Sobre o Feminismo na História

Muitas pessoas debatem o feminismo com base na realidade imediata e desconhecem o histórico de luta das mulheres. A proposta deste texto é fazer um breve resgate histórico sobre este tema e ampliar o debate para além dos temas contemporâneo. Hoje muito se fala no combate a violência contra mulheres e meninas. Antes disso tivemos que militar para sermos reconhecidas como dignas de termos algum direito civil, algumas até de serem consideradas “gente”.

1ª Onda Feminista:

Esta fase teve início no século XIX até o inicio século XX. Este período aborda uma grande atividade feminista desenvolvida no Reino Unido e nos Estados Unidos. Que fique entendido que a divisão histórica é didática. Tem a intencionalidade de demarcar as mudanças das principais bandeiras da pauta das mulheres.

Este primeiro momento de onda feminista foi bastante extenso e, por se tratar de algo que rompia com os padrões históricos das sociedades, levou mais tempo para alcançar as conquistas. As mulheres se organizaram e protestaram contra as diferenças contratuais, a diferença na capacidade de conquistar propriedades, contra os casamentos arranjados e pelo direito ao voto. Ainda não havia preocupação com questões referentes ao aborto, mas estava presente uma grande preocupação nas condições do casamento, já que eram negociações entre famílias que não envolviam a opinião da mulher que estaria envolvida no matrimônio. Nesta primeira onda as mulheres buscavam o direito pelo próprio corpo.

No correr do século XX que os resultados foram aparecendo. O voto foi permitido às mulheres a partir de 1918, no Reino Unido. Ainda assim, só tinham tal direito as mulheres com mais de 30 anos. Já nos Estados Unidos a manifestação das mulheres ligava-se a outros fatores históricos também. Muitas das que integraram a Primeira Onda Feminista foram defensoras do fim da escravização no país antes mesmo de lutar por seus direitos. A conquista do voto aconteceu no ano de 1919.

Interessante falar das mulheres negras nesse período, pois enquanto a maiorias das mulheres brancas lutavam pelo direito a voto, ao seu corpo e ao trabalho, as negras eram coisas, propriedade dos homens brancos, sempre trabalharam e sequer eram reconhecidas como gente

Um grande nome dessa onda é Nísia Floresta.  No Brasil, em 1922, nasceu a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que tinha como objetivo lutar pelo sufrágio feminino e o direito ao trabalho sem a autorização do marido.

2ª Onda Feminista:

Esse segundo movimento durou até a década de 1980 e recebeu o slogan “O pessoal é político”, que foi criado pela feminista Carol Hanisch. A nova fase identificava o problema da desigualdade como a união de problemas culturais e políticos, encorajando as mulheres a serem politizadas e combaterem as estruturas sexistas de poder.

Neste momento o feminismo se consolidou como um discurso de caráter intelectual, filosófico e político que buscava romper os padrões tradicionais, acabando assim com a opressão sofrida ao longo da história da humanidade pelas mulheres. O movimento ganhou muita força, sendo endossado por homens e mulheres que defendem a igualdade entre os sexos.

Foi também no começo da década de 1960, especificamente em 1964, que apareceu a frase “Liberação das Mulheres”. Esta foi usada pela primeira vez nos Estados Unidos e acabou se tornando fundamental para todo movimento feminista. A Segunda Onda Feminista passou a criticar a ideia de que as mulheres teriam satisfação em apenas cuidar dos filhos e do lar. As mulheres queriam o direito de trabalhar, sustentarem-se e serem respeitada com igualdade de capacidade.

No Brasil, essa fase passou pelo momento de crise da democracia. Além de lutar pela valorização do trabalho da mulher, o direito ao prazer, contra a violência sexual, também lutou contra a ditadura militar. O primeiro grupo que se tem notícia foi formado em 1972, sobretudo por professoras universitárias. Em 1975 formou-se o Movimento Feminino pela Anistia. No mesmo ano surge o jornal Brasil Mulher, editado primeiramente no Paraná e depois transferido para a capital paulista e que circulou até 1980.

