No Carnaval, Pega a visão

O Carnaval no Brasil é uma festa popular realizada durante 05 dias desde 1892, antecedendo o início do período da quaresma católica. É constituído por blocos de carnaval, bailes de fantasia, festas de rua e caracterizado pela irreverência.

O costume de usarmos fantasias no Carnaval vem da Grécia, Roma e Egito Antigo, quando as máscaras eram utilizadas para misturar o respeito da então festa religiosa com a diversão de reunir diversas pessoas. Tempos depois, na cidade de Veneza, na Itália, os mais ricos se fantasiavam para poder ir disfarçados nos bailes nas comunidades mais pobres, considerados os mais animados.

No Brasil, as fantasias evoluíram com o passar do tempo. As roupas servem para que possamos nos divertir ao nos passarmos por outros seres, seja um super-herói, uma princesa, seres mitológicos, personagens de filmes e desenhos ou um animal. O grande objetivo é que todos possam se reunir com alegria, deixando de lado qualquer tipo de preconceito e utilizando adereços para se camuflarem com criatividade no meio da multidão.

Porém algumas fantasias de Carnaval perderam o objetivo da irreverência e passaram a retratar o ódio de classe, o machismo e o racismo. Fantasias como Black Face, Empregada doméstica, Homem vestido de mulher, Indígena, ou Iemanjá além de serem machistas, preconceituosas se apropriam de culturas de povos e religiões marginalizadas.

O Black Face ou Nega Maluca ridiculariza as mulheres negras com evidente manifestação de apropriação cultural e racismo. O Black face surgiu por volta de 1830, quando homens brancos se pintavam de preto (de forma caricata) e se apresentavam para a aristocracia branca com o objetivo de satirizar a população negra, e demonstrar os negros e negras como burros, fortes, hiperssexualizados e primitivos.

A fantasia de Empregada Doméstica, na maioria das vezes de forma erotizada, evidencia as relações de poder e o machismo. Em geral na interpretação desta fantasia a empregada precisa satisfazer os desejos do seu patrão, naturalizando o assédio sexual, a cultura do estupro, o ódio de classe e também o racismo visto que é uma profissão desempenhada por maioria negra.

Homens vestidos de mulher no carnaval reproduzem o comportamento imposto pelo patriarcado como papel feminino. Além de ser machista e desrespeitoso é preconceituoso contra as trans e reforça os estereótipos de gênero. Em geral os homens imitam mulheres como frágeis, gostosonas e que dizem ‘não’ somente para fazer doce. É um desserviço a luta feminista que desconstrói a imagem da mulher como fraca, que defende todas as formas de corpo e afirma que Não é Não!

A população indígena passou por um genocídio. Sua cultura e seu direito a terra ainda hoje é atacado pelo capital. Ao usar roupas indígenas e imitá-los como povos selvagens desconsiderando sua luta pela sobrevivência como nação, fica evidente o preconceito e apropriação cultural.

Fantasiar-se de uma divindade é desrespeitoso para qualquer cultura. Fica ainda pior quando se tratam de religiões que já sofrem com a intolerância. A fantasia de Iemanjá é um insulto. Ofender a fé e a sacralidade além de demonstrar a própria ignorância sustenta a mensagem equivocada de que algumas religiões são melhores do que outras.

A dica é: vamos nos divertir no carnaval, e muito! Sempre garantindo que não estejamos ofendendo ninguém. Vamos respeitar as manas, as monas, as minas, de todas as origens étnico-racial e social.

Somos um povo muito criativo e certamente podemos fazer fantasias que sejam divertidas e não agrida ninguém.

Que tal o desafio de fazer um carnaval livre do machismo, racismo e ódio de classe?

Pega a visão

 

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Ventriloquismo branco

Depois de tanto tempo de luta dos movimentos de negros e negras, a sociedade começou a achar racismo deselegante. Grande parte ainda não vê o racismo como algo grave, muito menos como sendo crime, parece mais uma gafe, um deslize que gera desconforto e, portanto melhor não fazê-lo de forma descarada.

