A naturalização da cultura do estupro

imageNa novela da Rede Globo “Verdades Secretas” uma adolescentes de 16 anos mantinha uma relação abusiva com o padrasto. Agora uma pré-adolescente do programa MasterChef Junior,  da rede Band, sofre um assédio criminoso nas redes sociais. O resultado do estímulo é evidente. Ainda não vi nota de nenhuma das duas emissoras sobre o caso. `o des-serviço da mídia a sociedade, reproduzindo e incentivando cultura do estupro.

A erotização da infância não é algo recente. Em nossa sociedade patriarcal sempre foi moralmente aceitável. Parece absurdo, mas não é. É tranquilamente admissível o interesse de homens mais velhos por “novinhas” e em muitos casos até estimulado, como acontece (há séculos) na cultura de baile de debutantes.

O baile de debutantes surgiu em reinos europeus, sobretudo na França, Inglaterra, Alemanha e Áustria. As famílias realizavam um baile para a sociedade, tendo como objetivo principal mostrar que sua filha estava se tornando uma mulher. A própria origem da palavra francesa début significa estréia, início. A função do baile era atrair possíveis pretendentes para a moça. Desta forma, mostrar que ela já não era mais criança significava dizer aos homens que ela estava pronta para ser uma boa esposa e mãe.

Uma das justificativas para “oferecer” as meninas tão cedo em casamento é a falácia de que as meninas amadurecem mais cedo. Sabemos que isso é resultado de uma cultura machista que normatiza que as meninas são co-responsáveis pelas tarefas domésticas e cuidadora dos mais novos da casa e em alguns casos dos idosos também. Além disso, desde cedo as meninas são vítimas de violência sexista e aprendem de pequena a como fugir destas situações. Tudo isso colabora para este fim precoce da infância nada natural.

Enquanto isso os meninos são estimulados as atividades da vida pública. O esperado e cobrado de um homem jovem por nossa sociedade é a reprodução do machismo através da objetificação das mulheres. É visto como arroubo da juventude. E quando chega o “tempo de casar” ele vai procurar uma moça de família, e se for “novinha”, é aceitável, afinal ele está se propondo a casar.

E assim naturalizou-se a pedofilia. Quando passa dos limites aceitáveis como no caso da participante do programa supracitado, ou quando a menina é exageradamente nova, há imediata culpabilização da vítima. As justificativas geralmente são o amadurecimento precoce; as roupas que a menina utiliza; a maneira como dança; o horário que anda na rua; a cor da pele; ou até mesmo sua beleza natural. Há uma absurda inversão de valores onde o homem passa a ser somente uma vítima que respondeu a uma provocação sexual.

Precisamos debater este tema e desconstruir a cultura do estupro. Não podemos mais aceitar como admissível que a mídia estimule este tipo de comportamento e se cale diante dos casos de assédio. Devemos pautar em todos os espaços a democratização dos meios de comunicação para conseguirmos sair desta grade conservadora, machista, racista e homofóbica que a TV aberta nos impõe.  Devemos sim exigir que gênero seja debatido nas escolas e que o machismo seja abordado como uma das formas de violência contra as mulheres e meninas.

Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres

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