Não sou moreninha, chocolate ou marrom bombom. Sou Negra e com orgulho!

Incontáveis vezes já tentaram me convencer de que eu não sou negra. Por que meu nariz não é largo o suficiente, porque não tenho lábios enormes, porque não sou “azul”. Sim eu tenho os traços do rosto fino, mas também tenho pele escura, cabelo crespo, e ancestrais que vieram da África forçosamente em navios negreiros e que foram escravizados aqui no Brasil. Eu me autodeclaro negra. Porque então que certas pessoas tentam me convencer do contrário?

Vamos as origens…

Ao fim da escravização no Brasil, os abolicionistas não tiveram a preocupação de garantir aos negros  meios para sua sobrevivência, como direitos a saúde ou educação, e nem mesmo a posse da terra para sua residência. Os negros, que até então não tinham outro trabalho a não ser o braçal se viram sem labor ou onde morar, considerando que não poderia mais permanecer nas terras do seu antigo senhor e muitos não tinham condições de se deslocar para os afastados quilombos.

A transformação do trabalho dos negros de escravizado para assalariado, se deu de forma paulatina e nas piores colocações. A qualificação era imprescindível no regime capitalista e, justamente por apresentar mais procura do que oferta, o mercado de trabalho era seletivo, estando os negros em último lugar na ordem de preferência.

Apesar do negro ter alcançando a igualdade jurídica a partir da abolição, a ideologia de 400 anos de escravidão se mantinha forte. Infelizmente, o passado escravista registrou no inconsciente coletivo a absurda noção da inferioridade do negro. Isto atingiu também muitos negros, que se sentem inferiores em relação à sua condição, chegando a negar a sua própria cor, valorizando a cultura branca como padrão ideal.

Por causa das razões históricas, os negros continuam sendo um dos setores mais pobres e sofridos da sociedade brasileira. Deles foi tirada a liberdade, dificultada a conservação de sua cultura e memória e, até hoje, não foi restituída efetivamente a condição da plena cidadania.

Sendo então, no período pós abolição, os negros os mais pobres, com menos oportunidade de estudos, com as piores colocações no mercado de trabalho, os moradores das favelas e marginalizados socialmente, por óbvio identificar alguém como negro é quase xingamento.

A valorização da cultura branca, até mesmo por negros, pode ser constatada pela pesquisa da psicóloga e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, Ângela Fátima Soligo. Em sua pesquisa, a professora pediu aos entrevistados que atribuíssem dez adjetivos aos homens e mulheres negros. Os pesquisados utilizaram adjetivos positivos para definir os negros, como competentes, alegres, fortes. Em seguida, eles foram estimulados a qualificar esses adjetivos, atribuindo-lhes características.

O resultado final revelou que a maioria dos entrevistados, aí incluídos também os negros, limita-se a reproduzir os chavões sociais. O negro é alegre porque gosta de samba e Carnaval, forte porque se dá bem nos esportes e competente para trabalhos braçais. “O adjetivo é positivo, mas o papel social ligado ao negro mostra um preconceito arraigado na nossa cultura”, concluiu a estudiosa.

Mesmo nas exceções, a regra se confirmou. “Houve um entrevistado que disse que o negro pode ser um advogado competente, mas apenas para livrar outros negros da cadeia, isolando-os à condição de bandidos e marginais”. A pesquisa reforçou a tese de que o brasileiro pratica um “racismo camuflado”: em tese, diz que não tem preconceito, mas prefere limitar as possibilidades e potencialidades da raça negra. Por exemplo, na pesquisa, não houve identificação do negro com o intelectual ou o político.

Os dados da pesquisa foram semelhantes em todos os estados pesquisados, inclusive na Bahia – cuja capital, Salvador, tem população predominantemente negra e esta culturalmente ligada a tradições africanas. Ela apontou que o modelo, a conduta e a história dos brancos são mais valorizados em nossa sociedade. Com isso, os próprios negros acabam incorporando uma imagem negativa sobre sua raça.

O Brasil recebeu ao longo de sua história, migrantes de várias nacionalidades, várias etnias e culturas. É comum o argumento que brasileiro não tem traços fenotípicos que o caracterizem, devido tamanha miscigenação. Não é raro ouvir que não existe racismo no Brasil, visto que somos todos seres humanos, que independente da quantidade de melanina expressa todos somos geneticamente miscigenados. Porém a história da escravização dos negros em nosso país deixou cicatrizes sociais que não tem mistura de cor que cubra.

E quanto mais negra você for maior a discriminação. E quanto mais parda você for, mas tentam te convencer que você não é negra. Nem sei quantas vezes passei por isso. “Negro é somente o africano escuro e “sem mistura””. Daí eu pergunto: então sou o que? dentre Negros, Brancos, Indígenas e Orientais, em qual você me classifica? Essa pergunta nunca encontra resposta.

Ao que parece a sociedade brasileira não quer os negros. Quer seres humanos miscigenados. Quase brancos. Quer retirar nossa identidade racial. Quer nos invisibilizar.

Os 400 anos de escravização criaram raízes de pensamentos discriminatórios profundas. Foram anos de políticas de negação e exclusão. São diversas formas de manifestação de preconceito. Precisamo de muitas políticas afirmativa e inclusivas para sarar esta ferida histórica da nossa sociedade. Precisamos reiteradamente nos Auto afirmar

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