Porém o racismo é um elemento estruturador da sociedade brasileira, e segue em constante atualização, ou seja, novas formas de manifestação são elaboradas dentro do que é socialmente aceito, inclusive dentro do campo progressista.

Além da apropriação do capitalismo da nossa cultura, seja nas vestes, na dança, na música, com intenção de obtenção de lucro e de minimizar a pauta, também temos que lidar com os privilégios da branquitude dentro dos espaços de militância.

Foram séculos onde os brancos e brancas falaram por nós, sem a nossa voz. Agora querem a nossa voz, porém falando por eles. Quando reivindicamos o lugar de fala para apresentarmos nossas lutas, para falarmos de como resistimos e de como nos assassinam, seja socialmente, seja através do racismo institucional, ou de forma direta através do aparato repressor do estado, nos chamam de “pós-modernos”. Quando exigimos que o discurso de classe seja imbricado com o debate de gênero e raça nos tratam como se estivéssemos queimando as obras de Karl Marx. Quando elevamos nossa voz para debater temas da política geral como economia, segurança pública, educação, saúde, democracia, reformas neoliberais, dizem que nossas palavras fortes e emotivas, conseqüência de sofrer na pele os impactos da mais valia e do conservadorismo,  banalizam o debate.

Ao mesmo tempo em que calam nosso protagonismo, querem utilizar nossa imagem para demonstrar como o grupo político é plural e democrático. Destacam negros e negras como imagens públicas. Mas fica nisso. Na imagem.

Já tive a decepção de participar de debates com negros na mesa que somente compunham o cenário.  Não tinham fala. Como não convidaram negros como palestrantes acharam que seria uma boa opção colocar um negro na mesa junto com o mediador. O mediador conduzia o debate e o negro/a era a “imagem da pluralidade”.

Diversas vezes me neguei a fazer falas públicas quando militantes chegam pedindo para que eu represente o movimento naquele espaço, mas que na minha fala eu diga isso, isso, isso e aquilo. Como se nós negros e negras fossemos a marionete e o branco o ventríloquo.

Alguns grupos políticos têm a preocupação de chamar negros e negras quando o assunto é racismo, geralmente em novembro, e só. Para outros temas tem os intelectuais da academia ou aquelas lideranças perpétuas que impedem a renovação geracional, todos brancos. Sobre isso, nos espaços auto-organizados que participo, reforço que independente do tema que nos propuserem temos de fazer todos nos ouvir falar sobre gênero, raça e classe. Não aceitamos que limitem nossa capacidade cognitiva. Façamos sempre limonada.

O mais interessante é que quando essas situações ocorrem, os brancos que a praticam acreditam que estão de fato visibilizando um negro. Não percebem o racismo cordial praticado. Não percebem que não abriram mão de nenhum privilégio e sim estão nos usando para melhorar a própria imagem ou de seu grupo. Será mesmo que não percebem estas manobras?

Juliana Borges afirma que para a branquitude, há um ideal de negro a ser aceito e imposto, e que se aprofunda em relação às mulheres negras, como um tipo passivo, incapaz intelectualmente e, como diria Beatriz Nascimento, “oligofrênico”, “mero objeto sexual”. Isto fica evidente, por exemplo, em ambientes autodenominados de esquerda e progressistas quando, sob qualquer protesto ou denúncia de negros em relação a um branco “apoiador”, pede-se que negros e negras sejam “compreensíveis”, “calmos” e, pior, educadores constantes daqueles e daquelas que vivem sob os privilégios de seu fenótipo como herdeiros de uma herança construída por estupros, usurpação, tortura, desumanização, escravização, assimilação e aculturação.

Para a esquerdobranquitude fica o lembrete:

Usar-nos como decoração para passar a idéia de representatividade é racismo.

Usar-nos como imagem pública do grupo político, porém com roteiro escrito por um branco iluminado, é racismo.