3ª Onda feminista:

Teve início da década de 90 e se apresentou como meio para corrigir as falhas e as lacunas deixadas pela fase do movimento que veio antes. A terceira fase procurou contestar as definições essencialistas da feminilidade que se apoiavam especialmente nas experiências vividas por mulheres brancas integrantes de uma classe média-alta da sociedade. Com o questionamento do padrão branco de classe média-alta das feministas, mulheres negras começaram a se destacar no movimento e negociar seus espaços para revelar as diferenças vividas por mulheres com diferentes condições sociais e étnicas.

A Terceira Onda Feminista é fortemente marcada por uma concepção pós-estruturalista, refletindo claramente abordagens micropolíticas preocupadas em responder o que é e o que não é bom para cada mulher. Foi marcada por diversos questionamentos internos. O olhar crítico das feministas sobre o próprio movimento que integravam permitiu o florescimento de novas ideias e a redefinição de estratégias.

Pode-se dizer que Problemas de gênero de Butler, é um dos grandes marcos teóricos dessa terceira onda, assim como o Segundo sexo de Simone de Beauvoir foi para a segunda.

4ª Onda feminista

Inicia-se nos anos 2000 e ainda estamos nela. Dá-se no período pós-neoliberal e tem caráter anticapitalista. Traz também os desafios da horizontalização dos movimentos feministas e da construção coletiva do diálogo intercultural e intermovimentos. Poderia ser definida como um processo de democratização de gênero no âmbito das instituições e da (re)formulação de políticas públicas, assim como de revitalização da agenda clássica do feminismo na busca por direitos, desta vez a partir dos desafios colocados pelo movimento contemporâneo de transnacionalização do feminismo, de globalização das agendas locais das mulheres e de fermentação das estratégias feministas horizontais.

A luta feminista em sua “quarta” onda, também reforça o princípio da não-discriminação com base na raça, etnia,  orientação sexual, nacionalidade ou religião. Neste sentido o movimento feminista precisa ser interseccional. As mulheres trans devem estar incluídas nos movimentos feministas. Se o objetivo é a luta por uma sociedade sem hierarquia de gênero, existindo mulheres que para além da opressão de gênero, sofrem outras opressões como racismo, lesbofobia, transmisoginia, urgente incluir e pensar as intersecções como prioridade de ação e não mais como assuntos secundários.

A Marcha Mundial das Mulheres (MMM) – Movimento feminista da “quarta” onda – teve origem numa manifestação pública feminista no Canadá, em 1999, cujo lema, inspirado em uma simbologia feminina – “pão e rosas” –, expressava a resistência contra a pobreza e a violência. Mantém até hoje esse primeiro mote, mas vem ampliando sua conotação, convocando o conjunto dos movimentos sociais para a luta por “um outro mundo” (designada de “altermundialismo”), e por novos direitos humanos, em que sejam superados os legados históricos do patriarcalismo e do capitalismo, conforme registrado na “Carta Mundial das Mulheres para a Humanidade”

“Esses sistemas se reforçam mutuamente. Eles se enraízam e se conjugam com o racismo, o sexismo, a misoginia, a xenofobia, a homofobia, o colonialismo, o imperialismo, o escravismo e o trabalho forçado. Constituem a base dos fundamentalismos e integrismos que impedem às mulheres e aos homens serem livres. Geram pobreza, exclusão, violam os direitos dos seres humanos, particularmente os das mulheres, e põem a humanidade e o planeta em perigo”.

A luta, portanto, pela transversalidade dos direitos humanos, expressa na Carta, possui cinco valores de referência: igualdade, liberdade, solidariedade, justiça e paz; ou seja, a MMM pretende ocupar o espaço de uma organização feminista transnacional baseada nas lutas antiracistas e antimachistas e dos ativismos antiglobalização. Tais bandeiras transformaram-se em reivindicações coletivas da Marcha e tem sido em torno delas que a MMM não só consegue se comunicar com o conjunto das tendências do feminismo contemporâneo, dos movimentos de mulheres de base local e global, mas também com outros movimentos sociais, com outras especificidades e simpatizantes de suas causas, formando uma rede global de redes de movimentos, identidades plurais, radicalizando a democracia, a partir dos níveis locais, regionais, nacionais, até os transnacionais, na direção de uma cidadania que se propõe planetária.

Eu sou militante da Marcha Mundial das Mulheres do Paraná e dentro da MMM componho o Núcleo de Feminismo Anti-racista Dandara.

Seguiremos em Marcha até que todas Sejamos Livres

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