Debater raça é debater socialismo

Em uma oficina feminista, ouvi uma militante do movimento negro dizendo que não é aceitável movimento feminista que não discuta questões de raça. Pois enquanto as mulheres brancas lutam por igualdade salarial com os homens, as mulheres negras lutam para ter salário igual das mulheres brancas. Enquanto as mulheres brancas lutam pela igualdade na divisão de tarefas doméstica e responsabilidade sobre criação dos filhos com os homens, as mulheres negras lutam para que seus filhos não morram confundidos como bandidos pela polícia.

Esta intervenção me marcou. Sou negra e sou mulher. Crescer em uma sociedade onde a ditadura da beleza dita às regras sobre o corpo da mulher já é difícil. Quando seu corpo é negro, é ainda mais. Ter bunda e peitos fartos, ter cabelo crespo e pele negra, te coloca em duas condições: Ou você é da “cor do pecado”, “mulata globeleza”, ou seja, serve para despertar desejo, fetiche sexual; ou você precisa se adaptar a beleza branca, alisando o cabelo, emagrecendo o quanto puder para suavizar curvas e farturas próprias da sua genética.

Quem vive essa realidade sabe bem a necessidade da discussão de gênero e de raça. Porém ainda há dentro da esquerda muitos companheiros e companheiras que entendem que discutir opressões específicas é desvirtuar o debate socialista e medidas de inclusão são medidas paliativas que não resolvem a questão e sim suavizam o capitalismo. Parece-me a ideia de quanto pior melhor. Quanto pior estiverem as condições dos trabalhadores, mais próximo estaremos de acontecer a revolução.

Pois bem. Concordo que são lutas paliativas. Entendo o fato de que só o socialismo vai acabar com o racismo. Isso não significa dizer que as lutas imediatas são inúteis, pelo contrário, as lutas são fundamentais, mesmo dentro do capitalismo, e devem caminhar no sentido de enfrentar o racismo e incorporar os negros a condições dignas de vida.

Vamos fazer uma reflexão histórica:

“1) o negro se encontrava em condições de miséria no pós-abolição; 2) a estrutura agrária permaneceu inalterada; 3) a ideologia mais abertamente racista havia ganho forte espaço no Brasil mas não respondia às necessidade da década de 30, à crescente demanda de mão-de-obra industrial e ligada a serviços urbanos; 4) as transformações exigidas pelo impulso industrial, o primeiro momento no qual o povo negro se insere no circuito produtivo após a abolição (o segundo será nos anos 60 e 70) abriam caminho para uma visão mais mitigada, mais nuançada das relações raciais no Brasil (…). Não haver no Brasil um sistema legal de segregação racial, como nos Estados Unidos ou África do Sul, tornou-a mais permeável; entretanto, o mito da democracia racial diz muito mais da elite brasileira e da mentira que deve contar a si mesma e ao país, do que das relações raciais concretas. É, em última instância, uma ideologia semicolonial por excelência”[1]

Com isso quero lembrar que a burguesia criou a separação dentro da classe trabalhadora. Isso faz com que setores sejam obrigados a aceitar as piores condições de trabalho e de vida. Não consigo entender  militantes de esquerda com conhecimento da história da população negra em nosso país (e no mundo) que ainda assim defendem que debater raça não é estratégico na luta contra o capital. Os negros, e em especial as mulheres negras, são as que moram nos piores bairros, as que mais sofrem com a ausência de serviços públicos (saúde, educação, saneamento, transporte, etc.), as que ficam mais tempo desempregadas ou subempregadas, as que trabalham nas piores funções, as primeiros a serem demitidos nas crises e as últimas a serem contratadas quando há crescimento, as que recebem os piores salários, etc., além de sofrerem com toda uma série de violências físicas e psicológicas, com a discriminação, o preconceito, perseguições, assédio, etc.

A luta contra opressão tem muitos significados. Primeiro o de empoderar o oprimido. Mostrar que ele não é o que a sociedade determina e sim que ele é igual em potencial a qualquer outro. Digo em potencial porque sermos todos humanos não determina igualdade em nossa sociedade, enquanto não houver igualdade de oportunidades não somos realmente iguais. Empoderar o oprimido tem por consequência a origem de novos militantes que debatendo raça, debatem concepção de sociedade.

Segundo o de fazer com que os demais entendam que há sim discriminação. Essa ideia de somos todos mestiços é uma falácia. Alguma loira ouve na escola seus coleguinhas dizendo que seu cabelo é ruim e comparações com esponjas de aço? Alguma branca já ouviu brincadeiras sobre se nasceu de noite, ou se passou tempo demais no forno, ou se foi pintada, como se nascer negra não fosse algo normal? Sem contar que as religiões de matizes africanas são tratadas como sendo satânicas, malignas, de magia “negra”. Em Curitiba, onde moro atualmente, nunca fui atendida por um médico negro. E é a capital mais negra do Sul do país. Será que só branco sonha em ser médico?

Racismo não existe? Será? Gato preto dá azar, consciência negra é suja, magia negra é maléfica, a cor do pecado é a negra, ovelha negra é a rebelde da família, denegrir é tornar a imagem de alguém ruim, enquanto clarear, esclarecer isso sim é tornar algo positivo.

O racismo é um problema social e histórico. Existe porque as classes dominantes construíram uma hierarquia na exploração, dividindo os explorados por descendência de cor, país, gênero, etc… Isso significa dizer que o debate de raça tem que ter recorte de classe, assim como a luta de classe deve debater raça

 Assistam o vídeo no link abaixo. Vale a pena

 

[1] http://www.ler-qi.org/As-origens-da-questao-negra-e-seu-papel-em-nossa-revolucao

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