Limitar nossa capacidade de elaboração política a um único tema é racismo.

Já cometeu um destes atos? Não arranje desculpas mirabolantes para justificar. Aceite que cometeu um ato racista, se proponha a não mais fazê-lo e interferir quando percebê-lo em andamento.  Fora disto você seguirá contribuindo para o ciclo de atualização das formas de manifestação racista

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Entre Santa e Puta, escolhi ser Livre!

O debate recente sobre a polêmica do funk me fez perceber como a sexualidade da mulher ainda é sacralizada. Conforme explica Wanda Horta, o sexo é uma necessidade humana básica incluída dentre as necessidades fisiológicas tais como a fome, a sede, o sono, a excreção e o abrigo. Sendo uma necessidade fisiológica em organismos íntegros, o sexo precisa ser vivido para que tenhamos plenitude na satisfação das necessidades fisiológicas.

É claro que temos situações onde por questões físicas ou psicológicas o sexo deixa de ser uma necessidade. Não trato aqui desta situação. Nem tão pouco das pessoas que optam, pelo motivo que for, pela vivência da castidade.

Considerando que temos tranquilidade de conversar entre nós sobre a saciedade da fome, da sede, do sono, da excreção e da necessidade de abrigo, gostaria de ponderar sobre a interdição do debate sobre o sexo, ainda mais quando tratamos de mulheres.

No movimento feminista, o debate da sexualidade traz a contribuição de que o casal deve permitir que ambos sejam protagonistas na atividade sexual. Que o ato deve trazer prazer para todos os envolvidos, e para isso deve haver respeito às regras previamente consentidas. Temos palavras de ordem como “Meu corpo, minhas regras”, “Tenho direito de beijar quem eu quiser”, “Não, é Não”. Percebo, porém, que precisamos avançar no debate da sexualidade para além da permissibilidade.

Por que ainda é escandaloso uma mulher dançar transbordando sensualidade? Por que quando uma mulher se sente bem com o seu corpo e usa roupa transparente, decotada ou curta, ela ainda é julgada como se estivesse usando um subterfúgio para compensar algo (falta de talento, falta de competência, falta de inteligência)? Por que falar abertamente sobre a maneira como você se satisfaz sexualmente é um tabu? Porque ainda há quem diferencie as mulheres entre inteligentes e gostosas?

Fazendo estes questionamento percebi que há insegurança conceitual entre o que é viver a sexualidade versus mercantilização do corpo ou até mesmo confusão entre a liberdade dos corpos e a hiperssexualização.

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Chamamos de mercantilização do corpo a utilização do corpo como objeto consumível, seja de forma direta – através de troca monetária, para exclusiva satisfação física e/ou psicológica de outro – ou de forma indireta como é feita pela mídia. Recentemente uma peça publicitária de cerveja fazia a apresentação de seu produto em diversos tamanhos e recipientes. A garrafa de 600 ml se igualava ao volume do seio da modelo. A campanha não apresentou este produto visto que os seios da modelo eram suficientes para a demonstração do volume consumível. O mote da campanha era “Faça a sua escolha”. Neste caso a mulher não foi considerada sequer como possível consumidora, somente como produto de comparação, visto que a indústria da estética permite que o volume do seio seja também escolhido. Fica na subjetividade que o homem pode pagar pela cerveja assim como pelo seio no volume que preferir para sua satisfação, como se a ele o corpo da mulher pertencesse.

A hiperssexualização é um debate que precisa ser feito em conexão com a imposição de padrões de beleza. A beleza da mulher branca é tida como algo apreciável, algo que causa encantamento próximo ao angelical. A beleza normatizada é jovial, alta, magra, cabelos longos, olhos e pele clara sem imperfeições. A constante exposição de modelos que representam o que é considerado belo causa em grande parte das mulheres uma busca por um corpo que não é seu. Isso permite o crescimento de um mercado lucrativo que oferece a possibilidade de mudança física como caminho para a auto-estima.

