Cavalheirismo é gentileza ou é machismo?

Para não deixar dúvidas começo informando a todos que cavalheirismo é sim uma forma de manifestação machista. Leia o texto até o final antes de discordar.

Definição e prática de cavalheirismo: Ação, característica, atributo ou comportamento de cavalheiro; qualidade de quem demonstra gentileza, cortesia, civilidade. Na pratica cavalheirismo é ser gentil com as mulheres; Andar entre a mulher e a rua; Abrir a porta para as damas; Oferecer-se para carregar a bolsa; Pagar a conta do restaurante e motel.

A princípio parece que ser cavalheiro é sinônimo de ser educado. Até seria se esta prática não fosse direcionada exclusivamente as mulheres. O entendimento de que as mulheres são mais fracas e precisam de ajuda e proteção, a ideia de as mulheres precisarem estar sob a guarda de um homem, o pensamento de que as mulheres são inferiores fisicamente e emocionalmente e de que elas precisam de alguém que as dê suporte são pensamentos que formam à base do cavalheirismo. E sim, isto é machismo!

Vejo nas redes sociais mulheres que elogiam seus companheiros dizendo que são cavalheiros. Estas afirmam que o cavalheirismo é atributo de poucos homens que insistem em serem românticos e gentis em uma sociedade individualista e competitiva.  Que grande inversão de pensamento.

Vamos então questionar alguns pontos que sempre vem a tona nessa discussão:

1 – NO PRIMEIRO ENCONTRO O HOMEM TEM QUE PAGAR A CONTA.

Por quê? Por que ele comeu mais? Ela não tem renda? A próxima vez será dela? Não aceita cartão? Ela não gostou da comida? Ela não gozou no motel?

Curioso é o fato de mesmo quando uma mulher pede a conta, o funcionário por regra entrega a fatura ao homem. Podemos aqui relembrar que os homens recebem 30% a mais do que as mulheres. Porem o fato é que a convenção social determina que o homem pague a conta independente da renda da mulher ser inferior, igual ou superior a dele.

Quando comecei a namorar meu atual companheiro eu já era funcionária pública, morava sozinha e vivia de forma completamente independente. Ele na época era estudante universitário, sustentado pelos pais, sendo ele o filho mais velho com duas irmãs mais novas. Eu ganhava mais do que o pai dele.

A primeira vez que fomos a pizzaria com os amigos dele, eu sem nem pensar fui pagar a nossa parte. Ele ficou tão constrangido na frente dos amigos que entreguei meu cartão e senha para ele fazer “a cena” de que estava pagando. Hoje quando relembramos essa história damos risadas.

Uso esta história para reforçar que pagar a conta não está relacionado ao maior salário, e sim a quem tem o poder na relação. Afinal, quem vai pagar tem inclusive o poder de escolha.

Ainda tem aqueles que defendem que dividir a conta é coisa de amigos. Quando há “interesse” o homem tem que pagar. Esse raciocínio carrega a ideia de que o homem precisam de alguma maneira pagar para ter a afetividade ou o sexo com a mulher. Gostaria de lembrar: NÃO SOMOS MERCADORIA. NÃO NOS TRATEM ASSIM!

2 – AS MULHERES EXIGEM QUE OS HOMENS SEJAM CAVALHEIROS.

Não podemos esconder que existem mulheres que ainda não foram atingidas pelo debate feminista.  Algumas defendem cavalheirismo sim. Porém a maioria delas quer cavalheirismo em tempo integral. Questiono:

Ele ajuda a carregar a bolsa e ajuda no trabalho doméstico? Abre a porta para todas as mulheres, sem exceção? Ajuda a diarista a carregar o balde pesado? Dar banho nas crianças, arrumar pra escola, ajudar na refeição é função de quem? Depois da transa pede para a mulher preparar lanchinho?

Geralmente o cavalheirismo é seletivo. Quando não é somente no momento da conquista é com a sua mulher ou com quem ele determina como frágil. Não é comum cavalheirismo com a faxineira, com vendedoras ambulantes, com a cozinheira, com a garçonete. Daí ser educado é suficiente. Em alguns casos é até exigido que elas cumpram a função de abrir as portas e carregar peso. É claro que isso tem um recorte racista. Mas quero dizer aqui que o cavalheirismo está muito associado a mulheres sexualmente desejáveis.

Transcrevo as palavras do blogueiro Alex Castro:

“Dez mulheres são assassinadas por dia no Brasil, colocando-o no 12º lugar no ranking mundial de homicídios contra a mulher. Uma em cada cinco mulheres já sofreu violência de parte de um homem, em 80% dos casos do seu próprio parceiro. Em 2011, o ABC paulista teve um estupro (reportado!) por dia. Na cidade de São Paulo, uma mulher é agredida a cada sete minutos.

As mulheres são mortas em tão grandes números, e por seus próprios homens, porque existe uma cultura machista no Brasil, onde as mulheres são vistas como tendo menos valor, onde as mulheres são rotuladas ou como santas ou putas, onde uma mulher viver abertamente sua sexualidade é considerado ofensivo ou repreensível, onde a sexualidade de uma mulher tem impacto direto sobre a honra de seu companheiro.

Se os homens pensam que abrir uma porta ou carregar uma mala bastam para compensar esse circo dos horrores, estão muito enganados.”

Não por acaso, uma das conclusões de uma pesquisa de Peter Glick e Susan T. Fiske sobre o assunto foi que os países e culturas que mais reforçam o sexismo benevolente também são os que mais praticam o sexismo hostil. Em outras palavras, os mais cavalheiros são os mais machistas:

“O sexismo benevolente “recompensa” mulheres quando elas desempenham papeis tradicionais, enquanto o hostil pune as mulheres que não se comportam de acordo com os padrões ideais machistas.”

Esse teste, em inglês, elaborado pelos cientistas que criaram a pesquisa acima, mede suas atitudes sexistas benevolentes e hostis.

Minha defesa é que devemos ser gentis com o próximo independente do sexo. Quando digo “devemos” quero dizer que homens e mulheres devem ser gentis, e quando digo “com o próximo” também quero dizer com homens e mulheres. Abrir a porta para o outro passar, dividir o peso quando o outro estiver carregando algo pesado, dividir a conta ou revezar quem paga, são atitudes obviamente promotoras da igualdade.

Desconfie de falas como “não se preocupe com isso”, “isso é meu dever”, “você merece”. A sequência esperada é “se preocupe em manter seu corpo bonito”, “seu dever é manter a casa arrumada”, “eu mereço sexo quando EU quiser”

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