situação que a oprime e liberta o seu verdadeiro eu. As duas interpretações são possíveis, mas o comercial não é o tema aqui.
Empoderar-se é reconhecer-se enquanto sujeito social, político, autor da sua própria história. É entender-se como capaz de lutar por direitos que não são só seus, mas também de um grupo. Segundo Ana Carolina Cerqueira, empoderamento é singular e é plural. Singular no sentido de que é um processo individual e pode ocorrer pelas mais diferentes motivações, até pelo divórcio. Plural porque por meio do empoderamento aprendemos que a luta é coletiva.
Tenho observado que a indústria da beleza tem se apropriado deste termo para favorecer o mercado cosmético. Como se “mulher empoderada” fosse aquela que usa batom vermelho vivo, decote no umbigo e salto agulha nº 10. É uma reformulação nos padrões de beleza. Não é somente a característica física (loira de cabelo liso e magra), mas também o que se usa, como se a auto confiança da mulher fosse demonstrada através de uma sensualidade chique.
Algumas companheiras do movimento feminista fazem a interpretação absolutamente contrária, entendendo que ser empoderada e/ou libertária é fazer o oposto do que o senso comum enxerga como belo em uma mulher. Daí não mais se depilam, não mais se maquiam, só usam rasteirinha ou sapatilha, roupas customizadas e o cabelo o mais natural possível. A intenção é impactar, chocar, causar constrangimento. Isso por vezes afasta algumas mulheres do feminismo por não se enxergarem capazes de pertencer àquele grupo.
EMPODERAMENTO NÃO É SOMENTE UMA QUESTÃO ESTÉTICA. Para as mulheres negras, assumir o crespo é sim um rompimento com um padrão imposto pela sociedade, mas não é a única forma de resgate da ancestralidade e nem uma obrigação para a militância. Conheço diversas negras que alisam seus cabelos e são grandes militantes do feminismo antirracista. Essa questão ainda divide a opinião de várias companheiras.
Acredito que a interpretação extremada de determinados conceitos é resultado de um primeiro contato, da fase inicial da vivência de um novo aprendizado. Num primeiro momento há o entusiasmo de viver intensamente o que se aprende no movimento. Com a experiência vai se distinguindo o que é essencial do que é superficial em cada situação.
Empoderar-se supera a questão estética, é uma questão política. É quando a mulher se apropria da argumentação de que pode e deve ser protagonista de sua própria vida, e mais que isso, defende que todas as outras mulheres também o sejam. É entender-se capaz de buscar a participação nos espaços de decisão com igualdade de direitos em todas as esferas, desde relacionamento afetivo até as disputas de cargos em espaços de poder. É aceitar-se como sujeito político e intervir sem medo de ser considerada menos por ser mulher ou negra, porque sabe que não é. É achar-se linda através do seu próprio olhar e não a depender do julgamento alheio. É sentir-se livre para ser você mesma. Mulheres do mundo, empoderai-vos

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