O padrão de beleza determina uma única forma de corpo como aceito e a diversidade de formas como abominável e não saudável. É uma violência psicológica contra as mulheres. Muitas acreditam que só encontrarão ou manterão seu par, quando atenderem a expectativa de beleza imposta, ainda que a custa de sacrifício alimentar e intervenções cirúrgicas. A beleza neste caso, não é para satisfação pessoal e sim para atrair e manter o homem e rivalizar com outras mulheres.

Enquanto o padrão de beleza para a pele branca é associada ao divino, ao angelical, a pele negra é associada ao pecado, aos prazeres da carne. A estrutura racista do sistema capitalista enraizou na sociedade que os corpos negros são selvagens, viris e violentos. Servem como fetiches para serem abusados tanto para o trabalho braçal como para o sexo. Neste sentido as mulheres negras são consideradas atraentes, e não bonitas, de acordo com o apelo sexual do seu corpo. Isso é demonstrado fortemente na mídia com a representação da mulata globeleza: mulher negra de pele clara, seios e bunda farta, pele coberta de óleo (representando o suor do corpo negro trabalhador), que tem como única função entreter espectadores ávidos por curvas. Hiperssexualizar a mulher negra é excluir dela a condição humana e reduzi-la a objeto de satisfação sexual de outrem.

Formou-se assim no imaginário coletivo a ideia de que a mulher branca é para casar e apresentar socialmente como a cuidadora do lar, enquanto a mulher negra é para a diversão sexual masculina, o que inclusive corrobora com as estatísticas de estupro e feminicídio.

Em resumo, a mercantilização do corpo é uma estratégia do capital para utilização do corpo como objeto comercial passivo com potencial lucrativo, e a manutenção de padrões de beleza assim como a hiperssexualização são resultados de estereótipos construídos pelo patriarcado para solidificar o papel das mulheres, e para o deleite dos fetiches masculino.

Romper com estas formas de opressão é apresentar para as mulheres o conceito de autonomia sobre seus corpos e sua vida. É defender que a mulher pode ser sensual por estar bem resolvida com o seu corpo, independente do formato que ele tiver, e que exercer a sexualidade é permitir a vivência do que lhe proporciona prazer sem medo de julgamento moral.

Exercer a sexualidade é direito de todas nós, seja qual for a classe, o pertencimento étnico-racial ou a orientação sexual. É libertador utilizarmos nossos corpos da maneira como quisermos para dançar, cantar, vestir e transar. É transgressor as mulheres assumirem o protagonismo sexual dizendo ou cantando que gostam, sim, de sexo e de qual forma preferem, fugindo do papel sacralizado de rainha do lar para as brancas e de escrava sexual para as negras ou da categorização entre gostosa ou inteligente.

Utilizar o potencial erótico não significa fazer menos uso do intelecto, não significa ser fútil, assim como ser intelectual não significa ser frígida. Entre Santa ou puta, escolho ser LIVRE.

Porém para de fato sermos livres, não podemos somente ficar na disputa de pautas identitária. Precisamos manter em primeiro plano a luta contra o patriarcado, mas também contra o sistema capitalista que se alicerça na exploração através da mais-valia e utiliza o racismo e o sexismo como ferramenta para sua manutenção. O feminismo que acredito não é somente uma questão identitária, parte da compreensão de que é necessário superar o atual sistema econômico para alcançar a igualdade, e que para isso é necessário entender a relação entre gênero, raça e classe e intervir neste imbricamento de opressões.

Dito isto, tenhamos em mente que podemos exercer nossa sexualidade, dançar até o chão, usar roupa transparente/curta/decotada, falar sobre sexo e masturbação e inclusive fazer sexo (com proteção) livremente sem que isso seja mercantilizar ou hiperssexulizar o nosso corpo. O sexo é uma necessidade básica fisiológica do ser humano, assim sendo devemos falar sobre isso com naturalidade e não com falsos pudores.

