Feminismo e a reprodução social

Neste último mês fiquei refletindo o quanto algumas feministas têm facilidade de, com sua bagagem teórica, categorizar a opressão que as mulheres ao seu entorno sofrem, sem considerar, por exemplo, o ambiente em que aquela mulher está inserida, sua história e a reprodução social.

Entende-se por reprodução social o processo mediante o qual uma sociedade, através de diversos mecanismos, reproduz a sua própria estrutura. Bourdieu utiliza o conceito de habitus para explicar os mecanismos através dos quais aprendemos a fazer parte de uma sociedade e a reproduzi-la continuamente através das nossas ações. Geramos mecanismos de seleção de novas informações, rejeitando aquelas que possam pôr em dúvida as informações até aí acumuladas que sustentam a maneira como vivemos. As ações que quotidianamente pomos em prática, permitem garantir a continuidade do sistema social existente, isto é, reproduzi-lo tal como ele é.

Como exemplo queria relatar um estudo que fiz durante minha graduação numa comunidade da região metropolitana com vulnerabilidade social. Acompanhei uma família com três gerações onde todas as mulheres engravidaram na adolescência. Queríamos entender o que gerava essa situação visto que a unidade de estratégia da família acompanhava essa família e todas tinham acesso a métodos contraceptivos.

A história daquela família era análoga a história das outras mulheres daquela comunidade. Pela necessidade de sustentar a família, a mãe trabalhava fora e delegava a filha menina o cuidado da casa e dos irmãos. Reflexo de nossa sociedade machista que impõem às mulheres a responsabilidade de ser a cuidadora do lar. Porém a mãe mantinha a cobrança de rendimento escolar, a proibição do namoro, o controle sobre as “saídas com as amigas”.

Lembro-me bem da adolescente de 14 anos me dizendo“se é para cuidar da casa e de criança prefiro cuidar das minhas”. A maneira que ela enxergou de se libertar daquela situação era sair da casa dos pais, e a única forma que seria aceitável era engravidar e ir morar com o namorado. Agora ela cuidava da casa dela, da criança dela, sem a pressão, por vezes violenta, da mãe. Só vendo para entender como ela estava feliz e como se orgulhava de manter a “sua” casa na mais perfeita ordem.

Com a mãe e a avó a história foi à mesma. O relacionamento juvenil não durou muito tempo, elas pararam de estudar para trabalhar e sustentar os filhos. Como não tinham formação, a renda era baixa e por vezes trabalhavam em dois empregos. Submetiam às filhas as mesmas condições que viveram e por aí a história continuava se reproduzindo.

De fora da situação é muito fácil teorizar mil soluções para o caso. Estando lá você vê uma menina que ia pra escola de manhã, quando saía passava na escola dos irmãos para buscá-los. Chegando em casa fazia almoço, dava comida aos irmãos, lavava a louça, arrumava a casa, cuidava das roupas (lavar, estender, recolher e passar) e preparava a janta. Quando a mãe chegava, ela ia fazer o dever de casa e explicar o que os irmãos aprontaram durante o dia e ser culpabilizada por isso. Não podia sair com as amigas e nem namorar porque era muito nova, porque tinha que estudar e ao mesmo tempo, porque tinha muitos afazeres domésticos pendentes. Ela sentia que vivia uma vida que não era dela. Já que perdeu a infância, resolveu ser adulta. Engravidou e “casou”. Essa realidade é a vida de muitas e muitas meninas.

Este caso me fez entender que a luta feminista precisa ser anticapitalista muito mais do que pontual. Mantendo-nos neste sistema econômico, continuaremos reproduzindo esta sociedade patriarcal e cruel.

Estou escrevendo isto porque recentemente conversei com uma feminista que mais parecia uma juíza do empoderamento alheio. Não me sinto no direito de julgar a opção desta menina, numa realidade tão conturba. Como se todas as mulheres tivessem as mesmas oportunidades e condições de vida para tomar as decisões que ela, a feminista que conversei, avalia como mais libertária.

Antes de julgar o nível de feminismo de uma mulher, vamos ouvir sua história para entendermos suas decisões. Não podemos e nem devemos julgar outras mulheres com base na nossa experiência de vida ou com base no nosso conhecimento teórico do feminismo. Não sejamos as iluminadas. Sejamos as acolhedoras. A tal da sororidade sabe?

Mas nesse ponto faço uma ponderação. Acolher as mulheres, ouvi-las, e ajudá-las a sair de situações abusivas quando podemos intervir, é dever do movimento feminista, mas não pode ser a única tarefa. Os coletivos de mulheres não podem transformar-se em espaços terapêuticos imersos em emoções que não conseguem adotar o distanciamento necessário para lutar por direitos. A luta por políticas públicas com uma agenda militante é essencial em um movimento social.

A conclusão que cheguei depois de algumas reflexões é de que devemos ouvir as mulheres para entendê-las e daí avaliar como intervir nas situações abusivas, sem pré formulações acadêmicas sobre situações que nunca vivemos. Mas se reduzirmos a luta feminista a atos de desagravo, nos tornaremos um grupo que atua somente em resposta a situações de violência, com estudiosas do tema, que por terem tido mais oportunidade de estudos, se entendem como iluminadas do movimento. Esse método de atuação é perceptível em diversos coletivos de mulheres. Não podemos cair nessa cilada. Isso é corrosivo.

O movimento de mulheres precisa defender um projeto de sociedade, de igualdade, de justiça e liberdade. As reivindicações precisam ser transformadas em bandeiras políticas propositivas. Caso contrário teremos iluminadas oprimindo intelectualmente as atitudes daquelas que ainda não foram empoderadas o suficiente segundo suas avaliações.

Devemos sim fazer a diferença na vida de uma, mas não podemos perder o sentimento de que devemos continuar em marcha até que TODAS sejamos livres

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