Este malabarismo conceitual que pretende culpabilizar as mulheres pelo machismo dizendo que viver sua sexualide e seu potencial erótico é manter a cultura do estupro, parte da elite pudica e da classe média moralista que para manter seus privilégios não podem compactuar com o rompimento do status quo. Eles sim tem interesse em manter o monopólio da definição do que é arte, do que é comportamento aceitável e do que fere os princípios e bons costumes das famílias de bem. A classe dominante não pode nos convercer que a vivência da nossa liberdade justifica a misoginia. Não vamos nos permitir cair nas armadilhas do patriarcado.

Feminismo é Revolução, e como disse Emma Goldman, “se não posso dançar não é minha revolução”

 

 

 

 

Cultura pra quem?

“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

 Este trecho da música do Titãs retrata uma realidade conhecida, porém seletivamente ignorada, de um grupo social marginalizado que, além da restrição aquisitiva, tem negado o seu direito à cidade. Vivemos em uma sociedade que para manter a ordem do capital, segue uma política higienista que define quem tem direito a ocupar qual espaço. A consequência direta desta exclusão silenciosa é a determinação do “não lugar” de cada grupo social.

O “não lugar”, apesar de ser despercebido pela maioria de direitos, é percebido cotidianamente quando se é negro, pobre e favelado. Por vezes o “não lugar” vem de uma proibição direta de acesso, como por exemplos nos shoppings que não permitem a entrada de grupos de jovens de periferia, para o “rolezinho”. Outras vezes percebemos o nosso “não lugar” através de um segurança que nos segue pela loja, pela falta de atendimento no comercio, pelo olhar de desprezo relacionado as nossas roupas, gírias e manifestações.

Porém como diz a música, queremos também diversão e arte, e para isso o povo preto e pobre da favela, que tem muitas vezes seu acesso negado no asfalto, cria suas próprias oportunidades, seus ritmos, sua dança, seu estilo, sua cultura. Assim começam os bailes de favela.

Na década de 70 começaram a ser realizados bailes black, soul, shaft e funk no Rio de Janeiro. Com o tempo, os DJs foram buscando outros ritmos de música negra, e sua própria batida, mas o nome original permaneceu. O funk carioca tem uma influência direta do miami bass e do freestyle.

Os Mestres de Cerimônia, ou MC, escrevem suas letras com base na vivência da comunidade, com a linguagem da comunidade. Por isso ao escutar um funk, vale a pena tentar entender o seu contexto. Há letras que tratam da violência, da criminalidade, do analfabetismo político, do desrespeito à lei e de sexo. Não se pode esquecer que o funk nasce como manifestação de comunidades onde a violência é cotidiana, de uma realidade de exclusão social e repressão pelo aparato do estado. A associação da realidade transmitida nas letras do funk ao crime é determinada pela discriminação social que se tem com as favelas.

O funk fala de uma realidade que as elites não querem ouvir. Usam um vocabulário que não é politicamente correto. A dança livre de pudores sobre o corpo e sua sensualidade escandaliza pais preocupados. O baile unifica a comunidade, o bom e o mal.

Nos anos 90 e 2000 eu frequentei o baile funk no Rio de Janeiro. Primeiro nas matinês da Circus com banho de espuma, depois nos bailes de rua da Merck, no Country Club de Jacarepaguá na Praça Seca e no Castelo das Pedras. Tinha Lado A e Lado B, cada qual com facções rivais e por vezes tinha briga no baile. Porém os próprios MCs faziam letras pedindo que não houvesse enfrentamento dizendo “briga pra que?… pare e pense um pouco mais e violência aqui nunca mais. Massa funkeira não me leve a mal, venham com paz e amor curtir o festival”. Mas a maior briga era com a polícia que insistiam que frequentadores de baile funk eram bandidos e utilizavam de sua autoridade para interferir, em nome da lei e da ordem, como bem quisessem.

Por um bom tempo o baile foi proibido. Nesse período o funk de protesto ganhou força. “Diversão hoje em dia, nem pensar. Pois até lá nos bailes eles vem nos humilhar. Ficam lá na praça onde era tudo tão normal, agora virou moda à violência no local. Já não aguento mais essa onda de violência, só peço a autoridade um pouco mais de competência”

Muito disso se deve a defesa de que cultura é aquela que está nos museus, em artistas premiados, imposta pela classe dominante, cara e de difícil acesso. Para estes, música de verdade é aquela que se paga um valor exorbitante para ir em um show, portanto o baile de favela, o fluxo, não se enquadram neste quesito. Reconhecer como cultura o que vem do quarto de despejo, é reconhecer as desigualdades que ela esfrega na cara da sociedade, é reconhecer que o sistema em vigor explora e oprime. Isso não interessa a elite.

Além disso, a industrial musical somente queria propagar o funk que romantizava a pobreza, estigmatizando as demais manifestações como música de bandido ou hipersexualizada. Cobravam do funk a retratação do morro similar ao que a música caipira faz com a realidade do campo. O que não esperavam é que o funk não aceitasse ser domesticado.

No movimento cultural, principalmente musical, foi preciso muitas vezes que o próprio movimento se impusesse sobre as forças que lhe impediam de continuar a luta pela existência. O Rock foi rotulado por anos como música demoníaca feita para drogados com o lema “sexo, drogas em rock’ roll”. A trajetória do samba também teve criminalização e associação à malandragem. Essas simplificações levam ao preconceito e à perseguição.

Em 2013 a Comissão de Cultura da Câmara dos deputados caracterizou o ritmo como manifestação cultural, porém, no Rio de Janeiro o funk já é considerado patrimônio cultural desde 2009. Isso significa que o estilo musical é uma expressão característica brasileira e que o poder público tem o dever de preservá-la e garantir que ela se desenvolva.

Mesmo assim vimos manifestações de preconceito e desconhecimento quando a Anitta em carreira internacional retoma sua origem e grava um clipe de funk no morro do Vidigal. O fato de o clipe fazer um protesto contra a criminalização do funk, o fato dela ter valorizado as pessoas da comunidade para participação no clipe, de ter utilizado elementos do cotidiano local como o biquíni de fita isolante, o banho de sol na laje e a sandália Kiwi, o fato dela propagar a imagem do morro sem associar a favela ao tráfico e a bandidagem pouco importou diante da moral puritana ofendida da classe média.

Essa mesma classe média defende a liberdade sexual da mulher e o direito ao seu próprio corpo para produzir e reproduzir como quiser, para vestir e dançar como quiser, desde que não seja em um morro ao som de funk.

Para esta classe média hipócrita, repleta de falso moralismo, que se intitula detentora da verdadeira cultura musical, mando um beijinho no ombro para o recalque passar longe

Por Zumbi, por Tereza e por nós

O Dia da Consciência Negra é celebrado em todo o país no dia 20 de novembro. A data é em reconhecimento ao líder negro Zumbi, que morreu nesta data em 1695, enquanto defendia os direitos de seu povo no Quilombo dos Palmares. A data foi incluída em 2003 no calendário escolar nacional pela Lei nº 10.639. Contudo, somente em 2011, com a Lei 12.519, Dilma Rousseff instituiu oficialmente o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra.

Esta data foi apropriada pelo movimento de negros e negras em contraponto ao 13 de maio, quando, em 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, marcando o fim da escravização de negros e negras no país. Porém, comemorar o fim da escravidão reverenciando uma pessoa branca da família real portuguesa, principal responsável pela escravidão no Brasil, não representa a nossa história de luta e resistência. Essa versão da história, infelizmente, faz com que a abolição seja apresentada como um favor dos brancos aos negros.

Na intenção de ressignificar a história, mostrando que a população negra se organizou e lutou contra a escravização, para valorizar a ancestralidade, religiosidade e cultura que resistiu com suor e sangue, comemoramos o Dia da Consciência Negra.

Temos também como marco histórico, em 25 de julho, o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, representada por uma líder quilombola chamada Tereza de Benguela. “Rainha Tereza”, como ficou conhecida em seu tempo, viveu no século XVIII no Vale do Guaporé, no Mato Grosso e liderou o Quilombo de Quariterê. Sua liderança se destacou com a criação de um Parlamento e de um sistema de defesa militar para proteção do quilombo.

Tanto o dia 25 de julho como o dia 20 de novembro são dedicados à reflexão sobre a inserção dos negros e negras na sociedade brasileira. O fato destas datas não terem sido adotadas como feriado em todos os municípios brasileiros demonstra as raízes profundas de racismo em nossa sociedade decorrente de quase 400 anos de escravização de negros e negras. Mostra também a crueldade do sistema capitalista que só aceita feriados de datas em que pode lucrar, seja com a fé ou com o comércio sentimental, invisibilizando os marcos de povos que lutam contra a hegemonia.

Outro fato que precisamos nos atentar quando debatemos a questão racial é que os avanços conquistados com os governo progressistas de Lula e Dilma, estão sendo dilapidados no pós-golpe. Entre o primeiro trimestre de 2012 e o último de 2014, o rendimento de pretos cresceu 8,6%, o de pardos 6,5% e o de brancos 5,6%. Já entre 2015 e o primeiro trimestre deste ano a remuneração de brancos teve variação positiva de 0,8% enquanto de pardos caiu 2,8% e o de pretos 1,6% segundo o IBGE. Apesar da distribuição desigual, os rendimentos de negros e negras vinham crescendo mais rápido do que os brancos. Entre 2001 e 2011, o rendimento da população negra aumentou 41,6%, ante aumento de 18,9% na renda dos brancos nesse mesmo período, de acordo com o IPEA. Apesar de caminhar de maneira lenta estávamos na direção correta. Agora estamos regredindo.

Outro retrocesso que ataca principalmente a população negra é a Lei nº 13.429/2017 das Terceirização, a Lei nº 13.467/2017 da Reforma trabalhista e a Portaria 1.129/2017 do Trabalho análogo ao escravo. Quando analisadas em conjunto é possível concluir que teremos trabalho com ampliação de jornada que pode chegar até 12 horas diárias, com negociação valendo mais que a lei trabalhista, onde os acordos coletivos podem alterar o enquadramento do grau de insalubridade e também prorrogar jornada em ambientes insalubres, com contratação sem carteira assinada e sem fiscalização para reprimir o trabalho análogo ao escravo. Não podemos deixar esta situação passar em branco.

Precisamos recontar nossa história através de vozes negras. Precisamos referendar lideranças do processo de luta e resistência como Rainha Tereza e Zumbi. Já passou da hora da sociedade entender que nosso “pé” não está na cozinha ou na senzala, mas que nossa ancestralidade deriva de povos guerreiros de diversos países da África.

E ao mesmo tempo que utilizamos essas datas como resgate histórico, também a usamos para denunciar as desigualdades e retrocessos que sofremos em decorrência das relações imbricadas de opressão de gênero, raça e classe.

“Nossos passos vem de longe” e seguiremos em caminhada construindo um projeto de sociedade igualitária, sem machismo e sem racismo

O Mito da Estupidez Humana

Nenhuma mulher merece ser estuprada. Nenhum negro ou negra pode ser depreciado por sua raça e ancestralidade. Nenhum LGBTTI deve apanhar para “corrigir” sua orientação sexual. Se você concorda com essas afirmações você concorda comigo que o Bolsonaro não serve para cargo de representatividade de qualquer coisa neste universo ou em qualquer outro.

Em entrevista ao programa “Participação Popular” da TV Câmara em 2010 ele afirmou: “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele”.

Em 2014, Bolsonaro afirmou que a deputada Maria do Rosário não merecia ser estuprada porque ele a considera “muito feia” e a petista não faz o “tipo” dele.

Em 2017 proferiu o seguinte discurso “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles. Se eu chegar lá (na Presidência), não vai ter dinheiro pra ONG. Esses vagabundos vão ter que trabalhar. Pode ter certeza que se eu chegar lá, no que depender de mim, todo mundo terá uma arma de fogo em casa, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola.”

E assim segue o mito da estupidez humana. Machista, Racista, Homofóbico, fazendo apologia ao crime de estupro e a espancamento corretivo, defendendo que mulheres devem ganhar menos porque engravidam, defendendo torturadores e a prática da tortura

Publicamente já se manifestou a favor de fechar o Congresso, de fuzilar um ex-presidente, questiona a liberdade de expressão, defende dopar presos e ser enérgico em depoimentos, que os comunistas devem ser perseguidos, despreza o sistema judiciário, promete um governo regido por militares…

Tanto no caso da incitação ao estupro e injúria contra a Deputada Maria do Rosário, como no caso de racismo ele foi condenado. Deveria estar preso, mas o mandato o protege.

Defendo a diversidade no amor e na vida. Defendo um Estado democrático onde todos e todas tenham direito de buscar a felicidade. Defendo a laicidade do estado e a dignidade do ser humano. Sou contra toda e qualquer política de ódio e incitação a violência. Se você concorda com isto você também é contra o Bolsonaro
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Precisamos dar um tempo!

Para que sigamos em marcha precisamos nos cuidar. O mês de outubro traz a reflexão sobre o câncer de mama, mas gostaria de ampliar um pouco mais este debate e falar sobre a nossa saúde, a saúde das mulheres.

Ser anti-sistêmica exige grande empenho intelectual e físico. Estamos sempre formulando análises, contribuindo em debates, intervindo em reuniões, participando de atividades de rua, além do nosso trabalho, de nossas atividades domésticas e do fundamental convívio com a família e amigos.

Eu que sou mulher, negra, sindicalista e enfermeira sou chamada para fazer falas sobre feminismo, racismo, a mulher (negra) no mundo do trabalho, sobre saúde da mulher e da população negra. Muitas vezes no intuito de dar visibilidade a mulheres negras aceito mais coisa do que minha saúde física e mental permite. Para garantir o espaço de fala das mulheres e das negras nos multiplicamos para atender todas as agendas e acabamos negligenciando uma: nossa saúde.

A militância por um novo modelo de sociedade pode ser entendida como um projeto amplo de cuidado com a população, visto que a busca por equidade social gera como conseqüência da construção de políticas públicas, o bem estar físico, mental e social. A luta contra as opressões também pode ser vista desta forma. Neste sentido posso concluir que o cuidado (e o auto-cuidado) é um ato revolucionário.

Mesmo com a correria do dia-a-dia precisamos nos cuidar. Precisamos manter pelo menos 4 refeições diárias, manter uma alimentação saudável, e beber no mínimo 2 litros de água por dia. Precisamos criar o hábito de realizar o auto-exame das mamas. É rápido e dá para fazer durante o banho. Precisamos fazer o exame Papanicolau (preventivo) todo ano. Precisamos cuidar da nossa saúde mental, e para isso precisamos nos organizar para termos tempo de lazer, ou algum hobby, isso é fundamental. Precisamos usar camisinha.

Emma Goldman uma vez disse que “Se eu não posso dançar, não é a minha revolução”.

Não podemos pensar que o cuidado é perda de tempo. Isso mantém a ideia de que o papel social da mulher é de cuidadora do outro (marido, filhos, idosos e também da casa). Não podemos cair na armadilha da reprodução social. Não podemos reproduzir a lógica de trabalho capitalista que nos impõe modelos de produtividade e meritocracia em nossa atividade militante.

Se não pudermos ter lazer, amor, diversão, prazer e se não pudermos nos cuidar, não é a nossa revolução. Com diz Gal Costa, é preciso estar atenta e forte

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